Anotações sobre “Antropologia de uma imagem ‘sem importância”

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SAMAIN, Etienne. Antropologia de uma imagem “sem importância”. Ilha – Revista de Antropologia, Florianópolis, UFSC, v.5, n.1, p. 47-64, julho 2003. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/ilha/article/viewFile/15241/15357>

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Se você se interessa por um assunto, por uma coisa, por alguém, você começa a ver “isso” em tudo o que faz. É uma reação normal do interessar-se, que em alguns casos pode se tornar um aficionado, vidrado e/ou um maníaco por algo, mas não esperemos por patologias no caso de pensar sobre imagens.[1] Você vê imagens por todos os lados como resposta mais óbvia do olhar; mas quando se pensa a imagem, há momentos do dia em que esquecer a toalha de banho faz com que a toalha deixe de ser objeto para tornar-se imagem de uma toalha estendida no varal. Não preciso fechar os olhos para vê-la no varal, mesmo que não compartilhemos do mesmo espaço. Não é a imagem mais importante do dia, da semana ou do mundo (lê-se como uma imagem que atinge significativamente outras pessoas num mesmo sentido), e mesmo assim sua presença me recorda da presença e existência de outras imagens reduzidas a códigos de leitura simplificados (em um momento nada conveniente, mas é o que o interesse faz). Preciso de apenas quatro palavras para uma identificação visual de uma imagem: fotografia – menina – nua – bomba. Poderíamos retirar a “fotografia” e talvez Kim Phuc ainda seria visualizada, e eu nem precisaria sussurrar “Vietnã”. Que tal Duas – Torres?

Mas e o que acontece com a primeira visualização de uma fotografia?  Não há referências anteriores diretamente relacionadas aos elementos de composição para guiar o olhar e o pensamento a um código específico. É dentro desse questionamento que Etienne Samain trabalha a interpretação/recepção da imagem em seu artigo “Antropologia de uma imagem ‘sem importância”. Através de uma escrita quase intimista, criamos personagens de um artigo científico: Etienne e seu filho Tiwani.

Na narrativa, Etienne nos apresenta a uma fotografia, tirada por seu filho pouco antes de este completar 8 anos, em uma viagem pela Argentina. É por meio dela que embarcamos numa viagem sobre a percepção e imaginação da imagem. “Toda fotografia é uma viagem, melhor ainda: um arrebatamento. De impressão perceptiva que sempre é, ela se transfigura numa produção pessoal simbólica”. (p.50) A fotografia não funciona sem nós, sem nossa participação; minha toalha só é imagem se ela se apresenta a mim e eu a recebo como presentificação de um objeto. [2]

Samain

Dentro do percurso dessa viagem, descrito por Etienne, ela primeiro se mostra em seu rastro formal (contraste, jogo de linhas, formas e volumes), depois seus elementos figurativos ganham sentido e então o imaginário humano entra em ação. A fotografia é interpretada por Etienne de acordo com suas referências pessoais e assim o autor cria associações com situações externas à imagem para lhe dar sentido.

São as (re-)elaborações cognitivas (p. 55). O percurso por ele criado na imagem relaciona-se, possivelmente, aos fatos ocorridos duas noites antes da foto ser criada. Ele descreve os fatos negativos e marcantes desse dia anterior, descrito em seu diário de viagem como possível origem de associações negativas e inquietantes com a composição fotográfica criada por seu filho. O vermelho da roupa que é sangue, a mão que se esconde atrás das costas pode guardar uma faca, e o olhar da moça que não desvia de quem vê a fotografia. Por entrevista, dois anos depois, Etienne questiona Tiwani sobre a foto, onde foi tirada, contexto, o que lhe chamava atenção… Nomeada por Tiwani como “O Sol e a Sombra”, não parece carregar o sentido incômodo que desperta em Etienne. Esses dois elementos que dão nome à imagem se destacam visualmente numa explosão de luz e contrastes, em roupas que estão retas e não tortas como o mundo… Mas mesmo assim, é o sol e a sombra que chamam a atenção.

“Na sua essência, a fotografia não é somente o lugar de uma produção de signos (um ato, como a designa Philippe Dubois); ela é, sempre e antes de mais nada, um signo de recepção (como a qualifica Jean-Marie Schaeffer). Mais ainda, a imagem fotográfica (e toda imagem) é um advento/evento estruturado, um “fenômeno” (aparição, manifestação) estruturado, uma estrutura que conecta um conjunto de elementos e de formas que se pensam entre si: ‘Não existe imagem simples. Qualquer imagem, cotidiana, faz parte de um sistema, vago e complicado, graça ao qual habito o mundo e graça ao qual o mundo me habita’ (Godard 1974)” (p.56).

É por esse “pensar entre si” que Etienne coloca a imagem pensada por Tiwani e por ele próprio diante da imagem vista e pensada por alguns alunos e amigos. Ele mostra a imagem e lança três perguntas que são respondidas de modo escrito:

“- O que você primeiro viu, que lhe chamou atenção?

– O que essa fotografia lhe faz pensar?

Que título ou legenda daria a essa fotografia?

As duas primeiras perguntas visavam esclarecer a relação complexa existente entre um ‘visto’ e um ‘pensado’ originais. A terceira conduzia a uma definição conceitual do ‘assunto’ evocado através dos dois primeiros momentos lógicos de apreensão da mensagem visual” (p.58).

A imagem ganha uma pluralidade de sentidos alguns mais distantes, outros similares. Por fim, Etienne lança questionamentos voltados, a princípio, aos antropólogos e historiadores, os quais não devem se questionar apenas o que as imagens podem dizer, como objeto de pesquisa, e como trabalham, mas por que existem. “Ou, ainda, o que seriam as palavras na ausência das imagens que as fizeram nascer?” (p. 63). [3] Compreendo da existência dessas sugestões, mas é estranho pensar que em um artigo publicado em 2003 ainda se faça necessário afirmar essas necessidades. Tentamos nos manter positivos sobre visões menos rígidas e subjugadoras sobre o papel das imagens, mas o que mais me encanta aqui é que podemos apontar para uma viagem entre fronteiras disciplinares, de colocar novos porquês e fugir um pouco dos manuais do como.

Perguntas à Sartre, Didi-Huberman, Lyotard, … seriam muito úteis. Mas não tenho certeza sobre como meu interesse recai sobre o impacto da existência do ato do surgir, do que vem primeiro[4], da dependência. Enfim, esse experimento de Etienne é um passo interessante para colocarmos perguntas sobre o próprio pensar a imagem. Se ela é múltipla não me basta um pensamento guiado por linhas antropológicas.

“Se é verdade que os labirintos são caminhos quase sem saídas, as fotografias, por sua vez, são saídas de todos os lados, quase sem caminhos. São, no entanto, esses caminhos que devemos ainda descobrir e explorar” (p.64).

Sabemos de uma realidade engessada que contamina grande parte das pesquisas acadêmicas, da necessidade de abrir campos, linhas de pensamento que não se limitem as amarras de cada disciplina, mas faça uso dessa diversidade. Talvez por isso a necessidade constante de apontarmos necessidades. A maior contribuição desse texto de Etienne Samain pode ser resumida em uma de suas citações muito bem escolhida: A “realidade da fotografia [e digo, da imagem]…, é uma realidade … fluida em recepção, …, documental, porém imaginária” (Boris Kossoy).

[1] Eisoptrofobia é o nome que se dá para o medo extremo de visualizar a própria imagem no espelho. Pensar sobre imagem é uma atitude extremamente arriscada. Caso, após experiências bem sucedidas sobre a construção/criação de imagens você tome partido da afirmação de que a imagem no espelho “não é real” e por isso guardaria perigos indiscerníveis para o homem da imaginária, apenas não se assuste.

[2] Lembre-se sempre da regra básica para todo mochileiro, jamais esqueça sua toalha.

[3] Em aula inaugural na UFG, Etienne fala sobre as relações entre escrita, fala e imagem. Faz uso de outros autores para mostrar que a escrita, assim como a fala, nascem da imagem. “A escrita não é uma breve descrição transcrita da palavra, […] a escrita torna a palavra visível. […] a escrita nascida imagem” (36min). <https://www.youtube.com/watch?v=8aZ5exbj3Pk>

[4] <https://www.youtube.com/watch?v=Ij0e9v2aq6w>

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