Canto sem cântico ou Para se perder

Eu não queria escrever uma crônica. Eu apenas iria ler o trecho inicial da página 27 do primeiro livro que eu pegasse em minha biblioteca para que você pudesse me ouvir. Eu não sei cantar, nem sou boa em declamações de poesia, talvez a leitura dê certo. Vamos ao livro: Foi Sartre que me disse apenas um título “Capítulo 1. Sartoris, de William Faulkner”[1] e me abandonou em uma pequena falta de nexo com minha expectativa. Não queria tanto, mas encontrar uma página praticamente em branco foi desanimador. Apenas um título?! Então começou nossa crônica. Eu não deveria, pois essa não era a proposta, escolher um trecho, mas acreditar no acaso.

Tentativa número 2: “Dolly! – disse, já soluçando. – Pelo amor de Deus, pense nas crianças, elas não são culpadas. O culpado sou eu, castigue-me, faça-me expiar minha culpa. Posso fazer qualquer coisa, estou preparado para tudo! Sou culpado, não há palavras que expressem o quanto sou culpado! Mas, Dolly, perdoe!” [2]. Ah, não sei o contexto dessa página 27, mas sempre que alguém me diz que não é culpa de uma criança, tendo a pensar mais do que devo na situação proposta. E a culpa não é minha pelas páginas 27 não me darem o que quero.

Fecharei o olho, passarei os dedos pelos livros na estante e em alguma prateleira, o tato me guiará com maior acaso, longe dos meus olhos, e então acharei nossa frase. Hummm Tabucchi! Quanta saudade deste livro! Tantas marcações e tenho a impressão de que não terminei de lê-lo. Ufa, foi por pouco, a página 26 está em branco! Na 27 veremos bem assim: “A dor que o despertou corria ao longo da perna esquerda, da virilha até o joelho, mas sua origem era outra, já sabia disso bem demais. Com o polegar começou a pressionar o cóccix para cima, quando chegou entre a terceira e a quarta vértebra, sentiu uma espécie de corrente elétrica que lhe percorria o corpo, como se naquele ponto houvesse uma central de rádio que emitia suas ondas para todos os lados, do pescoço aos dedos dos pés”.[3] Poxa vida, eu gosto deste conto, acho que realmente me lembro dele. Claro, lembro-me de ter feito uma resenha deste livro. Enfim, o li, mas não é bem isso que quero. Nem nomes, nem culpa, nem dor. Vamos à última tentativa para uma reflexão, antes que você desista de me ouvir. E agora?! Passeei sem querer com os dedos pela sessão de livros infantis. Lá vem problema. “Quando vem a lua” é o nome de um livro que não tem páginas, ao menos terei que contá-las, para encontrar uma 27, isso se ela existir. Por sorte, possui, por azar, não faz bem parte do livro, mas é a biografia de Antonio Ventura, o autor.[4] Vidas resumidas em linhas de títulos? Não, vamos tentar de novo, prometo que agora conseguirei. Só pode ser ironia! Diz assim, o texto de Hans Belting, “Um epílogo de algo pelo qual nos orientamos certa vez mede o presente segundo modelos que o presente não pode satisfazer.”[5]  Ora, por que busco uma frase-modelo que me oriente nessa história que já nem sei qual é? Não, não há como se satisfazer.

Só para provarmos o acaso da insatisfação, vamos ao último livro, mas não de olhos fechados. Estou de costas para a estante. Então, escolherei como em um campo minado, vamos ao 4º livro da direita para a esquerda na 3ª prateleira de cima para baixo. Não, não há livros nessa prateleira! Eles estão brincando conosco. Faremos assim, abrirei meu caderno de anotações número 3 e lerei o que está escrito na página 27. É brincadeira… uma lista de remédios e só isso. Realmente, eu deveria aprender a cantar.

[1] SARTRE, Jean-Paul. Situações, I: críticas literárias. São Paulo: Cosac Naify, 2005, p. 27.

[2] TOLSTÓI, Liev. Anna Kariênina. São Paulo: Cosac Naify, 2005, p. 27.

[3] TABUCCHI, Antonio. O tempo envelhece depressa. São Paulo: Cosac Naify, 2010, p. 27

[4] VENTURA, Antonio. Quando vem a lua. Ilustrações de Elena Odriozola. São Paulo: Cosac Naify, 2009, p. 27

[5] BELTING, Hans. O fim da história da arte: uma revisão dez anos depois. São Paulo: Cosac Naify, 2012, p. 27

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