Varrer a poeira para cima do tapete

 

[1]

Nunca é só poeira. Se soprar, terá vidro, terá mesa, terá degraus ou simplesmente uma nuvem. E depois do sopro, a aranha voltará a construir sua teia, nervosa por insistirem em atrapalhar a rotina desse espaço. Não precisa fechar os olhos, as imagens aparecem a cada silêncio invadido. Uma pata de cada vez, um detalhe a cada canto do olho e perceberá que não é só poeira.

Acumular tempo, sedimentações, não implica em congelar ou esfacelar a utilidade. É um corpo performático. Os ponteiros do relógio já não contam o tempo, o ar condicionado não esfria o carpete, mas nem a aranha nem o gato se importam com isso. Não é preciso a presença de uma caixa, de um baú ou de qualquer objeto, que remeta a ação do guardar, para criarmos uma memória. Trata-se de uma gestação imprecisa, em qualquer lugar que não necessariamente um depósito. Pode até ser. Damos ao almoxarife a possibilidade de criar suas próprias memórias e ganhamos também o direito ao esquecimento.

Lidar com o lembrar e o esquecer sem criar uma dualidade é como aprender a respirar. O gato desce os degraus sem perceber que há muito o piso não é encerado. Ainda que o pó de minério não tivesse embaçado os vidros, ver o entorno não seria um problema. O espaço respira em sua performance interminável. Morre a planta do vaso, nasce um galho na parede. Esquecer é só mais uma palavra. Não criemos lamentos. Esses sim, se espalham como erva daninha. Elas cobrem as copas das árvores, entram pela janela, se arrastam pelos móveis, seguram a cadeira num só lugar e nos ludibriam a acreditar que basta.

Parada, na quina, a aranha terminou sua teia, ainda mais brilhante, na espera da nova refeição. O gato não conseguiu ficar parado por muito tempo, arrastou alguns pedaços de forro, arranhou algumas folhas e olhou para a janela. A janela olhou de volta para o gato e para os carros que paravam lá embaixo na rua. Na troca de olhares, mais um pedaço de forro caiu do teto. Era hora de o gato descer e almoçar. Isso ele sabia pelas buzinas e pela agitação da aranha e da janela.

O gato desceu e eu fiquei. Olhei para o palco e o palco olhou de volta. Pisei no palco, o palco pisou de volta. A poeira é só aparente, a madeira range seus desejos, farpa suas tensões em meus pés e não deixa esquecer que estamos em um plano-sequência. O maquinário é ocioso, mas é matéria. O corpo entra em cena e coloca em presença os anseios do sopro. O indício dessa existência nos impulsiona a adquirir intimidade com uma história que não nos pertencia. Mas, como disse Mary uma vez, “… a memória e a invenção se não são uma só coisa, estão muito próximas de sê-lo.” [2] Criamos nossa nova memória, uma narrativa da suspensão e da invenção (inventio, que é invenção, que é inventário). No palco, somamos ainda a teatralidade. Não é um dado de realização, mas de criação, de um pisar e ser pisado; de sentir as expectativas e as farpas, mesmo quando estamos calçados.

É nesse palco que ouvimos os ruídos das tábuas, os vidros quebrados ou embaçados, o cheiro da ferrugem, o sussurro do vulto, a goteira do telhado, as inquietações das lembranças, as marcas de passos e o silêncio ensurdecedor do esquecimento. Todos os ruídos de uma ruína urbana que nunca desaba. Ela sempre respira e espalha seus estilhaços quando multiplica uma memória.

Se o palco da aranha é a quina, se o palco do gato é a escada, qual o palco da memória desse lugar? Vamos subir mais um andar e ver a ponta da cidade.

teatro estúdio

[1] Este texto estava no fundo da gaveta, um pouquinho empoeirado. Composto para a exposição Teatro Estúdio, de Herbert Baioco, só agora respira outros ares.

[2] CARRUTHERS, Mary. A técnica do pensamento: meditação, retórica e a construção de imagens (400-1200). Campinas: Unicamp, 2011, p.31

.

.

.

.

.

.

.

.

.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s