Indagações postas por uma nachleben e dispersas por um mocotó

 

Quando você começa o dia, não imagina para onde ele vai caminhar. Apenas soma as atividades que precisa fazer, as que precisa evitar, e o ponteiro vai. Obviamente a vida não cabe num ponteiro. Pensamentos que você pensa não ter mais, voltam como se dessem bom dia pela primeira vez.

Quando você começa o dia, não imagina que discursos já vencidos voltarão à tona como se nunca tivessem sido discutidos. Parece que a luta não tem fim. Quanto mais achamos que a noção de elitismo e de dualidade entre teoria e prática não fazem mais sentido, mais elas vêm mostrar que estão mais presentes que nunca [sem falar de censuras…]. Compreendo que a ideia de nachleben não se trata disso, mas é impossível não transportar noções para outras vivências que não das imagens. A tradução já sabemos, em História e Teoria da Arte, ser impossível. Nem sobrevivência, nem retorno. Ou seria sobrevivência e retorno fora do âmbito comum das duas palavras. Sobrevivência mais como uma permanência insistente, uma sobrevida, do que uma luta contra a morte. A morte acontece, lidamos com fantasmas. E daí o retorno não ser um voltar, mas um voltar-se para aquilo que chega até nós como espectros nem sempre facilmente decifráveis. Conceito warbuguiano que puxa Didi-Huberman, que lembra Panofsky que me leva a Nietzsche e quando percebo, estou assistindo um clip que traz uma simbiose nachlebiana (não, isso não existe) e que me sussurra: “Bourdieu, Bourdieu…”.

Em cada movimento, eu verei dança ritualística e dança contemporânea, a cada porta aberta de uma revolução simbólica,[1] não conseguirei mais negar o reconhecimento de uma forma. Ouça uma palavra pela primeira vez, se encante, e depois deste dia ouvirá na boca e na pele de todos. Os cães latirão esta palavra, metamorfoseada em uma breve aparência. Como negar aquilo já conhecido? Talvez deixemos tenro na memória, para em algum momento encontrarmo-nos de novo. Digo encontrarmo-nos e não encontrar, pois na medida em que encontro, também me encontro e reencontro. O “re-” designa repetição, mas como música, nunca é tocada duas vezes iguais. Muda-se a versão, muda-se a tradução e mesmo quando tudo conflui para uma repetição de igualdade, o ambiente muda, a companhia muda, você muda.

E lá vou eu, de Nachleben, de pathosformel, para passear entre geleias de mocotó. Aquela inocência em se querer visitar memórias da infância, estragadas pela minha atual existência. O sabor, a delicadeza de tudo o que aquela geleia (que hoje eu chamaria de gelatina) abrigava, foi destruído no momento em que eu quis reviver uma memória em sua forma passada, na ideia de “mesmo”. Não era, ainda, óbvio que era uma má ideia. Compreendi, com o tempo, que não podemos reviver memórias, mas torná-las atuais quando as rememoramos. Não é possível trazer do passado um sabor que depende de tantas subjetividades, corremos o risco de estragar uma idealização. Hoje, geleia de mocotó não significa mais “copos da minha casa”, nem mesmo “gostinho de fim de semana”, mas significa “sabor desagradável” ou a máxima “deixe o passado no passado”. Afinal, como eu poderia trazê-lo intacto para o presente? Muita inocência. E mesmo que fosse possível, para que isso serviria? Não é mais interessante as misturas, os emaranhados, as instabilidades polissêmicas? Que prazer eu teria de experimentar um sabor que já conheço se posso experimentá-lo diferente todos os dias?

 

[1] BOURDIEU, Pierre. Manet: Uma revolução simbólica. Novos estudos – CEBRAP, São Paulo, n. 99, p. 121-135, July 2014. Disponível em:  http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-33002014000200121>.

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