Da ilusão, da ficção, da fala e da escuta

                                                                        Texto de Fabiana Pedroni para o livro/catálogo do projeto “Escuto, os espaços falam”, de Herbert Baioco.[1]

 

Quando criança, gostava de me esconder atrás de casa e brincar de descascar o tempo. Não que naquele momento eu soubesse que a cada camada de tinta eu encontraria junções tensionais de outras pessoas, mas eu construía um imaginário de crianças que já estiveram ali a machucar as unhas. Percebi que as intempéries desgastavam a parede quando vi a primeira camada de tinta descolar-se de seu lugar. Aquela ponta tentadora para qualquer mão inquieta e ansiosa por criar marcas e puxar o que poderia haver de dentro do mundo velho me seduziu sem encontrar muita resistência. “Uma lasquinha, apenas”. E assim foi que encontrei camadas diferentes de vidas fósseis. Cada lasca retirada era uma nova forma, uma nova cor, uma nova história não contada.

Esse trabalho cobriu anos de curiosidade. Aos poucos, a observação e a subtração já não me eram suficientes. Por que não somar? Escolhi lugares específicos da parede e retirei camadas não sincrônicas, ou seja, cada espaço estaria numa camada diferente de tinta, de sobreposição. Ali inseri tintas de terra, tintas de plantas, pequenos objetos. Cavei pequenos orifícios através de várias camadas e burlei o tempo. Logo nos mudaríamos e o próximo investigador encontraria flores, linhas, botões, asas, cacos de porcelana… em camadas distintas. Não lhe adiantaria achar que cada camada corresponderia a um tempo determinado e à uma família determinada, pois a cada subtração, seria tensionado a se questionar dos fatos.

A princípio, o segundo investigador (ou em qual número será que estaríamos?) tentaria encontrar uma homogeneidade nas lascas, como eu também pensei encontrar. Um sorriso (de alegria ou irritação) se abriria na coincidência de lasca verde à esquerda combinada com a lasca verde da direita. Mas os indícios de que a universalidade não se aplica surgiriam em um novo borrão de terra perdido na ilusão do geral. Era uma brincadeira de criança, um diálogo do desejo de esconder e ser descoberto. Para finalizar o grande plano, no dia de reforma, antes de partirmos, eu disse que ajudaria a pintar a casa e, com a ajuda de meu irmão, pintamos de branco toda a parede dos fundos. Uma fina camada falsa de um só tempo.

Eis uma memória distante, que certamente eu não reviveria ou a recriaria sem as dúvidas projetadas pelo trabalho de Herbert Baioco. Se no “Teatro Estúdio” (2014-15) nós brincamos com a materialidade do tempo no recolhimento de suas ruínas, em “Escuto, os espaços falam” (2017), nos reunimos para uma escuta compartilhada dessas marcas temporais. Já não podemos recolher seus destroços, porque eles não existem. Não se trata de um teatro falecido e revivido, mas de memórias e tempos ainda correntes e deflagrados, todos a um só tempo.

O projeto, que se iniciou com uma escuta solitária, com anseios por tecnologias industriais (scanner laser automobilismo industrial), voltou-se para o compartilhamento, para o lar que todos habitamos, o lar da construção de nossa casa de memórias [“My House of Memories… is all I own”][2]. Assim, o projeto torna-se “Escutamos, os espaços falam”, não porque se utiliza de uma tecnologia de laser doméstico, mas porque fomos instigados a nos atentar para as histórias contidas em cada lugar que estivemos. Contaminados por essa percepção, somos indícios de uma ocupação fora do tempo, fora de uma história linear. Criamos o passado a todo instante em que nos detemos nesta escuta valiosa de ranhuras. E a cada escuta, permanecerei atenta para reencontrar aquele botão intencionalmente perdido dentro de uma parede que sequer sei se existe.

[1] O Projeto “Escuto, os espaços falam” é um projeto de pesquisa artística de Herbert Baioco com financiamento do Funcultura e da Secretaria de Cultura do Estado do Espírito Santo através de seleção no edital setorial de artes 016/2016 (Seleção de projetos culturais setoriais de artes visuais realizados no estado do espírito santo). Tal projeto aborda o desenvolvimento e a construção de um dispositivo óptico sonoro que traduz as ranhuras encontradas em paredes em sons, uma ressignificação das habitações, muros, paredes que delimitam territórios e criam espaços. Desde a função de prover um abrigo às intempéries ou até mesmo um espaço de confinamento, a construção desse espaço delimitado pelas paredes tem acompanhado a cultura do ser humano junto com o conceito dentro e fora.

[2] Merle Haggard, “My House of Memories”.

 

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