Estalos

Texto composto para o podcast Não Pod Tocar, no episódio “O enforcado do Museu do Colono” [NPTS01E09]

 

Estalos. Pra quem viveu na roça o tal do estalo é sempre um alerta seguido de uma tentativa de explicação. É goteira da chuva, mesmo quando não chove, é a madeira verde a envelhecer, é a geladeira velha insatisfeita com sua carga de trabalho exaustiva, é o rato, é o gato atrás do rato, é o cachorro atrás do gato que tá atrás do rato, é qualquer coisa mais natural e corriqueira possível, mesmo que não pareça fazer sentido em algumas situações.

_ Que isso?!

– Deve ser um gato, Fabiana. – diz minha mãe.

_ Mas nem tem gato nessa casa…

_ Parece que agora tem…

É assim mesmo, melhor não perguntar, melhor não saber. Mas eu sempre quis saber. Ao mesmo tempo em que meu “ai meu coraçãozinho!” não queria saber. Se uma casa do interior já é cheia de estalos, imagina quantos estalos tem uma casa dos anos 1870? Pior, uma casa que também é museu, recheada de coisas que aos poucos perdem a vida, que não respiram, que viram coisas pra olhar e se falar sobre. Claro, como uma arte educadora, entendo que museu pode ter vida, pela narrativa, pela vivência cultural do espaço, mas a vida mesmo, aquela que transpira e transborda, essa a gente só encontra quando os vivos deixam a casa. Quando o silêncio toma conta e o estalos, ai, o estalo, ele vem ditando os limites do diálogo.

Quanto menor o tumulto, maior o isolamento dos vestígios de vida, maior ainda é a presença de uma casa que respira. Você sente, quando sozinho, aquele cheiro de casa, aquele bafo na nuca da presença daquilo que não está. As fotografias, tão silenciosas ao olhar dos turistas que se tumultuam, quando sozinhas, espreitam o irregular. Um sujeito, que percorre o lar daqueles que ali não mais estão, deve ser expulso para que a casa possa ranger em paz. A fotografia olha, se irrita e incomoda. O passo sempre esteve ali, a gota e o sussurro também, mas com muitos visitantes, não é possível perceber essa respiração tão sutil. Quando todos deixam a casa, o sussurro vira estalo, alto, briguento.

Mas quando o ouço, ou quando ouço alguém dizer que este estalo esteve lá, guardo as poucas palavras calmas da minha avó, essa que é tão agitada: “Fabiana, não é gato nem nada, é só a casa, casa boa é assim, ela fala com a gente. Tem gente que não pode mais falar, mas ela pode, porque é bom tá vivo, pra falar e pra ouvir”.

museu do colono

.

.

.

.

.

.

.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s