Balelas e Pataquadas

"Rabisco sem página (que deve ter algum texto abaixo)", 2016

“Rabisco sem página (que deve ter algum texto abaixo)”, 2016

– Galera de 1940, 1950, 1960 discutindo o que é mais foda, ser conceitual ou formalista, em 2016. Ah! O mundo que muda! Ah! O tempo que passa! E a Inês Brasil? E a venda de informações privadas? E os GIFs animados de pornografia? E o eterno retorno do kitsch? E a métrica dos memes?

– Compensa? Galera leu trinta vezes Arte Moderna e pensa que está preparada pra entrar no século XXI, depois que todo mundo já foi embora. É o mesmo pessoal que comeu de manhã na lanchonete do centro e depois pensou que fazia o maior sentido viajar pra Coréia do Sul pra curtir uma nova cultura.

– Super interessado nas news polêmicas da geopolítica, encontra, semanalmente, um jeito diferente de fazer algo que não é carne parecer carne, faz concerto de música improvisada na cracolância, não compra roupas sujas com o sangue dos escravos orientais, precisa ter um iphone com todas as peças encharcadas com essas mesmas hemácias, faz umas esculturas de resina e umas abstrações em papel jornal pra emoldurar e diz que aquela coisa de conceitual é balela.

– Quer que todo mundo assista TV Cultura, mas diz no vídeo que os intelectuais não fazem parte do povo. Leva chute na briga contra a polícia fascista, mas pensa que technobrega, sertanejo universitário e arroxa destruíram a música nacional. Ama Novos Baianos e detesta É o Chan! Fez umas charges pra mostrar que a colonização midiática estadunidense é uma merda, mas escolheu não estudar espanhol porque inglês tem mais mercado. Não vai ao pagode porque vomita ao som de qualquer cavaquinho, mas goza quando ouve uma guitarra elétrica.

– Tantas e tantas discussões de retardatários!

– Daqui a pouco conseguimos nos libertar do sofrimento que é alucinar que pensar e sentir são coisas distintas e ainda tem gente que insiste em negar a nova bios. Li uma série de artigos que estatistificavam o cérebro humano e desconsideravam que já agregamos corpos e cérebros digitais. Uma pataquada atrás da outra!

– São os mesmos que reclamam que as gerações mais recentes são uma horda de preguiçosos ocos. O comportamento Xerox e o mantra de valores que os supostos criadores repetem são angustiantes. Não há tapa na cara nem maratona de filosofia que resolva. É como ouvir o cozinheiro condenar o cliente por comer o alimento que lhe dá forças para trabalhar, simplesmente porque esse cliente não é cozinheiro.

– Um desses reclamou que sua geração construiu a internet e que agora essa cambada de ociosos disléxicos aí só faz compartilhar imagens randômicas com frases desconexas, ou vídeos de gatinhos. Mas afinal, pra quê raios essa porra serviria?

– Você faz uma pintura, o sujeito compra e depois você vai lá reclamar que ele deveria construir um ateliê, pois retirar a pintura de lá seria um crime daqueles!

– Desperdício poético!

[risos risos risos]

– Umas das coisas que eu mais gosto nesses artistas mais recentes (não aqueles que tem polução noturna enquanto sonham com a divulgação das fotos do seu ateliê em sites de curiosidades e se regozijam mais com a aparência do seu portfólio do que com o final de uma noite de trabalho carnal… Esses ainda vivem devaneios de novos Pollock, que são como os novos ricos do sistema da arte). É que eles provavelmente só serão chamados por algum nome depois que não houver nenhum nativo do século XX vivo. É sempre divertido tratar com coisas das quais não sei o nome e não há quem possa me dizer. É tão bom estar livre da necessidade de designar o mundo!

– Gente que gosta de criar categorias e não sabe viver sem isso… mesmo tipo que acredita nessas coisas de espírito, alma, fantasma super poderoso, mas pensa que o homem nunca foi à lua e extraterrestres são coisa de maluco. Deve ser uma vida triste…

– Daí vem aquela ideia simplista de que seres humanos tem medo do desconhecido. Alguns seres humanos tem medo do desconhecido, já que não são capazes de conviver com algo que seus pais (ou sua babá, ou professora do primário) não disseram o que era.

– Nascer, fazer o que mandam e morrer sem a consciência de que os herdeiros do mundo te acham um nécio.

– Sem consciência, essa é a parte mais irritante.

– Esse pessoal do conceitual versus formal é como figurantes com complexo de protagonista.

– Quando descobrirem qual era o filme…

(dessas conversas sazonais)

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