[transcrição] Como escapar do nacionalismo mestiço

Imagem de capa. Fotografia de O mestiço, de Cândido Portinari,1934, óleo sobre tela, 81 cm x 65 cm, Pinacoteca de São Paulo.

Este texto é a transcrição do podcast Não Pod Chorar 19

Texto de Rodrigo Hipólito

Comecei a pensar: “Sim, sou chicana, mas isso não define quem eu sou. Sim, sou mulher, mas isso também não me define. Sim, sou lésbica, mas isso não define tudo que sou. Sim, venho da classe proletária, mas não sou mais da classe proletária. Sim, venho de uma mestiçagem, mas quais são as partes dessa mestiçagem que se tornam privilegiadas? Só a parte espanhola, não a indígena ou negra.” Comecei a pensar em termos de consciência mestiça. O que acontece com gente como eu que está ali no entre-lugar de todas essas categorias diferentes? O que é que isso faz com nossos conceitos de nacionalismo, de raça, de etnia, e mesmo de gênero? Eu estava tentando articular e criar uma teoria de existência nas fronteiras. […] Eu precisava, por conta própria, achar algum outro termo que pudesse descrever um nacionalismo mais poroso, aberto a outras categorias de identidade. (ANZALDÚA, Gloria apud COSTA; AVILA, 2005, p. 691).

Essa é uma fala de Gloria Anzaldúa, traduzida por Claudia de Lima Costa e Eliana Ávila, no artigo “Gloria Anzaldúa, a consciência mestiça e o ‘feminismo da diferença’”. A referência desse trabalho, com endereço de acesso, está na descrição deste episódio. 

Eu fiquei feliz quando cheguei a esse texto e ao pensamento da Gloria Anzaldúa. Isso me ajudou a organizar algumas ideias, começar a conhecer outras e acalmar uma angústia que tem me acompanhado há muito tempo, talvez desde sempre. Eu já comentei, em alguns programas passados, sobre memórias de infância e de como eu descobri, bem cedo, que eu sou um não branco em um mundo de normas brancas. 

Aqui vale a referência à dois episódios de podcasts: Não Pod Chorar 13 – Como não cortar a própria língua (podcast, transcrição), e Não Pod Chorar 10 – Como não confundir puritanismo com “politicamente correto” (podcast, transcrição). Esta fala dialoga com esses dois ensaios anteriores. Por isso, eu sugiro que você os escute antes ou depois de ouvir as reflexões que eu vou trazer aqui.

Vamos voltar à citação da Gloria Anzaldúa. Ela desenvolveu uma interessante teorização sobre a consciência mestiça. Ela falava como chicana, como uma pessoa que vive em movimentos de fronteira, entre ser estadunidense, mas também ser mexicana, entre resgatar sua ancestralidade Náuatle sem ignorar sua vivência como parte de um sistema que é fruto do violento processo colonizador. Os pensamentos dela fazem parte do feminismo da diferença, do feminismo interseccional e da teoria queer, embora ela seja costumeiramente enquadrada nas teorias de raça. 

Até que eu chegasse ao pensamento da Anzaldúa, que eu apenas comecei a conhecer, e perceber a ligações com ideias decolonias que me ajudam bastante, o caminho foi longo. 

Eu sempre me questionei sobre minha identidade e esse questionamento sempre foi frustrado. Às vezes, esse era um questionamento mais consciente. Outras vezes, se tratava de pura negação. Eu só comecei a levar isso mais a sério, bem depois de ingressar na graduação. 

Eu caí em tantos erros de interpretação e tantas arapucas retóricas que eu até fico feliz de perceber que eu não terminei em uma alucinação da qual eu não conseguiria sair. Eu tentei me identificar com o movimento indígena, mas eu não sou apenas indígena. Ao me afirmar indígena e tentar me integrar, eu me percebi mais um invasor. Eu senti e compreendi que eu me apropriava de algo que não me pertence e ao qual eu não pertenço. Ainda assim, uma parte de mim sorri quando eu penso nessas origens. Minha ancestralidade indígena nunca vai se apagar.

Eu tentei, também, me identificar com o movimento negro, mas eu não sou apenas negro. Algumas portas se fecharam e eu demorei a compreender que quem fechava aquelas portas tinha motivos pra fazer isso. São bons motivos, aliás. Eu nunca seria negro o suficiente e seria mais uma mentira se eu forçasse essa identidade. Eu não queria ser mais um infiltrado ou uma minoria atacada dentro de uma minoria atacada. 

Junte essas experiências, com todo um histórico de infância e adolescência em que não havia qualquer brecha para encontrar uma identificação indígena ou negra, eu deixei a questão de lado. Durante um bom tempo, eu me deixei absorver pela negação liberal das diferenças e comecei a afundar na neutralidade impossível e agressiva que alimenta os projetos de purificação e de exploração dos oprimidos. 

Como mestiço, eu já havia batido de cara nas portas fechadas das teorias identitárias tantas vezes, que ao encontrar a porta aberta pelas teorias liberais, eu entrei e me sentei, tamanho o cansaço. 

Essa talvez seja uma experiência de decepção pela qual muitas pessoas passam. Talvez, isso tenha feito parte de uma saída triste da adolescência e uma entrada mal orientada na vida adulta. Felizmente, passou rápido. Não é possível permanecer na ilusão liberar de igualdade individualista e negação dos direitos coletivos quando você sofre a exploração racista sistemática todos os dias. 

Compreender que o peso, a profundidade e a crueldade da colonização são responsáveis pelas estruturas da nossa realidade — e que essas estruturas são formadas por injustiça, racismo, dominação pelo homem branco, apagamento de histórias, controle de corpos e escravidão maquiada de louvor ao trabalho e lucro individual — foi algo fundamental para que eu escapasse da ilusão de que um dia eu faria parte do grupo dominante. Mais ainda! Entender isso, me fez perceber que eu nunca desejei fazer parte desse grupo dominante do modo como ele é. Eu nunca quis me vestir como aquelas pessoas, falar como aquelas pessoas, agir como aquelas pessoas e eu nunca concordei com elas. 

Por mais que a negação fosse confortável, por mais que eu não estivesse preso ao trabalho braçal, por mais que as migalhas dissessem que é possível “mudar de vida”, eu jamais deixaria de ser um mestiço pobre. Eu sempre seria um nego-indígena e as portas do liberalismo somente permaneceriam abertas pra mim enquanto eu negasse a minha condição de negro-indígena para o conforto dos brancos ricos que continuariam a me explorar. 

Mestiço.

Depois de me aceitar como mestiço, eu precisava compreender o que é ser mestiço. 

Aqui, nós chegamos a minha longa decepção dos últimos anos, que vem com muita irritação e um sério alerta.

Ao tentar compreender a minha existência mestiça, com a consciência de estar na base de um sistema de exploração racista que precisa ser desfeito E com a consciência de que eu deveria sempre tomar cuidado para não me apropriar das lutas dos movimentos negro e indígena, eu levei uma série de tapas na cara.

A maior parte dos materiais históricos e teóricos que eu encontrava, apenas repetiam como a democracia racial é uma falsificação histórica, como a mestiçagem é o fruto da violência colonial, como a mestiçagem foi usada para apagar a luta negra e a luta indígena, como a mestiçagem foi usada num projeto de embranquecimento do Brasil e por aí vai. 

Quanto mais eu pesquisava, mais eu sentia a minha existência como um erro histórico. Aparentemente, a minha existência era uma ofensa pra brancos, negros e indígenas. 

Porém, eu não era mais o mesmo moleque de antes pra cair nessa. Como pesquisador, eu já sabia que as coisas não funcionam assim. Às vezes, pode demorar um bom tempo até que você se encontre com as pessoas, as ideias, as produções e as práticas com as quais você vai poder conversar e discutir. 

Há um livro chamado Quem Teme a Morte, da Nnedi Okorafor. Essa é mais uma sugestão de leitura. Eu não vou contar muito sobre esse livro, pois ele é curto e eu não quero estragar a experiência de leitura de ninguém. Basta saber que a protagonista é uma mestiça num processo de descoberta em um continente africano de uma realidade alternativa, construída como metáfora que evidencia os processos históricos da nossa realidade. 

Esse livro foi uma das leituras dos últimos anos que dispararam, novamente, o meu desejo de compreender melhor a condição mestiça. Mais que isso. Esse desejo foi renovado pela vontade de encontrar propostas positivas sobre a mestiçagem. Eu não posso simplesmente ser a representação da violência colonial e da mentira da democracia racial. Isso não pode significar ser mestiço. 

Lá vem o novo tapa.

Adivinha qual foi a primeira proposta de positivar a condição da mestiçagem que eu encontrei, sem nenhum esforço, assim, de bandeja, bem ali, só esperando a chegada de qualquer desavisado.

Se você respondeu extrema direta nacionalista negacionista neonazista, você acertou!

Existe um sem-número de portais e fóruns dedicados à disseminação de ideias extremistas de direita que abraçam a afirmação de que ser mestiço é algo positivo. 

Eu não encontrei nenhum portal, site ou fórum de esquerda que faça isso. Pelo contrário. Praticamente todos os textos que eu encontrei em portais de esquerda que tratavam sobre mestiçagem, apenas repetiam as críticas históricas que eu comentei antes e deixavam aquele gosto amargo na boca do mestiço que lê. 

Eu digo isso com muita preocupação.

E eu acabei de decidir não falar o nome do principal site com conteúdo de extrema direita, porque eu não quero fazer divulgação do portal. 

O importante aqui é saber com quais tipos de ideias você pode se deparar e o risco que é para alguém desavisado e sem formação política, desiludido com pautas identitárias, que cair num buraco desses. 

Esse pessoal defende que o verdadeiro Brasil é mestiço e que todos o que não forem mestiços, ou são invasores ou são um passado primitivo que deve ser melhorado. Eles defendem que os mestiços são superiores aos negros, indígenas e brancos. Eles defendem que as cotas raciais nas universidades são uma conspiração para eliminar a identidade mestiço. Por isso, eles são contra os movimentos negros e indígenas. Eles defendem que os movimentos indígenas querem eliminar a identidade mestiça através da ampla identificação da diversidade de povos. Do mesmo modo e pelas mesmas razões, o movimento negro e tido como inimigo. Há um forte discurso nacionalista de que a futura nação brasileira, seria uma nação mestiça e que somente mestiços seriam considerados verdadeiros brasileiros. 

Isso faz algum sentido? Não, não faz.

Muita gente se sente abraçada por esse discurso? Sim, se sente. 

Os problemas e contradições desse discurso são nítidos. A gente pode sintetizar essas contradições apenas ao dizer que esses movimentos de extrema direta defender a pureza da raça mestiça. 

Por mais estúpido que isso seja, quando uma pessoa faz uma busca simples pra começar a entender a sua identidade mestiço, é isso que ela vai encontrar. Se for uma pessoa sem formação política, sem suporte, ferramentas, orientação, tempo ou paciência, ela pode apenas concluir que a esquerda odeia mestiços e a extrema direita não. 

Eu vou tentar terminar esse programa com alguma sugestão de como que a gente sai desse buraco.

***

[o] conceito de mestiçagem exige uma abordagem histórica condizente com a discursividade que fala sobre ela, os sujeitos que a enunciam e os modos diferentes com que se vão preenchendo os sentidos. Trata-se de um conceito que emerge do choque com o diferente e se estabelece a partir da biologia, alargando-se na sociedade através de artimanhas discursivas e práticas políticas e, por sua vez, atinge seu clímax ao ser proclamado como categoria identitária de uma nação e/ou de um continente. (CARRIZO, 2005, p. 261, apud TORRES, 2005, p. 727)

Essa foi uma citação de Silvina Carrozo, do texto “Mestiçagem”, no livro organizado por Eurídice Figueiredo, “Conceitos de literatura e cultura”, de 2005. Eu cheguei a esse texto através de outro artigo, que contém também essa citação, “La conciencia de la mestiza / towards a new consciousness: uma conversação interamericana com Gloria Anzaldúa”, de Sonia Torres. 

A gente pode começar a falar dos problemas de construção da ideia de mestiçagem na América Latina. 

O ser mestiço, em países colonizados como o Brasil, se tornou um problema integrado à mentira de que existiria uma democracia racial. A mentira da construção de uma brasilidade baseada na harmoniosa mistura entre indígenas, europeus e africanos não é difícil de ser percebida como mentira. Basta apresentar as informações que ela esconde: genocídio, escravidão, estupro, exploração, gerações de classes subalternas social e economicamente. Com isso em mente, nós percebemos que a democracia racial somente existe como uma herança maldita que nós deveríamos destruir.

No meio dessa herança, há o fato de sermos uma população composta por uma imensidão mestiça. 

A mestiçagem foi incorporada nos discursos nacionalistas por um viés hierarquizante típicos dos interesses políticos da mais torpe elite latino-americana. Infelizmente, esse discurso extrapolou muito os círculos de intelectuais fascinados com a possibilidade de um destino puro e estável para cada nação. 

Quando eu falo em viés hierarquizante, a gente pode pensar no conhecido exemplo brasileiro de Silvio Romero. Esse é um exemplo conhecido dentro muitos que pipocavam na virada do século XIX para o século XX e nas primeiras décadas do século XX. O desejo de encontrar um sentido único de brasilidade atravessava boa parte dos nossos positivistas e, numa certa continuidade, dos nossos modernistas. Vamos ficar com esse exemplo mais fácil de apanhar. 

O Silvio Romero se dedicou bastante na defesa de um Brasil mestiço. Ele pensava que a mestiçagem era uma espécie de evolução que faria a população brasileira ser melhor e mais preparada para adentrar o futuro do progresso. De modo mais direto, é como se ele dissesse “Ah! Já que não dá mais pra ser branco mesmo, então pelo menos a gente fica um pouquinho menos preto, um pouquinho menos indígena. Contanto que a gente EVOLUA e deixe de ser primitivo como negros e indígenas, tudo bem.” Ainda em outras palavras, essa é a famosa ideia de embranquecimento da raça. 

Essa ideia tem o pressuposto de que nós jamais seríamos um povo totalmente evoluído, pois jamais seríamos brancos. Por essa razão, seríamos sempre subjugados pelas nações mais evoluídas. Contanto que a gente apagasse a história dos negros e dos indígenas, para o Silvio Romero, estaria tudo bem.

Será que esse seria um exagero meu? Bom, vamos pegar uma curta e também conhecida citação dele pra gente passar raiva um pouco:

A história do Brasil […] não é, conforme se julgava antigamente e era repetido pelos entusiastas lusos, a história exclusiva dos portugueses na América. Não é também, como quis de passagem supor o romantismo, a história dos Tupis, ou, segundo o sonho de alguns representantes do africanismo entre nós, a dos negros, em um Novo Mundo. É antes a história de um tipo novo […] em que predomina a mestiçagem (ROMERO, 2001, p. 100).

Agora você junte essas ideias, esse desejo alucinado da época em encontrar o sentido único de nação brasileira e de povo brasileiro, com a paixão que o Silvio Romero tinha pelos Estados Unidos da América, e a gente tem um conjunto muito parecido com aquele que vocês vão encontrar na extrema direita de hoje. 

Um elemento a mais no pensamento conservador de hoje, é o ataque aos movimento identitários. Isso está presente no nacionalismo mestiço, do qual eu falei agora a pouco, mas também numa esquerda tacanha que insiste em repetir os mesmos erros do passado. 

Alguns anos atrás, despontou um nome intelectual que ainda é muito usado pra se fazer críticas às pautas dos direitos de minorias. Essas críticas costumam dizer que tudo isso é um desvio de foco dos pós-modernos, uma espécie de alienação multiculturalista, que nós deveríamos parar de falar sobre pautas LGBTQ+, sobre pautas negras, indígenas e feministas e focar no que eles chamam de verdadeiras pautas das lutas de classe. 

O nome do sujeito é Antônio Risério. E eu também não vou deixar textos dele na descrição, mas eu deixo um texto do portal Passa Palavra, de 2017, quando o nome dele voltou a circular com força. 

Nesse texto, aliás, já há um indicativo de desconforto da pessoa que escreveu, que eu não sei que é, pelo fato de os setores progressistas, aparentemente, fingirem que não existe um debate em torno da identidade mestiça. 

E aí alguém pode perguntar, mas por que não pensar na condição da mestiçagem é um risco? 

E se você prestou atenção no que eu disse até agora, você vai e responde com outra pergunta: a proposta neofascista e neointegralista é a única disponível para a identificação, reconhecimento e organização da mestiçagem? 

Percebe o risco e o que está acontecendo neste momento.

Se eu não posso obter meu autorreconhecimento através da partilha com movimentos de fundo identitário, essa necessidade pode ser suprida pelo abraço de ideais de união nacionalistas e de ódio às identidades passíveis de autodefinição. 

É compreensível, ainda que revoltante, que uma pessoa perdida no limbo da mestiçagem esteja vulnerável o suficiente para assumir identidades comunitárias que se opõem aos movimentos negro e indígenas mesmo sem dizê-lo. 

Nós podemos pensar nas congregações neopentecostais, por exemplo. De início, a identificação no interior dessas congregações poderia se dizer apenas voltada para o compartilhamento da fé cristã dentro de certos princípios próximos do protestantismo. No entanto, com mais atenção, percebemos que esses certos princípios envolvem a vilanização e a demonização de regiões africanas e indígenas.

Nós podemos pensar, também, na ideia de que somos todos o mesmo povo, o povo brasileiro. De início, falaríamos apenas de uma afirmação de que todas pessoas deveriam ter orgulho de serem brasileiras e defenderem a nação, pois haveria mais coisas que nos unem do que as que nos separam. 

No entanto, ao observar com mais atenção, percebemos que essa afirmação contém várias negações. Afirmar que somos apenas um povo, pressupõe que deveríamos ter apenas uma história e seguir um só destino, um só futuro. Isso seria uma mentira que só poderia se sustentar através da morte de milhões de pessoas. 

Parece exagero? Pode parecer, mas não é. A gente já assistiu esse filme e leu esse livro. 

Tudo bem! Nem todo mundo assistiu esse filme ou leu esse livro.

Acontece que, as histórias dos vários povos indígenas são bem diferentes entre si e o mesmo vale para os vários povos africanos. Para cada um desses povos, o Brasil é uma coisa diferente do que é para o outro povo. 

Um exemplo? 

Você pode acreditar que o português é o idioma fundamental da nossa nação. Ele é o idioma fundamente do Brasil, isso é certo. Mas, ele é o idioma único que deveria representar a nossa nação? E os mais de cem idiomas falados pelo território brasileiro, qual seria o destino deles? 

Esses idiomas dão força para a existência a manutenção da cultura e da história de diversos povos. Se nós passássemos a nos entender como apenas um povo, não haveria por que fazer esforços para preservar essas culturas e essas histórias. Isso significa que, para a concepção de um só povo e uma só nação, essas culturas, e as pessoas que nelas vivem, poderiam morrer sem problema nenhum. 

Sim! A palavra correta e morte.

Se essas culturas não são de interesse para serem preservadas, elas ficam fora da nossa nação. Elas passam a serem consideradas estrangeiras, invasoras e perdem direitos de cidadania. Na prática, esse é o pensamento que dá base para quem defende que não devem existir terras indígenas.

Mesmo que os povos indígenas é que sejam as pessoas com direito histórico sobre as regiões que compõem o Brasil, que os territórios deles é que tenham sido originalmente invadidos por portugueses, eles são tratados como invasores. Se uma pessoa tenta falar o idioma do seu povo em uma de nossas cidades, ela é tratada como estrangeira e invasora. 

Quando fazendeiros invadem suas terras, matam seus líderes, queimam suas casas e destroem suas florestas, o governo da nação brasileira trata esses invasores como heróis.

Essa mesma lógica está na base do genocídio da população preta e favelada. 

Assim como ocorria com os quilombos, as favelas são percebidas pelo poder estatal como território inimigo. Os povos pretos nunca puderam ser agentes de poder na construção do Brasil. As favelas continuam a ser atacadas para que a população preta e pobre aceite calmamente o papel de escrava.

A palavra correta é morte, pois as pessoas continuam morrendo por conta dessa ideia falsa de nação brasileira… por conta dessa ideia falsa de povo brasileiro. 

Não existe A nação brasileira e não existe O povo brasileiro.

***

Não existe A nação brasileira e não existe O povo brasileiro.

Tudo bem. Existem diversos povos, diversas histórias e uma longa relação de ódio, rancor, escravidão, exploração, silenciamento, tortura e morte que nos persegue o nos dá a ideia de Brasil.

É difícil viver num país com essas raízes e com um Estado que tenta ignorá-las em favor do mais forte, daquele que acumulou mais força através do roubo e do assassinato dos outros. 

Tem uma coisa que é difícil pra muita gente aceitar. Ainda assim, vamos tentar.

Defender o nacionalismo é sempre defender a violência.

Talvez você conheça alguém que se diga nacionalista. Talvez você se ache nacionalista de vez em quando. Talvez você não tenha parado pra pensar com muito carinho nessa ideia. 

Lembra do que eu acabei de falar, sobre os povos indígenas e pretos?

Todas as vezes em que eu fui obrigado a discutir com nacionalistas ou em que eu acompanhei discussões com nacionalistas e essas questões eram colocadas, o fim do debate era sempre o mesmo?

Há um argumento que mora lá no fundo da consciência nacionalista brasileira. 

Quase sempre a pessoa consegue ignorar esse argumento com muito barulho e pouca conversa. Só que, quando essa pessoa é obrigada a debater até o limite, esse argumento aparece. 

Esse argumento diz assim: Ah! Mas os europeus conseguiram invadir e escravizar porque os indígenas e os pretos eram mais fracos, primitivos e despreparados. Os fracos perdem a guerra e os mais fortes vencem. É assim que sempre foi. Isso é a evolução natural. 

Pode trocar as palavras se você quiser. Pode só tentar procurar a sensação de crença nesse argumento da inevitabilidade natural da história. 

Caso você encontre a crença nesse argumento, caso você encontre isso lá no fundo da sua consciência, a ideia de que é natural que o mais forte e violento elimine o mais fraco através da força, caso você encontre isso em você, tome cuidado. 

A maioria das pessoas talvez tenha vergonha de assumir, publicamente, uma ideia dessas. Algumas pessoas sentem vergonha porque compreendem que essa é uma ideia de merda. Outras pessoas sentem vergonha apenas porque consideram que a sociedade vai recriminá-las. E ainda há quem não sinta mais vergonha de verbalizar isso, pois encontrou outros que lhe dão apoio.

Defender o nacionalismo é sempre defender a violência.

A último argumento que um nacionalista terá para defender que nós somos apenas um povo e um Brasil, é o argumento da violência. O último argumento do nacionalista é esse que diz que os povos invadidos e violentados foram fracos e que é certo que o mais forte vença e elimine o mais fraco. 

Note que, quando se chega a isso, não há mais pensamento, não há ideias, não há diálogo. Tudo o que há, nesse limite, é a violência, o desejo de matar, roubar e destruir.

Eu disse que ia tentar terminar esse episódio com alguma proposta positiva. Daí eu cheguei nesse ponto. A verdade é que eu ainda estou num processo pra conseguir positivar a minha condição de mestiço e fazendo conexões de ideias. 

No meio disso, eu continuo muito irritado por encontrar tanto material de esquerda dedicado a invalidar as pautas de minorias representativas e tanto material de extrema direta dedicado a abraçar a mestiçagem que existe na população brasileira. 

Uma das ideias que eu gostei de encontrar ligada à positivação da mestiçagem, é o entendimento de entre-lugar do Silviano Santigado. No livro “Uma literatura nos trópicos”, ele escreve o seguinte:

A maior contribuição da América Latina para a cultura ocidental vem da destruição sistemática dos conceitos de unidade e pureza: estes dois conceitos perdem o contorno exato de seu significado, perdem seu peso esmagador, seu sinal de superioridade cultural, à medida que o trabalho de contaminação dos latinoamericanos se afirma, se mostra mais e mais eficaz. A América Latina institui seu lugar no mapa da civilização ocidental graças ao movimento de desvio da norma, ativo e destruidor, que transfigura os elementos feitos e imutáveis que os europeus exportavam para o Novo Mundo. (SANTIAGO, 2000, p. 16, apud. TORRES, 2005, p. 731-132)

Esse elogio do impuro, do instável, a não necessidade de superioridade cultural, o elogio da variedade e da mudança, da quebra de dicotomia entre tradição e novidade, a não necessidade de elementos e características imutáveis, tudo isso faz parte do entre-lugar através do qual eu quero me movimentar. 

Isso tudo combina muito com a teoria da fronteira, da Gloria Anzaldúa, com a qual a gente começou esse programa. A ideia da fronteira não é estar parado em cima de um muro que divide duas realidade, mas sim a liberdade de poder atravessar constantemente, de jamais se estabilizar num modo de ser e, ainda assim, conseguir ter raízes que também atravessam as divisões e as categorias fixas. 

Eu gosto disso. Eu gosto de me pensar mestiço dessa maneira. Se o ser mestiço conversar com o entre-lugar e com a fronteira, o ser mestiço pode ser uma chance de negar o nacionalismo. Mais que isso: não existe nação mestiça, porque ser mestiço é algo tão instável, que supera o nacionalismo. 

Referências

CARRIZO, Silvina. “Mestiçagem”. In: FIGUEIREDO, Euridice (Org.). Conceitos de literatura e cultura. Juiz de Fora: Editora da UFJF; Niterói: EdUFF, 2005. p. 261-288.

COSTA, Claudia de Lima; AVILA, Eliana. Gloria Anzaldúa, A consciência mestiça e o “feminismo da diferença”. Rev. Estud. Fem., Florianópolis, v. 13, n. 3, p. 691-703, dez.  2005.

Livro, Quem teme a morte. Onye e a profecia, de Nnedi Okorafor.

Podcast, NPC 10 – Como Não Confundir Puritanismo com “Politicamente Correto”.

Podcast, NPC13 – Como Não Cortar a Própria Língua.

ROMERO, Sílvio. História da literatura brasileira: tomo I. Rio de Janeiro: Imago,

2001.

SANTIAGO, Silviano. Uma literatura nos trópicos. 2. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.

Texto. “Me diz que sou ridículo” – mas não fique em silêncio!. Passa Palavra, 2017.

TORRES, Sonia. La conciencia de la mestiza / towards a new consciousness: uma conversação interamericana com Gloria Anzaldúa. Rev. Estud. Fem., Florianópolis, v. 13, n. 3, p. 720-737, Dec. 2005.

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