Desdobrar o mundo por ações coletivas

O Louvre, o Guggenheim, as grandes civilizações, os grandes festivais, os mestres da pintura, os grandes artistas, os livros famosos, os… Ah, cansei. Tô afim de ir até a esquina descobrir novas conversas. Não vou negar o valor dos objetos já reconhecidos, mas uma boa parte da glória se encontra em processos de comercialização e colonização. Se fosse possível retirarmos uma parte da aura criada por N circunstâncias, talvez não estaríamos tão cegos para a infinidade de produções e esforços que estão a nosso lado e que tem valor e ação mais efetivos para o sujeito local.

É nesse sentido que, indo para a esquina do mundo, encontro ações efetivas na minha cidade atual, Vitória-ES, na Rússia, na Alemanha, na Argentina, na Colômbia, na Austrália e por aí vai… Nesses passeios em busca de esperança, encontro dois grupos distintos. O primeiro, por um passeio educativo no Sesc Glória, o segundo, por um passeio sem grandes pretensões pelo Instagram.

O que faz a equipe educativa do Sesc Glória (Vitória) encontrar, valorizar e publicar sobre a produção de uma artista local que nunca havia exposto antes? O que move o Movimento Entusiasmo (São Paulo) para fazer várias publicações online e impressas a partir de experiências educacionais, sobretudo a Virada Educação?

Lemos, analisamos, pensamos, mas ainda ficavam dúvidas e a vontade de travar diálogo direto. As entrevistas que se seguem mais falam desta vontade do que perguntas respondidas. As respostas são certamente importantes, mas elas configuram outros sentimentos e vivências que não o de um protocolo metodológico vencido. Vamos para estes afetos:

 

As duas primeiras entrevistas foram feitas com Daniel Ianae, integrante do Movimento Entusiasmo, e Anna Charlie, convidada pelo Movimento para ilustrar e diagramar o Mistérios da Educação, publicação de 2015. Este livro está disponível aqui. Depois de algumas perguntas, há pausas para imagens e pensamentos separados das respostas pelos símbolos <<<[….]>>>

 

DANIEL IANAE

1. O livro Mistérios da educação pretende ser um produto, resultado direto das vivências na Virada Educação de 2014 ou tem outras necessidades e preocupações?

O livro não é um produto direto da Virada Educação 2014. Sobre essa questão da base de inspiração do livro, o livro parte das experiências que tanto eu, como o André Gravatá, vivenciamos ao longo de 2014 e 2015 nas experiências do Movimento Entusiasmo, incluindo a Virada Educação, mas não somente. Acredito que o principal objetivo do livro era instigar as pessoas a observar experiências cotidianas, principalmente no que diz respeito a interações no âmbito da educação, de uma forma mais poética. Sentíamos que naquele momento era possível propor por essa publicação, um registro poético e de reflexão sobre cenários cotidianos/educativos, mas que também fosse propositivo para um desvio no olhar e nas ações das pessoas.

2. Desde sua formulação primeira, houve alterações de expectativa quanto ao público alvo do material, ou mesmo de sua distribuição e circulação? Se sim, a que público este material se destina ou destinava inicialmente?

Entendemos que este livro circularia pelas mãos de educadoras(es), principalmente. Distribuímos nas escolas em que diretamente realizamos ações, mas também compartilhamos com toda uma rede de pessoas ligadas a experiências educativas nos mais diversos contextos ao longo destes anos (o livro foi lançado no final de 2015).

<<<[vale GRITAR: DISPONÍVEL AQUI! BAIXA LOGO! se quiser… peço humildemente… :p ]>>>

3. No começo do livro vocês afirmam que se trata de um livro-manifesto, “escrito mais por imagens, por narrativas e aforismos, do que por conceitos e raciocínio lógico-discursivo”. De que forma o uso de diferentes linguagens se conecta com a proposta da Virada Educação de criar diálogos entre diferentes espaços, não presos a um pensamento unicamente formal e institucional?

Acredito que o uso de diferentes linguagens pode aproximar pessoas de diferentes contextos que por alguma ocasião ainda não se conectaram, e isso tem uma força muito grande dentro da prática da Virada Educação. A Virada Educação promove encontros entre escolas, espaços culturais, coletivos e entusiastas em um território comum com a proposta de que estes encontros possam gerar mudanças significativas no relacionamento que hoje se coloca entre a educação e o lugar de aprender.

4. Como você reflete sobre o papel de publicações independentes, que circulam por diferentes nichos educacionais e culturais, nas atuais necessidades de renovação educacional?

Posso citar pelo caminho do “Mistérios da Educação”, não sei dizer pelo contexto geral da pergunta… (acredito que não haja uma grande circulação de publicações independentes que chegam com qualidade nesses nichos, mas pode ser uma falta de experiência minha).

<<<<<[Em resposta: não acredito que seja questão de falta de experiência, uma dificuldade atual nossa de encontrar materiais ofuscados por aquilo que já se conhece. Do pouco tempo que dispomos para pesquisar materiais, o mais rápido e fácil é nos depararmos com aquilo que já está ali, pronto e a nos cercar. A publicação independente se vale outras vias que não as oficiais (financeiramente reconhecidas), por isso trabalham em maior silêncio, mas trabalham, e como trabalham!]>>>>

Por essa experiência, sinto que a publicação dos “Mistérios da Educação” tem a sua importância por não se basear em experiências estritamente curriculares ou que tenham uma avaliação de sucesso baseado em critérios padronizados. Tivemos a oportunidade de contar com carinho e poesia, a educadoras(es) a possibilidade se construir experiências que valorizam outros sentidos e acredito que isto é um paralelo que grupos que não estão atrelados inteiramente ao espaço da educação formal podem possibilitar.

5. Observamos que há diferenças substanciais entre o desdobramento da Virada Educação, de 2014, os “Mistérios da Educação”, de 2017, e os livretos “Resistir até”. Você poderia apontar algumas destas diferenças, que considere mais relevantes em questões discursivas, e comentar sobre as mudanças também estéticas?

A Virada Educação acontece desde 2014, já estamos indo para o quinto ano do projeto. E certamente com afirmações mais maduras sobre o propósito e potencial das ideias que carregamos com o projeto.

Quanto aos materiais, realmente há uma mudança bem grande entre “Mistérios da Educação” (2015) e os livretos “Resistir até” (2017), mas também há muito em comum.

Acredito que o grupo (Movimento Entusiasmo) se manteve com o entendimento de continuar contribuindo com materiais e propostas relevantes para o cenário atual em que se encontram, e os cenários que mais saltavam no Brasil do começo de 2015, eram diferentes do que vivemos em 2017. Acho que isso contribuiu um pouco para que o “Resistir Até” fosse criado com uma narrativa mais direcionada, mais clara e que apontava mais diretamente as questões, ainda que uma das questões fosse a dos Territórios Educativos, que é o contorno de todo o projeto desde o início, inclusive criando contornos do próprio do “Mistérios da Educação”. Entendemos também que o momento e o tipo do discurso do “Resistir até” sugeria que o espaço fosse preenchido por outras vozes, então não somos autoras(es) dos textos do livro (exceto por um dos textos).

A estética acredito que foi uma decisão que partiu mais desses apontamentos que os textos faziam. E também faz parte a experimentação de outros processos e identidades 🙂

<<< [Mistérios da Educação é uma publicação de 2015, escrita por André Gravatá e Daniel Ianae, ilustrada por Anna Maeda (Anna Charlie) e revisada por Elidia Novaes. O grupo de três edições do “Resistir até”, disponível aqui, foram organizados por André Gravatá, Aline Oliveira e Daniel Ianae, escritos por diferentes autores e ilustrados por Rayssa Oliveira. A revisão destes três volumes continua ao cargo de Elidia Novaes]>>>

Mistérios da Educação, p. 54-55

Mistérios da Educação, p. 20-21

Resistir até o fim da discriminação racial – capa  

Resistir até que existam territórios férteis, p. 62-63

Resistir até que gênero não defina papéis da sociedade, p. 02-03

Resistir até que existam territórios férteis, p. 64-65

<<<Daniel acrescenta:>>>

Vale mencionar também que durante esse período criamos um curta-metragem, que também traz por uma outra linguagem essas possibilidades que respiramos por esses momentos: disponível aqui.

ANNA CHARLIE

1. Como é dito no próprio livro, os “Mistérios da Educação” foram escritos no plural, no compartilhamento de vivências do Movimento Entusiasmo. Como esse material chegou até você? Já havia, de antemão, uma ordenação dos textos dos 6 mistérios ou o material sofreu alterações nas divisões e ordem de textos no decorrer da diagramação?

O material chegou já dividido em 6 mistérios, o Movimento Entusiasmo já tinha uma ideia fechada de como a parte escrita seria organizada. Houve sim mudança conforme ia diagramando, principalmente em relação a quais textos entrariam e não entrariam no livro, além de ajustes no texto em si.

<<<<<Os seis mistérios da educação são: Olhar, Ousadia, Escuta, Tempo, Espaço, Consistência (e que se “comece por onde quiser”) – seguir presente (presença) através dos seis mistérios.

Mistérios da educação, p. 12-13

A cada início de novo capítulo, ou mistério, há uma advertência do Mistério da Educação.

Capítulo 1, Olhar. O MISTÉRIO DA EDUCAÇÃO ADVERTE: olhe as pessoas / com lupa no teu olhar / a cada miudeza de pessoa / um infinito vai se revelar

Mistérios da Educação, p. 53

Capítulo 2, Ousadia. O MISTÉRIO DA EDUCAÇÃO REFLETE: justificar cada ato / por causa da burocracia / impede o contato / da alma com a ousadia

Capítulo 3, Escuta. O MISTÉRIO DA EDUCAÇÃO PERGUNTA: falta de escuta / aumenta o barulho / ou o barulho / aumenta a falta de escuta?

Capítulo 4, Tempo. O MISTÉRIO DA EDUCAÇÃO APONTA: mais importante do que giz e lousa / papel e avaliação / é o tempo / tempo de entrega de si mesmo / no reino da interrogação

Capítulo 5, Espaço. O MISTÉRIO DA EDUCAÇÃO REPETE: o espaço é aberto / o espaço é aberto / o espaço é aberto / para se envolver / é preciso estar desperto

Capítulo 6, Consistência. O MISTÉRIO DA EDUCAÇÃO INSISTE: faça o que eu digo / e o que eu digo é o que faço / é o único jeito / de sairmos do estado de bagaço

Por fim, O MISTÉRIO DA EDUCAÇÃO DESEJA: abramos os caminhos / com carinhos >>> trechos retirados do próprio livro>>>

<<<

 

>>>

2. O livro é formado por textos que fazem uso da poesia, dos contos, das atividades educativas e das experiências vividas na Virada Educação. Como foi, para você, lidar com uma curadoria tão múltipla de materiais, isto é, trabalhar neste desafio de dialogar através de imagens e recursos de diagramação com textos tão diversos?

Quando ainda estávamos nas conversas sobre o livro o Movimento Entusiasmo trouxe referências do que eles tinham em mente. Acredito que na época nossa maior referência foram os livros da Keri Smith, que trabalha várias propostas (uma a cada página) para o leitor e tem uma diagramação divertida para interagir.

Keri Smith. Aqui

Essa referência me ajudou muito a criar e trabalhar cada texto individualmente, ainda que tivessem a mesma linguagem visual para não perder o sentido do todo. A ideia principal era criar algo que pudesse provocar, falar sobre assuntos delicados às vezes, mas sempre com muita poesia e de forma lúdica, que é uma linguagem muito usada pelo Movimento Entusiasmo. Toda a Virada Educação é feita por várias mãos e com muita vontade dos envolvidos, tanto dos integrantes do Movimento quanto dos voluntários, por isso quis que grande parte das ilustrações tivessem tinta, desenho a mão livre, o gestual de fazer.

Mistérios da Educação, p. 30 <<<<observe como o corpo da letra obedece visualmente o enunciado de afastamento ^^>>>

Mistérios da educação, p. 152-153″O escritor alemão Walter Benjamin ressalta que a cidade é a realização do antigo sonho humano do labirinto”.

3. Você considera que o cuidado com a diagramação das palavras, num brincar entre texto e imagem, é algo que aproxima os “Mistérios da Educação” de outros de seus trabalhos, como “Entre a âncora e o voo” ou outros de ilustração infantil? Se sim, de quais maneiras você pensa ou pensava essa aproximação?

Acho que mais ou menos, o ‘Mistérios da Educação’ foi o projeto que mais trabalhei a relação de o texto poder comunicar dessas duas formas. Acredito que esse tipo de abordagem surge muito mais quando trabalho em conjunto com o Daniel, no meu trabalho pessoal não trabalho muitos textos na imagem.

“Entre a âncora e o voo’ é um livrinho de poesia em quadrinhos, um passeio sobre mares e planícies repletas de cenas poéticas. Um convite para aproximar a poesia ao nosso dia a dia.  ‘Entre a âncora e o voo’ foi lançado de forma independente (dez/17), feito em parceria com Daniel Ianae. O livreto é o primeiro volume de uma série intitulada ‘Poesias & Quadrinhos”. (Anna Charlie, aqui).

Entre a âncora e o voo. Aqui

Mistérios da educação, p. 136

Mistérios da educação, p. 154-155

4. Quando a proposta de ilustração e diagramação lhe foi feita e quais as principais demandas que o trabalho exigia? A que público estava destinado e como você trabalhou com estas questões nas ilustrações?

A proposta foi feita em julho de 2015 e tive quase dois meses para concluir o projeto inteiro. A impressão do livro ‘Mistérios da Educação’ foi feita com apoio da Fundação SM e nós tínhamos um orçamento fechado para o projeto. Com isso em mente muitas das decisões foram tomadas a partir desse orçamento, como a escolha de papel e a impressão em 2 cores ao invés de 4, queríamos fazer a maior quantidade de livros possível, para que ele chegasse ao maior número de pessoas. A ideia era falar sobre educação de uma maneira diferente e provocar o leitor a refletir e participar do livro. Ele foi feito para todos que estão interessados em educação, desde professores, pais até as pessoas que participam da Virada Educação.

 

LUDMILA CAYRES

É produtora cultural, artista e arte educadora convidada para coordenar a equipe educativa do Sesc Glória durante as exposições A Maré da Vida, de Ercília Stanciany, e O Grande Veleiro, uma mostra itinerante com elementos lúdicos e interativos sobre a vida e obra de Bispo do Rosário. Ambas as exposições acontecem no 1º pavimento do Sesc Glória, em Vitória, de 24 de abril a 15 de julho de 2018. Como um desdobramento da mostra de Ercília, Ludmila Cayres e seis mediadores componentes da equipe educativa montaram, em um trabalho colaborativo, a publicação Notações (disponível aqui), sobre a qual conversaremos a seguir. Antes de começar a conversa, vale dizer que esta entrevista faz parte de um mais um dos esforços de engajamento para uma Educação mais ampla e inclusiva. Sem tempo, na correria do dia a dia, nos valemos dos áudios do whatsapp, cheios de ruídos, sons da cidade, pausas, fala ofegante, corrida, buzinas… ou seja, uma experiência afetiva e sem retorno (como já diziam os Mistérios da educação). Devido a entrevista ser uma transcrição de áudio, de uma conversa informal, dei-me a liberdade de frisar, em negrito, algumas partes da fala de Ludmila que são essenciais para pensarmos as ações da equipe educativa na construção de Notações.

1. O livreto Notações, confeccionado para a exposição A Maré da Vida, de Ercília Stanciany, foi feito por vários colaboradores da equipe educativa do SESC Glória. Ludmila Cayres, você poderia nos contar como se deu a formulação do material e como foi a curadoria dos textos?

Quando a gente formou a equipe de educadores da exposição, da Ercília, nos deparamos com algumas questões. Uma delas era o pouco tempo que a gente tinha para elaborar estratégias de mediação da exposição e pensar também como faríamos esse encontro de formação para os professores. Eu fui convidada para orientar os processos de formação dos mediadores e dos professores e, no meu entendimento, este trabalho deveria acontecer de maneira colaborativa. Havia uma questão de limitação por questão de tempo e por Ercília ser uma artista que presenciávamos a primeira exposição dela, a gente não tinha muito material de referência, de pesquisa, nem muito tempo para poder se debruçar e expandir em relação a pesquisa mais sistematizada, priorizamos os debates e o encontro com a obra. Assim que tivemos contato com os trabalhos da Ercília, começamos a conversar sobre o que nos atravessava a partir desse encontro, que afetamentos o trabalho da Ercília nos provocava. Aí tivemos contato com ela para conhecer um pouco mais, para ela falar um pouco de sua perspectiva, de como era seu processo criativo. Depois tivemos nossos momentos entre a equipe de educadores quando conversávamos sobre estes atravessamentos, afetamentos, desdobramentos, lugares onde a gente ia conseguindo chegar com esse contato, com a matéria-prima ali mesmo do nosso trabalho que era a exposição. Então, a gente conseguiu fazer, salvo engano, três encontros, para debate, e tinha a exposição do Bispo também junto, não era só da Ercília. Meio que ficávamos entre o que conseguíamos pesquisar sobre o Bispo, que já tinha um material extenso para nos apropriarmos, buscando relações, tensionamentos, aproximações e também distanciamentos da produção da Ercília e do Bispo.

A Maré da Vida, com Ercília Stanciany

O Grande Veleiro, Bispo do Rosário

A Maré da Vida, gravuras em tecido (matriz de móveis encontrados no lixo), Ercília Stanciany

A priori, a gente não tinha uma demanda educacional para a construção de um material educativo para a exposição da Ercília, mas, a gente começou a refletir sobre a necessidade desse material aparecer, no sentido de, por um lado, ver uma situação onde existe um projeto muito bem estruturado que vem do Sesc, vem pronto, que vem com todos seus recursos, etc., e por outro, um projeto local que vinha de uma maneira outra, de uma estrutura mais precária, vamos assim dizer. Houve uma postura de engajamento da nossa parte de não deixar a exposição da Ercília nesse lugar de maior vulnerabilidade, de precariedade, e também porque a gente começou a constatar o quanto estava sendo importante este processo de troca e de conversa para a construção de sentidos do trabalho. O trabalho da exposição em si como um todo. E a gente começou a se questionar a que lugares a gente chegaria sem esse momento de partilha e de troca, de conversa. Daí que a necessidade de construir esse material veio de uma maneira, para mim, mais profunda. Como eu tinha a responsabilidade de orientar a formação dos professores, eu fiquei me perguntando “que espaço estes professores teriam” – a gente teve quatro encontros, a gente teria quatro horas somente, então, que lugar de encontro, de diálogo, de trocas estes professores teriam. A gente enquanto equipe educativa temos uns aos outros para elaborar os nossos conceitos, nossas percepções, e quem os professores teriam para ter este lugar de construção? Pensamos, o material é um veículo para isso, uma ferramenta para isso. Então, pensamos o material como uma forma de diálogo, de conversa de partilha, sobre as impressões, os afetamentos, os atravessamentos, com o trabalho da Ercília para professores.

Nesse momento em que a gente compreende, estabelece, pra gente, enquanto grupo, que é importante fazer esse material, a gente começa a pensar como. Aí a gente pensa no tempo. Era nosso último encontro na sexta-feira, a exposição ia inaugurar na terça-feira seguinte e a gente tinha uma limitação do tempo. Como criar algo com certa unidade, com cuidado, com substância, em tão pouco tempo. Chegamos a conclusão de que cada um de nós tínhamos sido afetados por algo que tinha ficado ali, mais latente em cada um. Determinamos que cada um traria algo individual, que foi emergido no processo de troca no coletivo. Essa foi a metodologia que a gente criou. Cada um produz um material, um texto, o formato era livre, no sentido de poder ser um texto desde um caráter mais crítico, teórico, a uma produção mais poética, citações, referências, coisas que criassem uma espécie de repertório ou repositório, para essas conversas. Então não houve exatamente uma curadoria, a priori, dos textos, o que houve foi um processo. Durante esse final de semana, cada mediador foi trazendo para mim “estou pensando em escrever sobre isso, vou falar sobre isso, de tal jeito ou de outro ” e eu em diálogo com “ah acho que pode ser assim, não, de outro, vamos tentar”, enfim, cada um teve um processo muito particular de criação e eu participei nesse sentido de uma orientação. Eu era a pessoa que recebia todas as coisas. Eu tinha a possibilidade de pensar o material enquanto unidade, enquanto cada um se debruçava dentro da sua perspectiva, dentro do seu processo de criação destes textos. Cada um isoladamente e eu como essa catalizadora para a unidade. Então foi nesse esquema de orientação, de mostrar caminhos. Colhi materiais, preparei também a minha parte, nesse sentido, que acabou sendo um processo de “o que eu dou conta de fazer” dentro desse processo que precisa de editoração de material e construção de conteúdo, eu também, nesse sentido, entendi que o mais fundamental era criar uma base, um chão, um lugar comum para que eles pudessem desenvolver, porque isso também seria crucial para os próprios desenvolvimentos dos processos de mediação e eu ser essa pessoa que oriento e editoro esse material.

A priori pensamos um material que seria uma espécie de mapa mental, diposto numa folha dobrada que iria se abrindo, se abrindo, ampliando, ampliando e ampliando numa ideia de nuvem, mas a quantidade de material que foi produzido foi grande; a complexidade de se diagramar e de se pensar como estes textos iam ser justapostos num mapa me fez entender que não seria possível prosseguir com essa ideia. Percebi que existia também numa individualidade destes textos, que eles, por mais que conversassem entre si, eram autônomos. Frutos de um processo que foi coletivo, tinham uma unidade em si, uma autonomia. Daí que nasceu a ideia deste bloco de notas, que seria também uma nota de cada um sobre o trabalho da Ercília. Nesse sentido, notações porque algumas notas são propositivas e tinha essa ideia de pensar esse material como um dispositivo para disparar práticas de mediação na exposição e práticas de mediação também desses professores na escola.

Material educativo dO Grande Veleiro (Bispo) e material educativo dA Maré da Vida (Ercília, em A5)

Material educativo de O Grande Veleiro, pranchas.

Notações – material educativo de A Maré da Vida

2. Qual seria, ou quais seriam as preocupações e necessidades deste livreto? Como o conteúdo pretende dialogar com a área de arte educação?

Acho que já falei um pouco antes, mas foi no sentido de ser esse lugar de conversa, e de criação de sentidos coletivos. A página final vem nesse sentido de criar novas notas, “adicione a sua”, então pensar um material aberto. Como ele não é encadernado, ele abre essa possibilidade de ser adicionado, dentro da ideia de um potencial. Cada professor, cada leitor quando recebe esse material e adiciona sua nota, quem sabe até ampliasse isso, pensando nos seus alunos, o material seria único. “Como ele pretende dialogar com a área de arte-educação?”, ele é em si um produto, uma ferramenta da arte-educação. Ele e é arte educação em si. Ele não se pretende relacionar-se com, ele é parte de, é assim que vejo. Mais pensando numa estratégia de ter surgido nesse primeiro público alvo que era o professor, por mais que a gente entendesse que esse público seria ampliado, porque também seria um material de pesquisa, de reflexão, de fruição também para outros leitores, inclusive para outros mediadores. A gente também fez um encontro de formação para mediadores, aberto para mediadores de outros espaços, para compartilharmos um pouco desse processo de criação, para pensarmos quais seriam as metodologias, os assuntos que poderiam ser levantados em processos de mediação na exposição. A gente tinha em mente também este outro público que seriam esses mediadores nessa formação.

Notações. “Outras notas:”

Foi nesse sentido de criar um diálogo e um campo de conversa com os professores que iam levar seus alunos e trabalhar com eles na exposição. Primeiramente ele foi pensado para os professores.

3. Quando chamo este material de livreto é por falta de um nome que não o reduza, pois, aparentemente ele não é só um material educativo padrão, também não é um livro de artista, nem mesmo um livro de poesia, mas é tudo ao mesmo tempo. Você concorda com esta interpretação?

Sim, concordo nesse sentido de ele não ser um material educativo padrão, pensando nesse histórico desses materiais que são pensando como essa ferramenta de formação de interlocução entre professores e seus alunos, ele foge um pouco, sim, de um padrão, principalmente do que a gente vê no circuito de Vitória. Ele é para mim um processo experimental. Ele é meio que um entre, um livro de artista, um livro de poesia, ele é um material que se coloca dentro de uma proposta poética. No sentido também de pensar o educador no lugar da criação de poéticas, que não pode ser reservado somente ao artista e que a gente também não pode pensar esse processo de criação como sendo algo exclusivo ou pertencentes aos processos artísticos em si, produção de objetos artísticos em si que vão para uma exposição. Quando você fala de material uma palavra que me vem à cabeça que eu acho que cabe bem é pensar uma publicação, é uma publicação com caráter educativo, mas com caráter fruitivo, reflexivo.

4. O cuidado editorial e a formação material do corpo de Notações valem-se claramente de linguagens artísticas e poéticas. Você poderia comentar um pouco sobre como se deu a escolha do formato do livreto e sobre a reprodução do material?

Acho que talvez por eu também ter experimentado e ainda, de alguma maneira, ter a pretensão de continuar experimentando os processos poéticos, mais especificamente dentro do campo da educação e da mediação cultural.  Eu acho que quando pensei na editoração desse material, automaticamente foi de uma maneira muito natural minha de tentar criar uma unidade, uma unidade-conceito, que foi o que comentei um pouco no começo. De começar a entender que cada texto que vinha era autônomo, era propositivo, e quando a gente foi montar, foi também um processo colaborativo, porque partiu dos mediadores pensar que seria interessante a gente ter os papeis vegetais para pensar uma sobreposição. Ao mesmo tempo que pensamos estes textos de uma maneira autônoma, eles conversam sobre si. Então a escolha do papel também ressalta esse caráter, funde uma coisa na outra. Foi mais ou menos de uma mediadora falar “ai, será que tem possibilidade do meu texto vir em papel vegetal?”, “poxa, isso seria legal, quais os outros textos poderiam vir em papel vegetal pra gente fazer esse cruzamento?” Então, cada um foi colocando um pouco da sua demanda, de como pensava a apresentação do seu texto, até num sentido de formatação – uns estão justificados, outros não estão, uns são proposições, ocupam uma página inteira, ou não… eu entendo isso como processo criativo, de criação poética mesmo. Pensando a linguagem da publicação como uma proposta poética.

Notações, uso de papel vegetal como instrumento poético de enlaço do material em uma unidade-conceito

Notações em sua potência propositiva

Notações

Como não possuíamos um orçamento específico para construção desse material na exposição, a gente também, além de tudo, viu quais eram as possibilidades de concretizar, de materializar isso. Pesquisamos preços de material, fui lá comprar papel. Por conta de limitação orçamentária percebemos que não seria possível produzir isso numa gráfica, uma gráfica industrial, numa grande tiragem, e a gente foi fabricando isso também como um processo de zine. Foi tudo muito gostoso, acho que demandou da gente um processo de engajamento, de fazer acontecer. Exige que a gente vá lá, imprima, corte os papéis e monte cada material. Cada um foi montado manualmente pela equipe, feito por demanda, por remessa. Uma quantidade X para os professores, depois uma quantidade X para os mediadores, e uma quantidade que também ficasse disponível para qualquer estudante, professor, qualquer pessoa que pudesse se interessar por esse material e ele poder ser distribuído.

5. Quando observamos os principais trabalhos de arte educação no Estado, vemos uma preocupação crescente com a formação de professores. O material formulado para a exposição A Maré da Vida, de Ercília Stanciany, destina-se aos docentes ou pretende também atingir outros grupos, visto que também está disponível online na plataforma do issuu?

O disparador que foi nosso engajamento foi pensar esse diálogo com os professores. E entender que eles são multiplicadores e são mediadores também da exposição em outra esfera, fora do espaço institucional cultural, em uma outra instituição, a escola. A gente também já entendia e desdobrava esse material como de pesquisa para mediadores, para estudantes de artes visuais, de licenciatura, para pessoas interessadas em processos educativos dentro das instituições culturais e também como um material, nós fomos os primeiros a construir material textual, primeira publicação sobre o trabalho da Ercília. Tínhamos consciência e desejo de fazer difusão do trabalho dela para outra esfera e sobretudo colocá-lo em circulação. E essa circulação iria para além desses professores que seria nosso público inicial.

Quanto à plataforma do issuu a ideia era poder criar esse canal de difusão e compartilhamento. Na ampliação desse público ao disponibilizar na internet. Era também um desejo nosso.

Notações
… pausa para se retirar…

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