Como ser criativo no calor do cansaço

Imagem de Capa. Frame do comercial Panda Cheese. Série “Never Say No to Panda”, Advantage Marketing, 2010.

 

Este texto Texto de Rodrigo Hipólito é a transcrição do podcast Não Pod Chorar 15.

 

Você já fugiu de um e-mail de trabalho, de uma mensagem da sua orientadora, das mensagens da família e de amigos distantes? 

Eu tenho feito muito isso. Acho que eu sempre fiz isso. 

Você já atravessou a rua para não cumprimentar uma pessoa conhecida? 

Não uma pessoa que você não goste e também não uma pessoa que você goste, mas apenas uma pessoa conhecida.

Eu tenho mais nervoso quando percebo que a pessoa conhecida está logo à minha frente numa rua pela qual tenho que passar. Eu reconheço a pessoa conhecida pelo jeito de andar e até pelo barulho que os passos fazem. Mesmo que eu esteja com pressa, esse é sempre um momento tenso. 

Eu costumo caminhar rápido, quase correndo. Nunca fui muito bom em passear a passos lentos. Mas, quando eu percebo a pessoa conhecida alguns metros à frente, eu desacelero e tento manter uma distância segura. 

Se a pessoa andar rapidamente, tudo bem. Nós ficamos no mesmo ritmo até chegarmos em uma esquina que nos separe. Somente então eu respiro aliviado. 

Quando isso não acontece, e a pessoa conhecida caminha lentamente, aí é que a coisa pega! Se eu mantiver o ritmo da caminhada, eu terei que passar pela pessoa e cumprimentá-la. Se eu desacelerar… Não, eu não consigo desacelerar por muito tempo. Parece que eu estou me arrastando ou pior, parece que eu estou numa fila. Fila não dá. 

Em algum momento, eu desisto, volto a caminhar na minha velocidade normal, passo pela pessoa, viro a cabeça, sorrio e solto um olá. 

Isso não deveria ser um problema. Mas, eu não lido bem com isso. O sorriso é falso e eu até finjo bem o sorriso. Isso me irrita, pois eu não saio por aí distribuindo sorrisos com naturalidade. Aquele sorriso e mesmo aquele cumprimento são falsos. Todas as vezes em que eu preciso sorrir para uma pessoa apenas conhecida, isso é uma ação falsa.

Eu já tentei cumprimentar sem sorrir ou mesmo não cumprimentar. O resultado é pior. A pessoa conhecida vem, em algum momento, perguntar se está tudo bem. 

É uma coisa pequena. Não deveria me incomodar, só que incomoda. Esse é um pequeno incômodo. Há muitos pequenos incômodos.

É como se eu começasse o dia com um contador de incômodos. Em alguns dias, o contador marca a permissão de 30 pequenas chateações, 20 chateações médias, 10 grandes e 1 problemão. Esses são dias bons. Tem dias em que o contador marca poucas permissões.

Digamos que eu acorde com 15 permissões para me chatear e o no final do dia já foram mais de 20 incômodos e um problemão. Quando isso acontece, o dia seguinte já começa com a contagem baixa. Pode chegar o momento em que o dia começa com a contagem negativa. É mais ou menos isso que tem acontecido nos últimos meses. 

Uma das consequências disso é que as pequenas situações incômodas viram problemões. 

Nessas horas, nesses dias, tudo parece ser uma rua cheia de pessoas apenas conhecidas e a disposição para fingir sorrisos já foi embora. A vontade é de nem tentar caminhar pela rua. Não há coragem pra entrar naquela fila, mesmo sabendo que ela vai acabar em algum momento. 

A vontade é de dar a volta e escolher outra rua pra passar, ainda que demore mais tempo pra chegar em casa. 

Pior, dá vontade de se sentar na calçada e esperar. Mas, isso é muito arriscado, pois alguma pessoa apenas conhecida, que você não gosta nem desgosta, pode parar e perguntar se está tudo bem. 

A vontade é de ignorar todos os e-mails e mensagens até que as pessoas se esqueçam e não esperem mais respostas. Mas, isso também daria mais trabalho depois. Eu sei que se eu deixar aquele e-mail lá, parado, ele vai apodrecer. Eles sempre apodrecem. 

Uma cobrança apodrecida é uma merda pra limpar! E ainda contamina outras mensagens. Aquela porra daquele e-mail de trabalho vai começar a espalhar seus esporos contaminados com o mal da exploração e da pressão social para todo o resto da vida. Quando isso acontece, mensagens simples começam a se tornar mensagens de trabalho, cobranças e incômodos. 

Quando acumulam muitas mensagens de trabalho não respondidas, eu não consigo mais abrir as mensagens de pessoas próximas, as mensagens de amigas e amigos, eu começo a me esquecer de tudo o que está a minha volta. Tudo se torna uma obrigação.

Primeiro, eu começo a ignorar as mensagens e e-mails de colegas, amigas e família. Eu simplesmente me esqueço. A gente costuma dizer que isso é algum tipo de bloqueio, embora essa seja uma palavra forte e inadequada. Eu paro de pensar na existência daquelas obrigações. Elas perdem aderência, não se grudam na minha cabeça. 

Depois, eu começo a ignorar outras pequenas tarefas. Eu esqueço de pagar uma conta, esqueço de organizar notas fiscais, esqueço de editar o programa que deveria ser lançado na semana, esqueço de escrever o texto para uma gravação, esqueço que teria gravação num dia, esqueço de comprar comida, de fazer comida, de anotar um recado, esqueço do que minha companheira acabou de me dizer, esqueço a ordem das atividades do dia, esqueço de carregar o celular e ele perde a bateria, esqueço a comida no fogo, esqueço de tirar o dedo da frente da faca. 

Depois disso, tudo começa a se embaralhar. Eu sei que estou esquecendo de tudo isso, mas não adianta saber, pois não consigo me lembrar o que deveria fazer naquele momento. Apenas fica a sensação de que algo deveria ser feito. Mas, sem saber o que deveria ser feito, eu fico parado, olhando para o nada, esperando, como se eu estivesse em uma maldita fila. 

Eu odeio filas. 

Vou imaginar que a maioria das pessoas já passou por algo parecido. 

Outro dia eu li que a sociedade atual passa por uma epidemia de estresse, que está relacionada com uma epidemia de ansiedade, que está relacionada com uma epidemia de depressão. Em alguma delas eu devo me enquadrar… e, talvez, quase todas as pessoas se enquadrem em alguma delas. 

Talvez você me entenda. Você também deve estar no meio de alguma dessas epidemias. De repente não é com você, mas com alguém próximo. 

Vou imaginar que, assim como eu, você também não saiba lidar com a ideia de que tudo na sua vida se torne uma obrigação. 

Isso me dá muito medo. 

Eu tentei trabalhar com as coisas que me dão prazer. A ideia era que o trabalho nunca fosse só uma obrigação. Mas, eu fui meio inocente. A gente aprende com o tempo. Não todo mundo, mas algumas pessoas aprendem com o passar do tempo. Eu fui inocente de imaginar que era possível estabelecer esse tipo de relação com o trabalho. 

Eu fui inocente.

Da maneira como a nossa sociedade concebe o trabalho, ele não pode ser prazeroso. Isso pode parecer que funciona no começo ou por algum tempo. Chega um momento em que o trabalho estraga o prazer. Chega um momento em que até sentir prazer começa a ser uma obrigação. Isso confunde bastante a cabeça, pois você continua a gostar do que faz, você continua a sentir prazer, mas não parece prazer de verdade. Parece fraco e artificial, parece que não é mais tão bom quanto antes. Você começa a sentir aquela atividade como um esforço, a querer que acabe logo. Você realiza o que precisa realizar para se livrar logo daquilo e riscar mais um item das atividades do dia. Quando chega esse momento, o prazer deixa de ser prazer de verdade e se torna um sorriso falso para uma pessoa conhecida que você encontra na rua. 

Foi mais ou menos isso que aconteceu comigo. 

Eu não quero mais estragar as coisas que eu gosto de fazer. Eu não quero mais sentir como uma obrigação as atividades que me dão prazer.

Isso é difícil, pois eu também não queria aceitar a ideia de continuar a trabalhar com algo que não me dá prazer durante oito ou doze horas por dia pra morrer de cansaço durante os meus momentos de lazer. Eu não quero que o meu lazer se torne apenas o consumo do que os outros produzem. Eu quero sentir prazer em fazer algo, em produzir alguma coisa, sem que isso seja um trabalho. Sem que a razão mais forte para fazer isso seja o desespero que vem com o medo de não ter mais dinheiro pra comprar comida e pagar o aluguel. 

Eu poderia produzir durante os meus momentos de lazer. Isso seria ótimo, se eu não estivesse morto de cansaço. 

Supostamente, eu teria alternativa, pois eu trabalho com áreas criativas. Eu poderia tentar me sustentar financeiramente com o que me dá prazer em produzir. Mas, o ciclo iria se repetir. Logo, o trabalho estragaria o prazer e eu precisaria fugir de novo e deixar o lixo para trás. 

Repetir o ciclo não dá. Depois que você entende o que é um prazer fingido, um prazer falso, você não consegue mais aceitá-lo e dizer que tá tudo bem. Enquanto você acredita que ser produtivo é O objetivo e que otimizar o tempo te tirará a sensação de culpa por não ter conseguido terminar todas as tarefas, tudo parece bem. Quando você perceber que o seu tempo livre passou a ser usado para cumprir tarefas da lista, pode ser difícil desfazer essa percepção de mundo.

Você tem uma lista de séries para assistir, uma lista de lugares para visitar e fotografar, uma lista de comidas gostosas que precisa comer, uma lista de livros para terminar antes do final do ano, uma lista de amigos para visitar.

1001 filmes para assistir antes de morrer.

1001 livros para ler antes de morrer.

1001 álbuns para ouvir antes de morrer.

1001 sobremesas para comer antes de morrer.

1001 lugares para visitar antes de morrer.

1001 cores de cachaça saborizada artificialmente para beber antes de morrer.

Preguiça.

Ontem, eu estava na casa de uns colegas. Quando eu fui ao banheiro e observei a pia, eu pensei “nossa! É igual a pia lá de casa”. Imediatamente, outro pensamento respondeu “não, não é não”. Eu tentei me lembrar do banheiro da minha casa, da organização dos cômodos, das portas e eu não consegui. Por uns trinta segundos, eu fiz o esforço mental de tentar lembrar da minha própria casa. 

Como se passasse uma série de vídeos pela cabeça, eu apontava e dizia “não, não é essa casa, essa era minha casa em 2015. Não, essa também não, aí eu morei em 2012. Essa também não, essa foi em 2008. Essa em 2009, essa em 2016. Essa! Para, é essa! Essa é minha casa. É aí que eu moro hoje.” Aí eu respirei aliviado.

Naquele momento, se alguém me entregasse uma lista de 1001 qualquer merda pra fazer antes morrer, acho que eu surtaria aos gritos. 

Minha geração, e talvez todas as anteriores e muitas das novas, tem uma gana de viajar, ir presencialmente para vários lugares… e isso sempre me incomodou. Não por as pessoas terem esse desejo, mas pela insistência de que essa é a maneira mais positiva de encarar a vida. Eu fico com a sensação de que eu mal acabei de conhecer um lugar e já querem que eu conheça outro.

Pra ter uma visão variada de realidade você não precisa marcar um x em cada ponto do planeta!

Estaria tudo bem se a intenção, se o desejo, fosse se relacionar com algumas outras culturas. Quando o desejo é consumir outra cultura para crescer individualmente, quando outras culturas são reduzidas a uma experiência nova para quem viaja, quando a realidade é vendida como algo disponível para o deleite de quem é livre para pagar, sim, isso é uma merda.

O mundo não é um catálogo de lugares para conhecer. Paisagens não são produtos para serem consumidos, culturas não são produtos para serem consumidos, pessoas não são produtos para serem consumidas. Até viajar e passear se tornaram formas de consumir. 

A pessoa passa batida pelos moradores do bairro, do bairro vizinho, do restante da cidade. A pessoa mal sabe os nomes dos bairros da cidade onde ela mora. Mas, a melhor maneira da pessoa crescer espiritualmente é fazer um maldito mochilão pelo mundo. Isso faz muito sentido! Assim a pessoa vai poder passar batida por habitantes e culturas de lugares tão tão distantes. Se a pessoa se esforçar, de repente, ela consegue provar um pouquinho de cada pedacinho do mundo, contaminar tudo com seus germes, se sentir superior por ter experimentado de tudo, por ter passado batido não só pelas pessoas da sua cidade, mas pelas pessoas do mundo inteiro. 

Essa eterna reedição do modo de ser do sujeito explorador, colonizador, moral, intelectual e espiritualmente superior é um inferno! 

Talvez, quem sabe, tudo isso seja um problema insolúvel do nosso sistema de produção. Trabalhar para consumir não é o suficiente para manter esse sistema em funcionamento. É necessário tornar tudo em trabalho e tudo em consumo. Mais do que isso! Foi preciso fazer com que as pessoas passassem a consumir trabalho. 

Quando tudo é trabalho e tudo é consumo, você dificilmente terá tempo para se organizar com as pessoas do seu bairro, da sua comunidade. Você nem sabe que isso é possível e isso não passará pela sua cabeça como mágica. Como você poderia desejar conhecer e reforçar a pluralidade da sua comunidade, se desde cedo você já foi dominado pelo desejo de conhecer a surpreendente cultura de outro povo, que está em qualquer outro lugar do mundo?

1001 planilhas para preencher antes de morrer.

1001 enquetes de melhor filme para responder antes de morrer.

1001 relatórios de viagem em formato de stories do Instagram para fazer antes de morrer.

1001 pessoas que você mal conhece mas já considera pacas para dar parabéns pelo aniversário depois do lembrete automático do facebook antes de morrer.

1001 idiomas para aprender e se tornar analfabeto funcional em cada um deles antes de morrer.

1001 artigos sobre o tema que você amava pesquisar mas não ama mais e apenas precisa terminar o texto antes de morrer.

1001 músicas que você precisa compor para ganhar algum dinheiro com shows e poder largar o emprego de atendente de telemarketing antes de morrer.

1001 entregas de lanche que você precisa fazer para comprar uma bicicleta mais confortável para fazer mais entregas de lanche antes de morrer.

1001 ilustrações para histórias ofensivas que você precisa fazer até começar a detestar fazer ilustrações antes de morrer.

1001 diplomas que você precisa vender para sobreviver na esperança de um dia estar em uma sociedade justa e consciente, que se torna cada vez mais distante a cada diploma que você ajuda a vender antes de morrer. 

 

Como ser Criativo no Calor do Cansaço? Eu queria terminar de escrever um conto que eu comecei dois meses atrás. Eu queria voltar a desenhar. Eu queria brincar de fazer publicações independentes. Eu queria dormir lendo um livro de aventura. Mas, tá muito quente.

É Verão e essas paredes finas marteladas pelo sol o dia inteiro fazem a casa parecer uma fritadeira elétrica. 

Um colega de trabalho perguntou, outro dia: “Mas por que você não coloca um ar-condicionado central no apartamento?”. Eu pensei em responder ao sujeito e dizer que, por mais surpreendente que seja, algumas pessoas não tem dinheiro pra isso. Mas, eu fiquei com preguiça. Qualquer esforço a mais, ali, seria um esforço a mais no trabalho. 

Agora a pouco eu ouvia um podcast com dicas para escritores. O foco era conseguir terminar o trabalho, terminar o conto, terminar o romance, terminar alguma coisa. O foco era se sentar e escrever até terminar. Se o ambiente em casa não permitisse, a pessoa deveria procurar outro ambiente, em qualquer hora do dia. Meia hora no intervalo do almoço, meia hora depois do trabalho, vinte minutos parado no trânsito, vá escrever na praça, num café, no shopping, na igreja.

Eu pensei em sair de casa para encontrar um lugar mais fresco e poder continuar a escrever aquele conto, que eu havia começado, dois meses atrás. Eu me senti como se eu saísse para o trabalho. Só que era meu dia de folga. Eu desisti. 

Se eu ainda tenho o direito de deixar pra lá sem me remoer, é porque aquilo ainda não é um trabalho. Enquanto eu puder manter essa liberdade, eu sei que esse prazer ainda não virou trabalho.

A conclusão provisória a qual eu cheguei é de que o sonho de me tornar escritor não vale a destruição do sonho de me tornar escritor.

Pra que transformar o sonho em um plano? Pra que transformar o prazer em uma programação? 

A lista de tarefas continua ali. E eu até gosto dela. Só que junto da lista de tarefas do dia, eu comecei a anotar as pequenas coisas que eu faço, que eu não havia planejado, mas aconteceram porque eu ainda estou vivo, como anotar que eu gosto de um tipo específico de céu, depois de ter observado a lua cheia de madrugada. Eu não me lembrava mais como eu gosto daquele tipo específico de céu. Eu não vou contar, agora, qual tipo de céu é esse. Talvez essa tenha se tornado uma anotação para mais um conto que eu não sei se vou terminar. 

Agora, eu estou menos cansado, porque eu escrevi sobre o céu.

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