Porta Sem Aldrava V

O quanto estamos preocupados em nos sentirmos seguros? Até que ponto desejamos que as leis sejam seguidas? O que realmente gostaríamos que as leis dissessem? Quando um crime ocorre, você deseja que ele jamais tivesse ocorrido? Imagino que a resposta para essa última pergunta seja sim, caso você pense em sua melhor amiga, sua mãe, cônjuge ou qualquer pessoa que lhe forneça suporte afetivo.

A resposta ainda seria a mesma caso seu vizinho fosse assassinado. Imagino que a resposta ainda seja sim, mas, somente se souber o nome do falecido. Do contrário, posso pensar que deseja que o assassinato não tivesse acontecido “tão perto”. Imagino também que, com a morte cruel do seu vizinho, você deseje que o crime seja solucionado. Mas, não apenas solucionado. Você talvez deseje que o assassino seja encontrado e preso. Você gostaria de se afastar da situação?

Vamos ficar um pouco mais distantes. Na cidade do lado, uns 22 km para o norte, um rapaz estuprou e esfaqueou a namorada e está foragido. Você não conhecia a moça, mas sabe seu nome, pois o crime carrega o nome dela e há um link na página do maior jornal do estado que diz “Acompanhe o Caso Fulana”. O rapaz está por aí, mas é pouco provável que seja uma ameaça para você. Você não sabe quem ele é, não se lembra do nome que deram.

Nos dois dias que se passam desde a primeira notícia, você já sabe que eles tinham um relacionamento conturbado, que ambos eram usuários do genérico “drogas”, que haviam brigado numa boate na noite anterior ao assassinato, que ele era ciumento e ela tinha saído com alguns amigos. Você já discutiu com umas dez pessoas no Twitter, quando alguns perfis disseram que ela “merecia”, outros culpavam o uso de “drogas” e o afastamento da “igreja”, outros sentenciaram que eram só dois millenials mimados que não fariam falta, outros foram até a casa dos pais do rapaz e atiraram bombas caseiras, outros repetiam mantricamente “bandido bom é bandido morto”, outros questionavam se a relação sexual pré assassinato teria sido ou não estupro, até que prenderam o jovem.

Foram dois dias de vídeos, entrevistas, reportagens e discussões acaloradas de pessoas que não conheciam nenhum dos envolvidos ou sequer viviam na mesma cidade. No meio disso, pode ser injusto perguntar, mas, você desejou que o crime não tivesse acontecido?

Imagino que você não tenha pensado nisso. Certamente o crime já aconteceu, logo, a pergunta pode parecer despropositada. Acredito também que, ao pensar no assunto, você possa afirmar que seria melhor para a moça não ter sido morta. Só que, a pergunta não é sobre isso, é sobre os seus desejos. Tenha o foco nisso ao tentar responder: você desejou, sentiu vontade, de que o crime nunca tivesse ocorrido?

Se a pergunta ainda for um tanto difícil de ser respondida, pois nem sempre compreendemos nossas vontades, podemos pensar em outra. Você desejou que o criminoso fosse preso? Provavelmente sim. Eu também. Quando ele foi preso, você procurou por imagens? Você procurou por vídeos? Você desejou que a câmera que acompanhava os policiais não tremesse tanto e o rapaz ficasse mais tempo na tela? Você queria acompanhá-los numa transmissão ao vivo? Quando a viatura foi “interceptada” no meio do trajeto e “a população” retirou o rapaz do carro e o esquartejou a golpes de facão, você também levou a mão a boca e exclamou “que horror meu deus” ou “bem feito”, enquanto dava play nos vídeos que mandaram no “grupo da família”?

É provável que não responda sim para todas essas perguntas. Creio também que, ao responder não, você seja pouco sincero. Tudo bem. Você ainda pode encontrar uma infinidade de argumentos que neguem seu desejo sádico. A vida segue por negação.

Fico realmente na dúvida sobre isso. O que você deseja com mais força, não ser morto ou não poder acompanhar o caso no jornal do meio dia?

Certo, não fico tão em dúvida. Acredito que você é sádico demais para se preocupar com a própria morte. Você nem liga de não haver cinto de segurança nos ônibus da cidade. E seria difícil negar que o jornal sanguinário te distrai, entretém. Será que você gostaria que não ocorressem mais crimes? Não haveria nenhum desses jornais. Você não teria nenhum vídeo de “corpo encontrado” guardado no celular. Você não teria nenhum bandido para odiar. Você poderia olhar a sua volta e procurar sentido no que você faz.

Esquece essa última parte, isso é meio triste demais.

Para você se divertir, é necessário que as pessoas morram, que sofram. Você é sádico. Quase todos nós somos. Raramente encontrei pessoas que não se divertiam no coliseu. Talvez isso seja inerente ao espetáculo, se divertir com algo que apenas lhe afeta na distância, por ser menos real. Não sei se isso está somente no espetáculo grandioso ou se o sadismo faz parte de qualquer jogo. Também não acredito que seja um processo tão recente ou com especificidades que somente a nossa época hiperconectada pode ter. Imagino que haja outro nível de diversão sádica quando você pode interagir com o restante da plateia e se ver no mesmo palco que o apresentador de terno que grita para animar a torcida. Eis mais uma palavra marcante. Você se diverte mais quando há para quê e para quem torcer. Discutir os destinos dos envolvidos num caso público é quase como discutir os últimos capítulos da telenovela, do BBB, a justiça no esporte chute-bolas, as futuras eleições presidenciais. E nesse mesmo caminho você ganhou mais alguns anos de gozo ou descobrir a palavra corrupção. Essa é mais uma, de muitas, varinhas mágicas que lhe permitem criar vilões.

Você precisa de vilões para odiar. Pouco lhe interessa quais sejam os heróis, contanto que haja vilões nítidos, sem motivações, rasos demais para que você possa se identificar com eles. Saia para tomar um sorvete com seu vilão. Você vai descobrir que ele não é suficientemente monstruoso para não ser você. Quando você perceber e entender que você é um vilão para alguém, que é um monstro para o outro, vai deixar de desejar o sofrimento dos seus iguais. Não. Não consigo ser tão positivo. Desculpe. Você não tem salvação.  Por vezes sequer precisa de um vilão. Basta que “jack” não esteja desse lado do oceano.

Essa é uma das muitas características que fazem com que nossa tecnologia seja capenga: ela se permite ser usada para a promoção e realização de rinhas. Nesse sentido, as tecnologias de comunicação são tão parecidas com os humanos e vice-versa, que se enganam a acreditar que a direção saudável para seu teatro e matar todos os autores ao final de cada encenação. Eis duas diferenças que a facilidade de produção e acesso a imagens apresenta com relação ao sadismo em outras épocas: a extensão e a velocidade do estrago. Me parece que estamos aptos a atiçar heróis que nos desprezam, elevá-los ao poder para que nos acorrentem e torturem, compreendermos que eles sempre foram sádicos, lhes retirar a autoridade, persegui-los até a morte e nomear novos heróis. Um desejo sincero é o de que, dessa vez, sejam atores novos nessa cena em que só existem os papéis de assassino e morto.

 

Referências

Cameron Cairnes; Colin Cairnes. “Scare Campaign”, 1’20, 2016.

Carl Tibbetts; Charlie Brooker. “White Bear”. Black Mirror, S01E02, ‘42, 2013.

Ezra Edelman. “O.J.: Made in America”, 7’47, 2016.

David Cronenberg. “Videodrome”, 1’27, 1982.

Grand Guignol, o teatro dos horrores.

Karina dos Santos Salles. “Penny bloods: o horror urbano na ficção de massa vitoriana”. Dissertação  de Mestrado em Estudos de Linguagem (Orientador: André Cabral de Almeida Cardoso). Universidade Federal Fluminense, Instituto de Letras, 2015.

Tainah Morais Lago. “Análise das Manifestações da Morte no Cinema Documentário Ocidental”. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal de Sergipe (Orientador Professor Dr. Luiz Gustavo Pereira de Souza Correia). São Cristóvão: Universidade Federal de Sergipe, 2016.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s