Perseguição até o fundo do copo

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Fabiana Pedroni. Sem local (preço a combinar) ou No fundo da gaveta. Trabalho exposto na mostra “Corpo Manifesto”, Galeria Corredor, Vitória, ES, 14/11 – 26/01, 2018

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Sentei no bar e conversei sobre aquela estranha situação. Um amigo me ouviu pacientemente, mesmo que parecesse absurdo. Toda vez que eu parava para escrever, a imagem turva do personagem vinha a mente e me atrapalhava.

Eu não deveria usar os verbos no passado, porque ele ainda me acompanha. “Tenha paciência, se dê mais um tempo para se habituar a essa nova situação”. Foi um bom conselho, mas… eu não quero mais nenhuma adaptação nem hábito. Quero minhas mãos livres e minha mente fluida de volta. Quero manter os olhos no papel e voltar a ver cada cena corporificada em palavras. E quando penso em corporificação, ele assombra. Uma mancha escura sopra toda a imagem, varre qualquer linha que insista em se alinhar.

Semanas depois, em um novo copo do bar, mais um conselho deste amigo, “Tente vê-lo, dar um rosto. Temos menos medo daquilo que vemos do que daquilo que esperamos ver e não conseguimos”. Expectativas e frustrações. Talvez ele estivesse certo, mas… e se esse rosto passasse a me assombrar ainda mais do que a nuvem de um rosto? E se eu confirmasse que ele tem mais de mim do que eu imaginaria? Essa sensação pavorosa não deu lugar a nenhuma tentativa de maior imersão. Preferi ignorar.

Assim passei os últimos dias, semanas, acredito que já tenha mais de dois meses que não vejo aquilo sobre o que eu não deveria pensar. Outras idas ao bar me fizeram abrir a cabeça forçosamente, mas me recusei a falar. A fala corporifica ainda mais o indigesto.

“Criamos um evento de bate-papo para finalizar a exposição”. Era isso, um ultimato. Nunca, até então, havia passado por situação mais absurda, detestar um trabalho e querer me recusar a falar dele. No evento, tentei explicar, mas era impossível ser clara sem abrir mão do bloqueio de sentir que estava com ele ali, bem do meu lado. Um personagem sobre o qual muito se pensa, muito se fala, parece respirar, bufar nas orelhas e deixar escorrer um suor amedrontado. Um calor que vem do outro, na raiva por estar ali sem ser desejado, e um suor em mim, aí sim, com medo de ter feito um convite inadequado.

Surge um conflito entre a necessidade de verbalizar sobre o modo como usamos o corpo, nosso e do outro, e a vontade de não falar, nem ver, nem ouvir, nem pensar. Aquela antiga expressão, varrer para debaixo do tapete, nunca teve tanto sentido e tanta repercussão negativa de culpa. Pareço dar voltas e voltas nessas palavras porque ainda, mesmo depois de tentar explicar, no bar, na galeria, fujo, me constranjo. Como pode um personagem que de mim saiu, que de mim arrancou seus hábitos, ser tão… cruel com o outro? Eu que vacilo em procurar palavras negativas, xingamentos e expressões mais próximas da ação do personagem, estava ali, em meio a essa tentativa estranha de interferir na vida alheia, de usar, comprar, abusar do corpo por um preço tão pouco. Das minhas mãos ele fez uso para criar sua agenda de consumo, do comer e cuspir de uma prostituta, do suor de um coroa discreto, muito visitado, e pago. Foi com meus olhos que ele procurou, entre suas fichas, os números que deveriam ser riscados, deixados para trás, porque não eram bom produto. Eu o acompanhei na longa tarefa de seleção, de vivência, de conhecimento daqueles sujeitos reais que anunciavam seu corpo por diversos motivos, que para ele não interessavam.

Bastava ser discreto e de qualidade. Ser o homem bem relacionado, respeitado, competente, sábio e confiável incluía esconder dos seus clientes que ele semanalmente pagava para foder com travestis. Ele não pode falar sobre isso. A grande maioria dos seus clientes, que também são homens respeitáveis em seu meio, também não podem. Essa proibição, para o homem respeitável, é um sofrimento. Para sanar sua dor, o homem defende publicamente que homossexualidade é doença, gargalha ante os vídeos de linchamento de transexuais, brada contra uma “ideologia de gênero” e espera que o sofrimento dos outros seja maior que o seu (isso talvez lhe dê algum prazer).

Nesse universo de profundo recalque, cobrar por sexo parece a única maneira de sair ganhando.

Foder, ler e anotar. Eu o acompanhei no prazer de ver um anúncio mudar. Senti a boca alargar com um sorriso do sujeito ao perceber o anúncio daquela mulher que aprendeu em poucas semanas a língua de todas as abreviações e serviços. Em poucas semanas o anúncio deixou de ser “gostosinha do interior, novata, 19 anos, atendo em local super discreto” para “INDIAZINHA 19a ninfet esti.menin s/fresc BBG ad.coroas c/local discr”. Cada caractere era um investimento que precisava dar retorno.

O que aconteceu durante este aprendizado intensivo? Ele não queria saber. Mesmo se soubesse, seria apenas mais uma observação metódica em sua agenda. E eu acompanhei todo este desenvolvimento. Com fala, mas incapaz de falar. Senti-me como cúmplice ao arquivar cada nota, adicionar marcadores coloridos que classificavam e etiquetavam[1] por padrões de serviço: as mulheres mais jovens (ninfetas e iniciantes), os coroas discretos, os travestis, o sexo a três, os preferidos, o número de visitas (visitas.. que nome sutil).

Peguei todas estas informações e coloquei em uma caixa transparente, como se elas quisessem ser vistas, mesmo que do fundo de outra caixa de madeira. Um consumo por ele sacralizado sobre um altar purpúreo. O acrílico, a madeira, quase lenho, a púrpura, quase vinho, quase sangue, sobre tecido preto, sobre um grito abafado, sobre aquilo que ainda fujo e não sei lidar. Quantas esquinas vou ignorar e consumir no riso de uma piada maldosa sobre a travesti inventiva que hoje resolveu vestir-se com um rabo de tigresa? Quantas semanas ela precisou para pensar em uma saída tão criativa entre o riso e o fetiche, entre o sexo e o cuspe, entre ser vista e ser ignorada? Quantas semanas eu ainda serei assombrada como se a vítima fosse eu? Continuo perdida, cansada da sensação de que ele ainda se alimenta de mim e da minha ignorância, e da culpa pelo sorriso que me acompanha desde a infância, na insistência em não compreender que há muito mais do que palavras abreviadas em um anúncio.

Se eu não sabia como começar este texto, se eu fugi dele por tanto tempo, ainda não sei como termina-lo. Dou voltas e voltas e voltas até o fundo…

 

[1] Sempre tive orgulho de minha organização. Quando criança, minha mãe tinha um livro caixa para controlar as colheitas, quanto gastávamos com sementes, quanto colhíamos, quanto perdíamos a cada período de chuva ou geada. Na mesma época, eu fiz um livro caixa para minha floricultura. Nunca vendi uma só planta, mas tinha o livro caixa, todo organizado. Depois compreendi que o que eu gostava não era necessariamente o fluxo de caixa, mas a catalogação. Hoje tenho todos meus livros, textos, cadernos, catalogados. Cada documento tem uma pasta, cada pasta, uma etiqueta, uma hierarquia, um espaço. Não me estranha, agora, que este personagem tenha conseguido fazer deste prazer um estranho sofrimento, uma mancha de memória. [Um amigo me perguntou se a ideia era ser este um texto angustiante. Eis minha resposta do inevitável, quando ferem meu ponto de prazer].

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