Mas voltemos aos olhos, Farnese?

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Ouviu uma música de longe. Não gostava tanto de música erudita, não se considerava erudita, era apenas curiosa. Sentia-se ainda mais curiosa nas sextas-feiras. Em um dia ‘útil’, o que deveria ouvir era no máximo um ruído, silencioso ou ensurdecedor, a depender da expectativa do final de semana.  Mas o que chegava a seus ouvidos, perfurando o tímpano, eram notas calorosas, harmonizadas por uma empatia de sofrimento. Ela mesma não sabia descrever a música em seus pensamentos. As notas misturavam sentimentos opostos como se fosse tudo na mesma feijoada. “não é bem erudito, não é um Beethoven, parece mais um monge gregoriano catando músicas da Enya… ou um gregoriano xingando sem palavras”. Quanto mais pensava sobre o assunto, mais diminuía a velocidade dos passos e observava seu entorno. Nenhum indício de tons musicais, exceto por uma antiga caixinha de música silenciada pela lama deixada pela chuva do dia anterior. Mesmo sendo apenas um detalhe daquela manhã estranha, a caixinha de música não deveria estar ali. Todo o lixo nas calçadas era recente, produzidos a menos de 4 anos. Aquela caixinha devia ter pelo menos 40 anos. Mesmo que a tenha visto por poucos instantes, o suficiente para saber que ela não tocava e que sua bailarina desnuda e sem cabeça era extremamente desagradável, manteve a imagem consigo. Parecia não querer esquecer-se daquele tempo. Mas voltemos aos olhos.

A maioria das pessoas usavam fones, e, apesar disso, tinha certeza de que menos de 78% não ouviam a música, ainda dormiam, e o restante apenas usava o fone como ferramenta de silêncio. Semblantes apáticos e passageiros. Não que ela tivesse algo contra, até a pouco também se encontrava em linha reta com destino marcado. Agora só queria encontrar a música. Sentiu-se naquelas cenas de filmes que a câmera roda várias vezes em 360 graus em torno de um objeto, mostrando a perspectiva ao fundo. Não havia nada. Na verdade, havia tudo, menos a origem das notas. Fechou os olhos com medo de ser derrubada ou assaltada ou pior, mas fechou. Uma imagem vale mais que mil palavras – parecia cometer uma blasfêmia da mesma espécie. Culpa. Não estava acostumada a ouvir, precisava anular todo o resto. Estava à direita! Parecia tão óbvio… caminhou contra a multidão, espremida. Até passou por sua cabeça o desejo de comparar-se a uma sardinha, mas sabia que teria mais sucesso se fosse um salmão. A rua dava numa praça habitada, e a esquerda dela, um prédio preto, de altas colunas. Se fosse um teatro, poderia ser um ensaio. Não pensou muito e quis apenas entrar e confirmar porque alguém ainda se importava. Dirigiu-se para uma lacuna entre duas lindas colunas marmorizadas, mas não encontrou a escada. Percorreu as laterais do edifício, sem pensar em desistir. Voltou para frente do suposto teatro, onde a lógica indicava existir acesso e entendeu que a escada era azul, por isso não tinha visto antes. Talvez fosse um projeto de arte contemporânea, como aquele trabalho em que colocaram luzes e sons em uma escada do metrô para as pessoas subirem por ela e não pela escada rolante… bom, de todo modo, era um acesso. Colocou o pé direito sobre a ponta da escada e não se sentiu segura. Parecia macia demais. Não tinha jeito, prendeu o cachecol na bolsa para não perdê-lo, e preparou-se para escalar os longos pelos azuis. Nem mesmo na época de escola era tão difícil subir na corda, provavelmente porque ela não era fofa, nem azul. Aquele brilho do pelo a distraia a cada puxão. “Por que diabos alguém colocaria uma pata de bicho azul como escada?!”. Certamente era uma pata de lembranças, porque só conseguia lembrar-se de educação física e das caminhadas na mata que seu avô tanto gostava. Pareciam cipós azuis agarrando seus pés.  Com muito esforço soltou o último fiapo do pé direito e caiu no saguão de entrada. Na iminência de levantar-se, ajeitar o cachecol e sacudir o casaco retirando alguns pelos azuis, achou melhor aproveitar a altura e pedir informação. “Bom dia, senhor, desculpe a intromissão logo cedo, mas você sabe de onde vem essa música?”. O senhor olhou para os lados, como se não ouvisse o mesmo som que ela. Demorou tanto a dar uma resposta, ou decidir-se se queria mesmo falar, que ela pode observar que ele carregava nas mãos um punhado de felpos brancos e um pedaço de pão. Parecia levemente assustado, ou surpreendido. Na demora, a respiração dela bagunçava o cachecol do senhor. “Desculpe, eu não trabalho aqui”. E virou as costas andando em passos largos. Para ele, estava a correr, para ela, o tempo estava parado, vendo suas pequenas pernas do tamanho de um alfinete se afastarem o suficiente para que pudesse se levantar sem causar nenhuma ventania que soprasse o senhor para longe com seus felpos.

Por um instante esqueceu a música, mesmo que ela ainda estivesse ali. “Os felpos não deveriam ser azuis?”. Levantou-se, ajeitou a roupa, e dirigiu-se para dentro do salão. Estava praticamente vazio, poucos móveis de madeira escura, o piso de ladrilho hidráulico era a única porção de cor. Não que o preto não fosse cor, mas os fragmentos amarelos, brancos, azuis e terrosos contrastavam com as colunas pretas e tornavam-se ainda mais coloridos. Flores azuis e amarelas… mas a música não vinha do chão. Deu algumas voltas, observando o piso e procurando o elevador. Nada, apenas um rabo azul. A música não parecia vir de cima, recusou-se a subir. Certificou-se de que não havia ninguém no chão e sentou-se. Fechou os olhos, agora sem culpa, e viu uma porta. Levantou-se, puxou o puxador (porque é para isso que servem), mas a porta não abriu. Não parecia trancada. Estranhou que o puxador não estava na vertical. Era uma barra horizontal, quase tão grande como as portas corta fogo – “entrada de cinema?!”. Tentou empurrar, mas ela não reagiu. Sussurrou: ”Abra-te, Sésamo”. Nada. “Abre, por favor…?”. Soprou. Nada. “Toc toc”, mas a porta não respondeu. Olhou em volta, não tinha nenhum vidrinho para beber poção. A incapacidade a irritou menos que o arrependimento de não ter consultado mais literatura sobre como abrir portas e criar passagens. “Claro!” – colocou as mãos no puxador e o empurrou para cima. Era um empurrador![1]

O monge engasgou. Talvez fosse a porta cortadora, ou a atmosfera do lugar impressionou tanto os olhos dela, que os ouvidos ficaram confusos. “Isso é uma bateria? Isso é… o que diabos é isso?”. Isso era, bom, nem eu sei, mas posso dizer que era impactante. Não falo para causar mistério e expectativa, apenas, ainda estou sem palavras.

(…)

Pois bem… Ora pois… Enfim… todas as enrolações para dizer que olhos e ouvidos podem ficar confusos quando o ar é turvo, e denso. Ela entrou na sala e tropeçou em um corpo sem pernas “Que bom que ainda tenho as minhas”- pensou, agora sim, um pouco culpada. A baixa iluminação não a permitia ver em que mais poderia tropeçar. Ficou parada, esperando que a retina se adaptasse. Não via sangue. Não via sêmen, nada corpóreo. De vivo, apenas os corais sem peixes.

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Aos poucos surgiram rostos, movimentos cristalizados em resina, a proteção que a madeira sempre inspirou (bata três vezes) e todo tipo de sentimento que uma memória pode conter. Sua bailarina decapitada deveria estar ali, dentro dessa sacralização do tempo.

Familiarizou-se com o espaço e os objetos, mas ainda assim, não conseguia caminhar. Ao fundo da sala, rodeado por gamelas e bonecas atentas a respiração, um oratório fechado. Seu corpo estremeceu. Era sexta-feira. Precisava abrir e ver, ou ouvir.  Dirigiu-se até o oratório, com um olhar fixo, evitando os olhos envidraçados, os corpos amontoados, os ovos que não eclodiriam e aquele estranho sussurro que vinha da música. Com muita cautela, abriu a porta da direita. Enquanto abria o outro lado, viu uma voz sorridente, de batom vermelho, sussurrar “Você, ele e eu”.

Fechou as portinhas do oratório, fechou a porta da sala e em silêncio dirigiu-se para a escada azul. “Desculpe, eu não trabalho aqui”, disse para um jovem com roupas listradas que acabava de subir as escadas. Desceu, encontrou seu caminho e como uma sardinha entrou no metrô. “E a bailarina?”.

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[1] O que nos faz pensar em uma verdade incontestável: um mundo sem placas não é um mundo.

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“Você, ele e eu”. Farnese de Andrade, s.d.

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“Hiroshima” (detalhe). Farnese de Andrade, 1970.

Sem título. Farnese de Andrade, 1996.

Sem título. Farnese de Andrade, 1996.

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“A grande alegria”. Farnese de Andrade, 1966-1978

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“A Honra da Pátria”. Farnese de Andrade, 1974-1994

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