Como Não Cortar a Própria Língua

Cena do filme “Infiltrado na Klan” (2018), de Spike Lee, na qual o ator John David Washington, caracterizado como um personagem dos anos 1970, fala ao telefone.

Este texto Texto de Rodrigo Hipólito é a transcrição do podcast Não Pod Chorar 13

 

Pensar sobre os problemas que nos atormentam sempre ajuda e, de todo o modo, é quase inevitável. Só que, eu acredito que pensar sobre as nossas aflições sem expressar esses pensamentos, sem comunicar as ideias que passam pela nossa cabeça, pode atrapalhar muito, pode fazer muito mal. Felizmente eu gosto de falar… eu preciso falar.

Nem sempre foi assim e sobre alguns assuntos e alguns problemas eu evitei falar por bastante tempo. A gente faz isso. A gente cria desculpas, deixa passar, deixa pra depois, constrói bloqueios, alimenta o problema, o problema cresce, dobra de tamanho, triplica de tamanho, fica maior que a gente e quando  agente decido por o infeliz pra fora ele não sai do lugar e lidar com ele se torna algo quase impossível. 

Um problema crescido e bem alimentado, sentado no meio sala, com seus pseudopodos melequentos esparramados pelo caminho é um estorvo. Quanto mais ele fica mais ele cresce, até você perder a paciência e notar que não vai conseguir arrastar toda aquela porcaria sozinho.

Gostei dessa metáfora. A ideia é bem essa. Já aconteceu comigo algumas vezes bem assim.

Depois de chutar algumas dessas bolhas assassinas escada abaixo (e em alguns casos foi necessária muita mão de obra e semanas ou meses de limpeza profunda do ambiente), eu tenho tentado expulsar os gosmentos antes de eles melecarem demais o chão. 

Bom, eles continuam a aparecer, mesmo que não dê pra notar de imediato. Esses monstrinhos desagradáveis brotam do rola da pia, das dobras do sofá, saem de debaixo da cama, entram pelas janelas e chegam agarrados na sola do sapato. Se faltar atenção, os novos micro-organismos pestilentos encontram seus colegas maiores e aí já era. 

E sim, ainda têm alguns dos mais grandinhos num canto ou noutro. Não consegui expulsar todos dos mais antigos. Eles ainda conseguem disparar uma espécie de ondas de preguiça. Você olha pra desgraça da meleca pulsante grudada num canto do guarda-roupas, respira fundo, fecha a porta e vai tomar conta de algo mais divertido. 

Bom, eu vou arrastar um desses aqui pro meio e tentar dividi-lo pra facilitar o trabalho. Se você quiser me ajudar, vai pegar algum instrumento cortante e uma roupa daquelas que pode sujar sem dó. Vamos tentar começar com as partes que fazem menos bagunça.

Essa semana eu fui impactado por uma cena de Malhação. Não, não é pra rir. Mas eu riria disso então, tudo bem pra mim. E sim, eu tô falando da novelinha de fim de tarde que daqui a pouco deve fazer uns trinta anos. 

É uma cena fácil de imaginar, até mesmo por ser comum. Uma jovem negra entra no ônibus com o namorado, um jovem branco. Ele se sentam no ônibus quase vazio. No banco do outro lado do corredor, há mais um jovem negro, com roupas de aparência barata e postura desleixada. Todos os demais passageiros são pessoas brancas de meia idade. Alguns pontos à frente, o ônibus para e dois policiais sobem, olham para todos os lados, vão direto até o jovem negro e pedem para que ele desça para ser revistado. A primeira personagem ergue a voz e pergunta por que o policial abordou somente o único negro dentro do ônibus. O policial, homem, tenta revistá-la. Ela se recusa, pois mulheres só podem ser revistas por outras mulheres. Ele dá ordem para que ela entregue a mochila. Ela diz que só fará isso se ele revistar as bolsas de todos os demais passageiros. O polícia ameaça detê-la e ela, calmamente, diz que isso é ótimo, pois ela poderá ir a delegacia denunciá-lo por comportamento abusivo.

Uma cena simples, corriqueira. Eu já vi essa cena acontecer algumas vezes. Eu já reclamei quando vi acontecer, mas também já fiquei calado. Reagir ou não, isso dependia muito da situação. A vida não é como nas novelinhas. Mas, não é exatamente esse o ponto que me interessa aqui.

Quando o corte encerrou a cena na TV, eu tremia. Eu olhei minhas mãos e eu tremia. Meu coração estava acelerado, minha respiração rápida e minha expressão travada de raiva. 

Se eu estivesse naquela situação, naquele momento, eu não conseguiria falar calmamente. Se eu estivesse naquela situação, naquele momento, eu tentarei me manter calado, pois, caso eu abrisse a boca, eu iria perder o controle. Se eu abrisse a boca, eu iria gritar, falar de modo agressivo, acelerado, eu iria ofender, xingar e talvez tentar agredir alguém. 

Felizmente, pra mim, eu estava apenas na sala de casa, em segurança e poderia tentar afastar essas ideias pra digerir o café da tarde. 

Eu não sei quando eu perdi as condições de lidar com esse tipo de situação. Eu já fui mais paciente e controlado. Mas, faz um tempo, eu percebi que eu me descontrolo diante de qualquer sombra de racismo. Algo parecido acontece quando eu preciso dividir o ambiente ou preciso conversar com pessoas que defendem ideias misóginas, LGBTfóbicas, radicais religiosos, pessoas anticientíficas, negacionistas, defensores de tortura, do terrorismo de Estado, que propagam mentiras históricas e por aí vai. Só que situações de racismo talvez me afetem com mais força ainda. Isso me assusta. 

No caso da cena da novelinha, ela faz parte de um conjunto. Antes e depois do ocorrido, a personagem negra precisa enfrentar falas do namorado e de algumas amigas, todas pessoas brancas, que dizem que ela exagera, que pra ela tudo é preconceito, que ela se faz de vítima. Talvez isso seja o que me enerva ainda mais. Nesse caso, quem tentava deslegitimar o discurso da pessoa negra eram pessoas brancas. Me irrita ainda mais quando quem faz isso são outras pessoas negras e que parecem não conseguir se identificar como negras. 

Tenho dificuldade de lidar com essas situações.

Taquicardia, mãos trêmulas, respiração agitada, vontade de gritar.

Faz umas semanas, ao sair pra comer em família, uma pessoa que amo muito começou a contar algumas histórias da graduação. Comentamos sobre professores, comentamos sobre alunos. Ela começou a falar sobre uma aluna que eu conhecia. Meu coração acelerou quase de imediato. Eu já havia ouvido aqueles mesmos comentários sobre a aluna de muitas outras pessoas, em diversas ocasiões. Eu conhecia a história.

Várias turmas não se davam bem com a aluna, reclamavam da postura dela, diziam que ela era prepotente e ingrata com os professores que a ajudavam. Eu já havia conversado muito com a aluna. Ela também não se dava bem com as turmas. Embora estivesse sempre envolvida nas atividades mais variadas, sempre presente, quase sempre sozinha. Ela reclamava na falta de compromisso dos colegas, da falta de empenho.

Enquanto a história era contada na mesa, apesar da minha respiração já acelerada, tentei esperar que tudo fosse dito. Em algum momento a frase seria dita. É uma frase quase insuportável de ouvir sem tentar dar um basta. A frase chegou e eu ainda tentei me manter calado, mas não rolou. Quando eu escutei a velha ideia de que “ela sempre se coloca no papel de vítima, tá sempre se vitimizando”, eu comecei a falar e nitidamente eu fracassava em manter o controle. 

Era uma situação comum, com a qual, teoricamente, eu sei lidar. Eu já sabia o que dizer, eu já sabia quais argumentos apresentar e sabia que era necessário contar a história daquela aluna de outro ponto de vista, do ponto de vista que ela já havia me apresentado. Ainda assim, eu elevei o tom de voz, eu exigi poder falar sozinho durante alguns minutos, as conversas paralelas da mesa pararam e eu me irritava comigo mesmo por quase gritar. 

Felizmente, eu estava em família, com pessoas que eu respeito e me respeitam.

O assunto passou e, mais tarde, quando eu cheguei em casa, enviei uma mensagem pedindo desculpas por ter perdido controle. Mas, não exatamente por ter perdido o controle. A sensação que me perseguia e continua presente, é de constrangimento por me expressar com ódio quando o ambiente e as pessoas estavam totalmente receptivas a tudo o que eu dissesse. 

Algo pesa aqui dentro além da conta quando eu escuto a expressão vitimismo. 

A ideia de vitimismo pressupõe um fingimento, de que a pessoa não é vítima de verdade, de que conta uma mentira para ganhar a complacência dos outros. Essa ideia também pressupõe que uma pessoa pode até não estar fingindo ser vítima, mas que é responsável por sua condição, de que ela “se colocou no papel de vítima”; como se ser vítima fosse um papel ficcional que você possa escolher em um enredo.

Quando pessoas não brancas falam o tempo todo sobre as dificuldades que enfrentam na vida, é porque o tempo todo elas são vítimas pela racismo e suas consequências. É enervante quando você é atacado o tempo por todas as estruturas da sociedade e quando você decide reclamar de apanhar, quando você decide bater de frente da maneira como você pode, te dizem pra ficar calado e parar de ser vítima. 

A expressão vitimismo é como aquela foto da Paris Hilton com uma camiseta estampada com a frase “Parem de ser pobres”. A expressão vitimismo é como aquele garoto rico que não entende porque os moradores de rua não compram logo uma casa. Mas a expressão vitimismo é muito pior que isso. Dizer que uma pessoa que sofreu e sofre preconceito a vida inteira está de vitimismo é cortar a língua dela pra ela parar de reclamar enquanto apanha. 

Há uma cena forte do filme MudBound: Lágrimas Sobre o Mississippi, na qual o personagem de Jason Mitchell tem a língua cortada depois de ser torturado pela KKK. A história do filme se passa logo após o fim da segunda guerra mundial e nos mostra o cenário de uma zona rural na qual famílias negras ainda são tratadas como escravas, mesmo quando possuem suas pequenas porções de terra. Nós acompanhamos dois ex soldados que se reencontram e se aproximam por compartilharem os traumas da guerra. Um deles é branco e o outro negro. Essa relação enfurece os velhos racistas do local. O negro ex soldado, que experimentou ser tratado como ser humano em algumas regiões do Europa, não aceita voltar a se calar diante de tudo o presencia. 

Uma pessoa não branca que fala, que reclama, que mantém o tempo todo em foco o racismo que nos acorda e nos põe pra dormir, é o que mais amedronta a nosso mundo de mentalidade colonial. A dívida do crime histórico que é a escravidão nas Américas nunca será paga, pois não dá pra apagar o passado. Dizer que a vítima de preconceito está de vitimismo é, simbolicamente, a mesma coisa que fizeram com o soldado negro em Mudbound. Cortar a sua língua é mostrar o único modo que uma sociedade racista aceita conviver com uma pessoa negra, quando ela permanece calada. 

Pensar sobre isso me ajuda a compreender porque a ideia falsa de vitimismo me incomoda mais do que tantas outras desgraças que nos assolam. 

No Mundo da Arte, nós aceitamos muito bem quando pessoas brancas usam suas histórias de vida para construírem trabalhos poéticos. Nós vamos a exposições e falamos muito de memória, do valor da memória. Pessoas brancas podem lembrar dos seus antepassados, das suas origens mais remotas e isso será interessante. Pessoas brancas podem contar sobre seus sofrimentos, sobre suas lutas para sobreviver, sobre as histórias marcantes da sua vida e isso será emocionante.

Quando uma pessoa não branca conta sobre os seus sofrimentos, sobre aquilo que a aflige, sobre a sua luta para sobreviver, nós dizemos que ela está de vitimismo. Quando uma pessoa não branca usa sua história de vida para construir propostas poéticas, nós não aceitamos que isso seja um trabalho de memória e ela só terá espaço quando for estipulado um contexto estritamente ativista. É como se essas memórias, essas histórias, não pudessem se alastrar livremente pelo Mundo da Arte.

Eu me lembro exatamente o momento em que eu descobri que não era branco. Foi no primeiro dia de aula, ao cinco anos de idade. Minha irmã mais velha, que é branca, me levou até a escola e a professora foi nos receber na porta da sala de aula, naquela maldita cidadezinha do interior que eu espero que seja riscada do mapa.

Eu estava escondido atrás das pernas da minha irmã. A professora conversou com ela, se abaixou pra me olhar, olhou novamente pra minha irmã e disse: “Ele é seu irmão mesmo? Porque ele é tão mais escurinho!” E ela sorriu pra mim. 

Eu olhei pro meu braço, olhei pro braço da minha irmã e fiquei positivamente surpreso com aquele fato evidente, mas para o qual eu não havia me atentado por longos cinco aninhos. 

A descoberta dessa diferença não fez com que eu me sentisse mal. Eu comecei a me sentir mal pouco tempo depois. Eu ainda não havia feito seis anos quando meu irmão do meio, que é uns três anos mais velho que eu, começou a me chamar de… preto, nego, criolo. Ele me chamava assim sempre num tom de deboche, como se fosse uma ofensa. Eu chorava e pedia para que ele parasse. Isso parecia fazê-lo se divertir ainda mais, como se tivesse encontrado um ponto fraco. Aos poucos, ele passou a me chamar de preto como xingamento, no meio de qualquer discussão pela escolha do canal de TV ou qualquer coisa que o valha. 

Essa situação seguiu até o início da minha pré-adolescência e durante um bom tempo eu honestamente detestava o meu irmão do meio. Felizmente, tanto eu tive a oportunidade de perceber que eu não deveria culpá-lo por esse comportamento quanto ele teve oportunidade de mudar na medida em que crescia. 

Eu também digo felizmente quando penso que talvez eu nunca tenha me sentido inferior por não ser branco, mesmo sendo “xingado de preto” diariamente, durante boa parte da minha infância. Certo, não foi bem assim. Na medida em que eu percebia o tratamento diferente que me era dispensado em todos os lugares e em todos os momentos, eu desejei muito ter nascido com uma aparência diferente. Eu acredito que somente quando eu entrei pra graduação é que esse sentimento desapareceu. Ele desapareceu, mas deixou algumas marcas que eu não sei se um dia vão sumir. 

Tem uma coisa que eu acho difícil de entender e difícil de explicar. Talvez a maioria das pessoas brancas jamais entendam essa parte de viver nas Américas e eu acredito que muita gente, quando é apresentada a essa ideia, sorria e diga que isso não existe. 

Quando você cresce em um país de mentalidade colonial, um país estruturalmente racista, você descobre que as pessoas te tratam melhor se você fingir que é branco. Sim, nos aprendemos a fazer isso. Nós aprendemos que o jeito branco, com heranças europeias, é uma espécie de padrão universal. Enquanto nós nos comportamos dentro desse padrão que se acha universal, nossas características étnicas e culturais variadas são ignoradas. No momento em que nos apresentamos algum comportamento que não seja evidentemente próprio da herança branca europeia, nós somos tratados de modo diferente, quase sempre mal. 

O cabelo, a vestimenta, a musicalidade, os movimentos corporais, os adereços, o palavreado, a entonação. Se essas características diferirem da tradição europeia, nós passamos a ser notados como não brancos e nos tornamos alvo. Os jovens negros suburbanos, seu jeito de falar, de se vestir, de andar, sua música, o seu corpo… são alvos. Uma pessoa indígena deve se fantasiar de branco até pra andar por uma cidade, deve trocar seu idioma, se esforçar para não ter sotaque, deve olhar, comer, cheirar e rezar como um branco, do contrário será um alvo. 

Nos filmes Sorry To Bother You e Infiltrado na Klan, os personagens centrais jogam com essa ideia. Ambos os filmes se focam em personagens negros que precisam executar ações para convencer pessoas brancas de alguma coisa. No caso de Sorry To Bother You, o personagem trabalha num televendas. No caso de Infiltrado na Klan, ele finge ser um membro da KKK para conversar com o líder da organização. Essas conversas acontecem por telefone e ambos são bem sucedidos quando usam o que eles chamam de “Voz Branca”, que é a entonação e o linguajar estereotipado como universal. Talvez você, que me escuta, nunca tenha notado isso, pois pra você também há um modo de se expressar que você considera universal. Bom, não existe universal, esse é apenas o jeito branco de ser.

Essa é uma das marcas que ficou em mim. Ao ser criado com distanciamento das minhas raízes étnicas e instruído a negá-las, porém, envolvido por ambientes suburbanos repletos de variadas expressividades, não foi muito difícil perceber o conforto que vinha do fingimento. Quando eu falava como algumas das crianças negras do bairro e da cidade, as professoras me tratavam mal. Quando eu falava igual às pessoas dos programas de TV, as professoras, as mães dos meus colegas, a atendente da padaria, todo mundo me tratava melhor. Eu cresci fingindo que era branco. Assim eu conseguia, na maioria das vezes, não ser destratado. O mais triste, é nada disso mudou até hoje. 

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