Como tirar a frescura da boca

Imagem de Capa: Companhia Perdida Estudos para sensorimemórias – Estudo 1, solo de Carolina Callagaro, 2012.

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Este texto de Fabiana Pedroni é a transcrição (não tão literal) do podcast Não Pod Chorar 12

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Frescura, quer dizer:

  1. Maricagem, que quer dizer: ato, dito ou modos de maricas, de indivíduo efeminado ou medroso.
  2. Pieguice, que quer dizer, ser extremamente sentimental, ridiculamente sentimental, sentimentalismo. Pieguice também pode significar denguice e afetação.
  3. Frescura também pode significar aragem, bafejo, brisa, frescor, é a oportunidade, a energia, o vigor, o bafejo, o zéfiro. Mas brisa pode ser também brisa nenhuma, coisa alguma, patavinas, bulhufas, nada, nadinha, nadica.

Encontrar a definição em um dicionário não responde a todos os anseios encima de definições. Definir não significa traçar sinônimos vazios, mas preenchê-los de significados vivos. Para a vivência da palavra frescura, fui, como quem investiga a própria vivência, buscar no outro o modo como vêem a questão da frescura. 

“Quando que alguém te diz que você é fresco?”. Uma das repostas me deixou encucada.  “Nunca, sou bruta”. Encucada, pensativa, de um riso seguido por uma preocupação. A princípio, “não sou fresca, eu sou bruta” poderia ser uma espécie de elogio, porque ser fresco é ruim. Mas, depois pensei no modo como as outras pessoas nos veem e como a gente se vê. Porque eu perguntei “Quando alguém, uma outra pessoa, te diz que você é fresco”. Então passei para uma segunda pergunta, que poderia ser parecida, mas não é. “E o que você acha que é frescura demais nessa vida?”. Eu passei de uma pergunta para como as pessoas te veem e você filtra, recebe essa crítica da sua frescura para a ação de como e quando você julga que a outra pessoa é fresca. Conclusão: é muito mais fácil pra gente definir o que é frescura apontando para o outro do que para si mesmo, porque frescura é uma palavra de julgamento do comportamento alheio e menos do próprio comportamento, quando chega até nós pelo olhar do outro, chega como incômodo ou como trauma. Falando de outro modo, são insultos muitas vezes disfarçados, uma “brincadeirinha de nada” em cima das nossas escolhas e comportamentos que podem não nos afetar em quase nada, ou pode nos afetar muito.

Nunca temos como saber o quanto um julgamento pode afetar alguém, porque não sabemos o quanto ela absorve, como assimila as relações no dia a dia. Pode parecer semelhante, mas fazer um julgamento é diferente de uma crítica. Críticas são acompanhadas de argumentos, de diálogo, de esclarecimento. Um julgamento é uma imposição do que achamos melhor ou do que desconsideramos como relevante, mesmo que seja importante para alguém.

Conviver é difícil, então a palavra que está articulada na nossa convivência com o outro, seja julgando ou sendo julgado, vai ter um espectro gigantesco de ação. Quando eu fiz as duas perguntas, muitas das respostas estavam em comportamentos do dia a dia quase inocentes: de ter medo de matar ou mover insetos de um lugar, de combinar roupas, achar que uma coisa não combina com outra, ou o modo como lidamos com animais. Se eu não gosto de gatos esfregando o rabo nas minhas pernas, sou fresco, Se acho que cachorro é carente demais e bagunceiro, sou fresco, mas, isso tudo não é na verdade uma constatação de algo específico e claro? Sim, gatos se esfregam na gente, cachorros dão trabalho e pode ser que algumas pessoas não gostem, não estejam dispostas. Não deveria ser um insulto a pessoa ter essa noção, não é? Mas quando a gente pensa em extremos que vão além do nosso gosto, parece cômico e a gente critique como frescura, desmerecendo a opção alheia. Se você ouve a seguinte frase “Não como feijão no prato, misturado. Só como feijão de colher, numa tacinha” – você provavelmente vai rir, eu ri, porque nunca pensei em comer feijão assim, até porque eu não gosto de feijão, frescura minha? 

Mas daí a gente sai desse grupo de frescuras de escolhas e preferências para questões de sobrevivência: me acham fresco quando eu não como ou evito ao máximo comer carne na rua; me acham fresca quando eu não como agrião fora de casa, se em casa eu demoro horas pra lavar aquilo, imagina no restaurante?! Ou acham que é frescura descer do ônibus e a primeira coisa que se faz é passar álcool em gel nas mãos. Tirar a ponta do papel higiênico em banheiro público, porque alguém encostou ali, isso é frescura. Má desde quando pensar na própria saúde é frescura?! Super entendo, eu tenho plena ciência de que não é não comendo folhas em restaurantes que não vou sofrer por uma contaminação maluca, mas esse hábito diminui um pouco a probabilidade e reconforta a ansiedade de achar que vou morrer de diarreia a cada vez que como fora de casa. Exagero? Mas, sim, todas essas escolhas tem a ver com um conforto também psicológico, uma sensação de segurança. Nossas escolhas parecem automáticas, até o momento em que o outro aponto e você se reconhece, você se percebe. 

Talvez eu tenha dito pra um amigo que não comer folha fora de casa é frescura e aí esse amigo toda vez que estava num restaurante não se servia de alface, mas aí ele se lembrava de mim e sentia culpa, uma culpa tão grande tão grande que aumentava a ansiedade, que se misturava com outras ansiedades, que se misturava com o mundo maluco em que vivemos, que o fazia aumentar a dose diária de ansiolíticos, mas aí ele ficou puto, com a culpa, ele achou que ele tava sendo fresco, então ele comeu alface, ficou feliz, e morreu.

Fomos longe? Vai me dizer que vocês não lembram de uma crítica distante que te disseram ser fresco e isso ficou grudado na sua cabeça?

Não é porque você não lembra no seu dia a dia que essa memória não tome um espaço e tenha significado. Se tem uma coisa que aprendi com minha vó com Alzheimer é que essa porra toda volta um dia e você vira um misto de proibições e paranoia com seu comportamento que um dia te disseram ser frescura. Se alguém já te disse um dia “você lava demais a mão, que frescura”, e você lava cada vez mais e mais. 

Vamos ampliar: o que as pessoas pensam que é frescura na internet, não entre os amigos, mas num fórum em que o anonimato faz a gente ver aquilo que o mundo é, bizarro:

O que é frescura?

Pedir adoçante na caipirinha

Ir numa pizzaria comer rodízio com trocentos sabores e pedir coca diet

Frescura pra mim são atitudes homos

         – Asda: Qual a frescura de um homo?

         – Luckas esclarece: homo no caso, homem gay. fazer depilação com cera, ir ao cabeleleiro, ser sensível….essas coisas de mulher. Não jogar futebol descalço pra não quebrar a unha, etcs.

– ASDA: Se ele é gay… é normal, não é frescura… Luckas, Não jogar futebol descalço pra não quebrar a unha, – Isso não é frescura, é inteligência…. Pra que pagar de fodão e estourar a unha? ISSO é frescura.

Luckas: – Asda, Imagina q vc vindo da casa da namorada, encontra com uma galera de amigos: – E aí cara, vão bate uma pelada?

– Ah não véi, to de chinelo, vou machucar meu pesinho…

Então, vc ouvirá, consequentemente:

-Bicha, frescão, vais si fude…

Veja bem asda isso é fato, irrefutável.

Asda: Luckas 1º – Eu sou mulher. Segundo, frescura é se preocupar com o que os outros vão falar, e por causa disso esfolar o pé e depois ficar dias que nem um idiota machão cuidando do ferimento e ter o incomodo do mesmo.

Luckas: Asda. 1º – Eu sou mulher. – E uma baita fresca. Segundo que Resistir aos ferimentos, ingnorando-os é coisa de macho, o oposto de fresco!

ASDA: resistir ao ferimento. Pode ser… Macho = burro.

Luckas: Ok, burro sou eu mesmo, desculpe por ter tentado discutir sua magnânima opinião, c meu péssimo bom humor de sempre. Parei.

ASDA responde ao “parei” de Luckas_Guitar com um “AH!!!Pára de frescuuura. !!!”

E assim termina esse diálogo brilhante de como a frescura tá na nossa sociedade! Como um sinônimo para comportamento gay e oposto ao macho. Comportamento gay… claro, porque há um comportamento específico que está relacionado à orientação sexual de alguém ou à sua identidade de gênero (alto índice de ironia). Mesmo Asda que questiona a frescura como atitude homo, diz que há atitudes que são normais e esperadas para os homens gays, especificamente, e que isso seria normal, não frescura. Mas se é assim, então frescura é aquilo que foge à normalidade, então há uma normalidade?! Tá vou segurar o desânimo misturado com raiva neste momento pra gente somar mais duas categorias importantes de frescura. Até agora vimos uma grande dos hábitos e comportamentos e uma segunda específica ao comportamento gay. Nem preciso dizer que essas expressões não são minhas, ok?

Nessa mesma cova que achei esse diálogo tinha outras frases de definição pra frescura que me chamaram a atenção e que se juntavam a algumas respostas que tive por mensagem, que atacam diretamente as mulheres:

“Me chamam de fresca quando reclamo de assédio; sou fresca quando digo que o cara passou dos limites; Frescura é Mina q demora mais de 10 minutos de prosa pra liberar o beijo na boca. É Mina que se esfrega em vc a noite inteira e na hora do “vamo vê” não quer mais nada; Frescura é Mina que não dá o cu. Sexo bom é sem frescura”

***

Respira, respira que o texto está acabando (ou o mundo). Vamos pra última categoria, que eu consegui identificar neste breve questionamento e que está relacionada a todas as outras, a frescura como sinônimo de sentir de modo exagerado. Nós acabamos de sair do setembro amarelo, mês de campanha de prevenção ao suicídio. E vamos à frase que inaugura esta categoria: “setembro acabou bora podem voltar a falar q depressão é frescura o telão já tá desligado”. Ou, “Frescura é fingir que está doente pra ficar de manha”, ou “só tava querendo chamar atenção, gente fresca demais”. Ou, por fim, “Não há lugar pra gente fresca e fraca no mundo. Pula logo e para de atrapalhar o trânsito”.

Diante de todos esses modos de encontrarmos o que identificamos na sociedade como frescura, fica aquele incômodo raiz deste episódio: Será que o modo como repetimos tanto essa questão não é um resquício da tal masculinidade tóxica? Sei que esse assunto vai pra bem mais longe, mas, por que temos tantos problemas em dizer que estamos insatisfeitos, ou que somos sensíveis a algo? Ter medo, seja de inseto, seja de pessoas, não é algo que se deva ser ignorado ou mascarado como frescura. E não é, de modo algum, uma frescura, ficar tantos minutos falando da importância de pararmos e repensarmos o modo como vivemos. Se tá tudo aparentemente uma bosta é porque finalmente, finalmeeente, nós conseguimos enxergar isso. Foi necessário que alguém, muitos alguéns, rebatessem um comentário maldoso comum de “ela só queria chamar atenção” para “ela está doente, precisa de tratamento para a depressão”. E isso se pensarmos na ponta do iceberg que conseguimos ver hoje de modo um pouco mais claro, apesar de ainda estarmos na luta para um entendimento e preocupação em comum da doença. Mas quantos desses nossos grandes problemas não começaram com uma acusação, um julgamento inocente de frescura? O quanto isso não está relacionado ao Não Pod Chorar anterior sobre viver na sociedade do cansaço e no excesso de positividade? Estar doente de depressão, sofrer com ansiedade, com estresse, todo o hall de doenças e comprometimentos da ordem psicológica não é sinal de fraqueza, mas de um problema grave que constantemente fechamos os olhos porque estamos ocupados demais tentando ter sucesso e ser sobrevivente ao mundo. Ser forte.

Por que o oposto de fresco é, muitas vezes, bruto, e achamos isso um elogio, por que ser bruto é algo positivo? Ou, como vimos nos comentários, ser macho. Se ainda vivemos em uma sociedade em que o ideal é ser homem, em que o ideal de força é a brutalidade que machuca o outro e a si mesmo, que prefere esfolar o pé jogando bola do que calçar um tênis, mano.. vamos dar uma pausa depois de ouvir esse podcast pra absorver melhor tudo isso e repensar um pouco toda vez que formos tomar decisões instintivas, porque nosso instinto tá muito bugado! Parece que o tempo todo pensamos e nos norteamos por questões que partem de um julgamento do outro e reduzimos o outro à uma falta de importância. Muito em algum momento já foi julgado, como você se alimenta, como se organiza, organiza seu prato, como você estuda, como você trabalha, como é sua concentração, como você se comporta em grupo, seus medos, seus receios, a sua ansiedade, tudo isso em algum momento já foi julgado. No dia a dia quando respondemos a todos os anseios de produtividade, ficamos no modo automático e continuamos a reproduzir frases que pulam da boca pra fora, uma força de expressão que atropela o outro, que o aniquila. 

Não chore, não se expresse, não sinta, não fale, não ria demais, não se cale demais, não ande assim, não cante assim, não rebole, não reclame, deixa passar a mão, não tem problema, deixa de ser fresca, pegue um ônibus depois, ande sozinha, não tire os pelos da sobrancelha, não tire seus pelos, você é macho, não pinte a unha, não seja delicado, não coma com talheres, não diga a nacionalidade dos vinhos, não pense em harmonização, esqueça a ipa e a stout, beba qualquer álcool, beba muito álcool, mas não chore, não se lamente, não pense na ex, ela é uma puta, não seja fresco, não ligue pra ela..

***

Não seja essa pessoa. Vamos tomar um ventinho fresquinho gostosinho, sem julgamentos, com empatia para entendermos que todo problema é um problema, que todo sentimento é válido e que é impossível, por mais empatia que tenhamos, saber o quanto é difícil viver a vida do outro. E não se sinta mal se você, como eu, usa o julgamento de modo leviano e cotidianamente, às vezes é difícil enxergar o quanto afetamos a vida das outras pessoas. E eu espero, de coração, que não tenham se entediado com os resmungos de hoje. Que eles não tenham sido repetitivos, sei que no fundo a gente sabe que depressão não é frescura, mas realmente me espantei de perceber como estamos o tempo todo julgando o outro e sendo afetado pelo julgamento alheio. Esse vai ser um dos exercícios mais difíceis para mim de absorver, porque é o que mais me exige para pensar no outro, considerar que tudo o que o outro acha relevante é, sim, relevante, mesmo que pra mim, na minha vida, não seja da mesma maneira.

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