A soma das dobras

 

Compreendo que muitas pessoas gostem do final de semana. Apesar de passarmos a maior parte de nossas vidas a trabalhar, gostamos do final de semana porque ele é, quase sempre, nosso. Você decide onde vai, com quem vai, se vai ou se nem vai. Já nos dias úteis, estamos presos às decisões de outras pessoas, atendemos uma rotina que não foi criada exatamente por nós e somos, também, criadores de rotinas alheias. Obedecemos, mandamos e aceitamos, com total passividade, a divisão em dias úteis e finais de semana, como se a ausência da palavra “inútil” não evidenciasse o absurdo que criamos.

Para aliviar a sensação de utilidade constante do dia, é na volta para casa que mais me divirto. Depois que tomei a decisão de morar a algumas quadras do trabalho (leia “algumas” como 40 minutos de caminhada), aprendi que um corpo de escritório precisa se movimentar e que isso pode, acredite, ser agradável. No começo era cansativo, parecia uma repetição de exigências musculares e de sequência de imagens. Depois de tantos papeis assinados, tabelas organizadas, reuniões agendadas, cafés tomados, o que me garantia que o voltar para casa não seria uma sequência da produtividade do dia útil, estendida para fora do escritório? Foi com esse pensamento que comecei a tomar minhas primeiras decisões sem estar condicionada à nenhuma demanda além da minha própria. Eu quero virar à direita e pegar outra rua; eu quero entrar naquela papelaria mesmo sem uma lista de compras do escritório; eu quero dar boa noite para aquele cachorro deitado na porta do bar.

Minha avó dizia que fazer caminhos diferentes para casa era uma questão de segurança. Mas, eu descobri que era uma questão de liberdade. Se fosse uma rua pela qual eu já tivesse passado, assumiria uma nova postura, algo que me suspendesse da resposta automática do corpo-escritório: andarei olhando para o alto dos prédios; ou lerei todos os nomes dos edifícios; ou pararei em uma padaria, se existir.

Foi assim por um tempo. Aprendi muito sobre o bairro, conheci pessoas, experimentei comidas que não pensei que gostaria, até experimentar, vi casas em lugares que antes não via. Mas algo, dentro desse turbilhão quase aleatório, surgiu em uma quarta-feira. E eis o motivo de eu preferir quartas-feiras a domingos: na rua Pequeno Castor, eu encontrei um barquinho de papel. Ele estava no cantinho do ponto de ônibus, aquele que fica em frente a Salizar, a doceria da senhora Tuana. Talvez vocês não a conheçam. Eu descobri seu nome em um dia que tracei a liberdade de perguntar o nome das pessoas que trabalhavam em cada estabelecimento comercial da rua. Foi uma ideia trabalhosa, mas, hoje, compreendo que foi uma decisão importante a ser tomada. O barquinho foi um achado de grande sincronia. Castor e barco num só lugar era demais para coincidências. Ainda mais num ambiente tão distante da América ou da Europa.

No dia seguinte ao encontro, decidi passar pela mesma rua do castor. Por alguns dias, a dúvida do acaso me veio, a rua nem parecia a mesma, não havia nenhum barquinho. O primeiro eu havia levado comigo, não consegui abandoná-lo sozinho, nem na rua, nem em minha casa. Fiz outro para dar-lhe companhia. Mas, na quinta-feira, não havia nenhum barquinho, nem na sexta. No sábado e no domingo daquela primeira semana, eu não sabia, não fui procurar, pois tive receio de perder meus dias inúteis. Depois, eu verifiquei também no final de semana, mas não, o barquinho só aparecia nas quartas-feiras. Digo isto com convicção semelhante a que digo coisas em reuniões com a diretoria da empresa: Entre às 18:30 e 20:00, no ponto de ônibus da rua Pequeno Castor, em frente à Salizar, só há barquinhos de papel nas quartas-feiras, exceto em feriados.

Para chegar a todas as sentenças que coordenam essa frase, precisei fazer algumas verificações. Talvez eu até tenha montado um mapa da rua com indicações de dias de observação para me organizar, mas não me recordo perfeitamente. Muitas das coisas que compunham minha casa se perderam nesse último ano. Hoje faz um ano que encontrei o primeiro barquinho, na terceira semana do mês de outubro. Como as coisas de minha casa sumiram? Vocês já ouviram falar da Merzbau, do Kurt Schwitters? Imagino o que aconteceria com minha casa se a decisão de hoje não tivesse sido tomada. Vou explicar, a casa, o barquinho e a decisão.

Toda quarta-feira, no último ano, eu encontrava um barquinho e o trazia para casa. Para não o deixar sozinho, eu fazia outro. Na segunda semana, eu trouxe o segundo barquinho para casa, para ser somado aos outros dois que nos aguardavam. Quando coloquei à mesa, eram três barquinhos. Então, fiz mais três de companhia para cada um deles. Na terceira semana, somei um barquinho aos outros 6 e, no final, tínhamos 14 barquinhos. Para me organizar na sequência numérica, fiz a seguinte fórmula:

(N+1) x 2 = S

Nessa fórmula, N equivale ao número de barquinhos em casa e S é a soma total ao final do dia, ou até a próxima quarta-feira, quando outro barquinho chegaria. Ou seja, se eu tinha 14 barquinhos em casa na terceira quarta-feira, na quarta semana eu encontraria mais um barquinho e o somaria aos 14 (N=14), e multiplicaria por 2, para que todos os então 15 barquinhos tivessem novas companhias. Até a próxima semana, eu teria que ter 30 barquinhos em casa, no aguardo do próximo barquinho. Ao final do primeiro mês, minha mesa estava repleta de 30 barquinhos de papel, já sem a possibilidade de saber quais eram encontrados e quais eram criados. No segundo mês, eu tinha pouco mais de 500 barquinhos a disputar espaço com o queijo e a cair pelo chão ao redor da mesa. E qual foi meu espanto ao organizar a tarefa (para não dizer vontade de loucura) através da fórmula e compreender para onde ela me levaria.

Barquinhos. tabela

desmos-graph (1)

Tabela e gráfico de estimativa de contagem de barquinhos (André Martins), segundo a fórmula (N+1) x 2 = S

Se na 9ª semana eu tinha 510 barquinhos, até a quarta-feira seguinte, eu precisaria ter 1022, para me preparar para a soma de mais um e multiplicar tudo por 2. No começo pensei que fazer esses barquinhos no final de semana seria suficiente, mas, eu não poderia ocupar todo meu tempo para estar parada na frente de tantos papeis a dobrar e dobrar mais barquinhos. Levei alguns papeis comigo para a Salizar e, enquanto comia um alfajor, a senhora Tuana me contava sobre os últimos causos do bairro. Quando me dei conta, juntas, havíamos dobrado todos os barquinhos do dia. Ela não me fez nenhuma pergunta sobre o barquinho, mas, na semana seguinte, me questionou se as crianças da escola tinham gostado e me trouxe mais uma caixa com barquinhos feitos com panfletos antigos da loja. Foi aí que descobri que ela pensava que eu era professora.

Na quarta-feira seguinte, seu Mauro deixou, na doceria, uma caixa com algumas centenas de barquinhos e um bilhete: “Desculpe se alguns dos barquinhos estiverem com cheiro estranho. Não tinha onde guardar além da caixa da loja. Por sorte era de peixe enlatado! Espero que as crianças se divirtam com os barquinhos tanto quanto meus filhos se divertiram dobrando comigo. Un saludo, do Mauro da peixaria”.

Daí em diante, foi um salto. Os filhos do seu Mauro contaram na escola sobre os barquinhos e algumas crianças começaram a aparecer na Salizar, nas quarta-feiras, para fazer barquinhos e ter uma desculpa para comer doces. Uma professora soube do ocorrido pelos pais, que gostaram da ideia, e entrou em contato comigo. Ela queria agendar uma oficina de contação de histórias e feitura de barquinhos. Tentei, com toda a delicadeza do mundo, explicar que eu havia saído do escritório para casa, por um novo caminho, encontrado um barquinho no ponto de ônibus e que eu estava fazendo barquinhos para não os deixar sozinhos. Ela achou que eu estava contando história e marcou a oficina para a quarta-feira seguinte. Precisei pedir um dia de licença no trabalho, porque a atividade seria durante o dia.

Essa professora, chamada Sara, levou sua turma para conhecer a senhora Tuana, figura lendária, então descobri, ali no bairro. Talvez ela fosse a moradora mais antiga ainda viva. Mas a professora de história, da mesma escola, soube da oficina e agendou visita em outros cantinhos do bairro, o que incluiu a peixaria do seu Mauro e a sapataria da dona Dora, que a assumiu muito recentemente, após a filha ir estudar fora. A atividade seria longa demais para uma quarta-feira, então, marcaram para um sábado.

Quando as lojas fecharam, fomos todos para o parque, terminar de dobrar alguns milhares de barquinhos e compartilhar todas as histórias que ouvimos durante o dia. Eu não fazia ideia de que uma das caixas que a senhora Tuana havia me entregado, dias antes, vinha de estudantes de uma Universidade Pública, onde estudava a irmã de uma das alunas da professora Sara. Essa universidade era de Ensino à Distância e, no final da rua Pequeno Castor, havia um polo presencial. Os universitários, ao saberem da movimentação dos barquinhos, usaram a atividade como primeiro encontro de socialização dos estudantes de EaD e as embarcações eram o resultado deste encontro.

Bastaram poucas semanas e poucos encontros para minha casa se perder em meio aos barquinhos. No começo, eu tentei conciliar a vida do escritório e a vida de professora contadora de histórias, que eu não era, mas, aos poucos, tornou-se insustentável. Eu não tinha mesa para apoiar o prato do café da manhã, não tinha espelho para me olhar antes de sair para o trabalho, não tinha computador para trabalhar quando não deveria trabalhar, não tinha nem mesmo o mapa da rua e pontos de encontro para feituras de barquinhos. Foi um tal de dobrar barquinhos e desdobrar ações que não sabia mais para que lado estava indo quando saia da cama e tentava achar a porta de casa. Imagine, então, como me senti perdida ao ter que tentar explicar ao meu chefe que, novamente, eu não poderia estar na empresa na quarta-feira e que compensaria em horas extras no sábado.

A decisão era inevitável. Hoje cedo, liguei para a dona Dora. Soube, há uns dias, que ela fecharia a sapataria. A saudade apertou e ela queria mudar para perto da filha, que foi estudar fora. Depois de algumas ligações e uma chamada para a empresa Tarikin, na qual trabalho e para a qual não pude ir, porque hoje é quarta-feira, dia de encontrar barquinho, tracei uma solução viável.

Venho convidá-los, depois de toda esta contação, para a abertura da Galeria Castor, uma iniciativa conjunta dos moradores da rua Pequeno Castor e ruas adjacentes a empresa Tarikin. A Galeria Castor se estabelecerá no antigo espaço da sapataria Dorinha e contará com sua primeira exposição, “Das contas aos causos”, ocupada por um conjunto de milhares de barquinhos de papel e áudios captados de causos contados entre as dobras. Como parte da programação do dia, venha dobrar barquinhos durante a palestra, que será dada por Chewie, podcaster no Não Pod Tocar, acompanhado de Dakí, ilustrador que desdobrará a ação. Segue, junto deste convite, um dos trabalhos de Daki que reuniu a nossa vontade de desdobrar situações do cotidiano em produções de arte e pesquisa.

Contamos com sua presença.

Um grande abraço, da não-contadora de histórias da rua Pequeno Castor.

 

Dakipen. NPT S02E10

Dakí. Ilustração do episódio 10, temporada 2, do Não Pod Tocar “Processo de Criação como Processo de Pesquisa”. Podcast disponível neste link e este e outros trabalho de Dakí neste link

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Um pensamento sobre “A soma das dobras

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