“Hi, Tecnologia!” ou Quem são vocês dentro da Caixa?

Detalhe da performance

Detalhe da performance “Hi, Tecnologia!”, Angélica Pedroni, 2015.

Comprei um smartphone novo há dois anos. Acompanhar os avanços nos mecanismos de comunicação é importante. Não quero estar fora do mundo real. Preciso conversar com as demais pessoas e saber o que acontece Agora. Mas, meu smartphone não é mais novo. Ele já era algo barato quando comprei. Ainda assim, ele funcionava tão bem quanto os mais caros, assim como um anel de ouro é tão anel quanto um anel de madeira.

Uma semana após comprar esse “telefone” (que poucas e forçadas vezes utilizei para tal função), uma queda de cinquenta centímetros estilhaçou a delicada tela touch. Coração apertado, frio no estômago, mãos a segurar o rosto, descrença e pena. O dinheiro gasto? Não, era um aparelho barato. A decepção por ter esperado tanto tempo para esse desperdício? Não, pois não houve a menor intenção de adquirir um aparelho de última geração. Qual valor simbólico essa coisa possui para atingir como uma agulha o poro da perda?

Há quase trinta anos vi um aparelho televisor pela primeira vez. Tubo catódico envolto por plástico cinza, imagens em preto e branco, com poucas gradações. 20 polegadas? Lembro-me nitidamente das minhas primeiras reações. “O que” estava a ser mostrado pouco me interessou de imediato. Enquanto não me foi possível atingir a mínima compreensão de “como” aquele micro teatro surgia magicamente na tela, nada vi. Pequenas criaturas, miniaturas de pessoas, como elas “entravam” na caixa? Um dia me contentei com a ideia de que existem ondas, sinais, transmissores, receptores e retransmissores, assim como nos rádios. Ainda sem compreender exatamente como esses “mecanismos” atuam, aceitei sua atuação e passei a aproveitar as imagens como aproveitava os sons que saiam da estação e paravam no rádio. Essa aceitação facilitou a vida quando me vi diante de um telefone sem fio. Mas, não tanto ao ponto de me sentir confortável em utilizá-lo.

De alguma maneira, que ainda não pude rascunhar, tudo que produz imagem luminosa com rapidez maior do que minhas mãos produzem desenhos, virou magia deslumbrante. Décadas depois do primeiro contato com a tela, compreender a simplicidade de muitos desses “mecanismos” de tradução de códigos não ajuda em nada. O smartphone cai, a magia some e o coração esfria.

Em “Hi, Tecnologia!” assistimos uma destruição simbólica da mágica deslumbrante pela vontade do sujeito que se ergue e atua junto à matéria. Angélica Pedroni toma de ferramentas sumariamente mecânicas e sem mistério para torturar, destruir, descarnar e encerrar com o glamour da tecnologia travestida de imaterialidade. Ao aproximar a moto-serra da tela brilhante e gerar os suspiros e comentários do público, “ela não vai fazer isso”, evidencia-se nosso temor de que não haja qualquer espírito por detrás do plástico. Ao dispensar a hesitação no momento de golpear a imagem intocável com a madeira bruta, vemos que o “ocus pocus” digital pouco ou nada difere do porrete seco e morto, disposto a ser manipulado.

Como viver num mundo de imagens intangíveis sem permanecer hipnotizado e simultaneamente não alimentar a ilusão de dominar os objetos complexos? Como integrar os sistemas que criamos e não compreendemos sem permanecermos sentados e passivos? Como praticar algo além de receber e compartilhar? Como fazer dos artifícios mais misteriosos uma natureza tão provisória quanto a nossa? Qual a diferença entre o estereotipo e o comportamento, entre o que parece ser e o que é?

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O que “Hi, Tecnologia!” expõe não é exatamente um sentimento anti-maquínico que existiria em cada um de nós (ao menos naqueles que conheceram o livro impresso antes da imagem digital). O que essa atitude apresenta é uma dúvida sobre a localização dos significadas dos sistemas complexos. Nossa tecnologia é capenga e caguejante, por isso não sustenta satisfatoriamente o peso e a velocidade dos nossos desejos de comunicar. A performance de Angélica Pedroni espelha um cenário desenhado em “Tudo está quebrado”, de Quinn Norton. Quando seu smartphone se estilhaça, quando sua smartTV vira smartradio, quando a tela azul lhe dá bom dia e o trabalho de uma vida não está salvo na nuvem, você se sente desamparado. Você gostaria de abrir o capô, colocar uma sacola em volta do radiador e acelerar para dentro da estrada alagada. É difícil aceitar que na há mistério por detrás da tela de luz. A magia só passa a ser truque quando você nota que por detrás da fumaça e da música retumbante há um monte de fita crepe e uns funcionários doidos pra tomar uma cerveja no final do dia. Se o corpo cansa, sua TV desliga.

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