[transcrição] Como Não Ignorar os Agrotóxicos

NPC09

Imagem de capa. Trabalhador vestido para evitar a poluição por pesticidas no milho.

 

Este texto é a transcrição do podcast Não Pod Chorar 09

Texto de Fabiana Pedroni

 

No final de semana, acordava de manhã cedinho, o mais cedinho possível. Queria participar da ordenha. Eu não tomava leite, era alérgica à lactose, mas gostava mesmo era de amassar os bezerros, fazer tanto carinho nas vacas que era quase felícia. A gente teve um bezerro que a mãe não queria cuidar, ele chegava pra mamar na vaca e ela dava umas cabeçadas nele. E cabeçada de vaca dói pra toda vida. Então eu ia cedinho no curral, dar leite pra ele numa mamadeira improvisada gigante, com bastante leite e às vezes gemada. Depois voltava pra casa. Até amassar os patos, tirar uma soneca com as galinhas, já tava na hora de molhar a horta, colher os temperinhos talvez uma alface pro almoço. Depois do almoço e do dever de casa, ia correr no pasto ou brincar com as crianças vizinhas. Nossa, que vontade de tirar aquelas sonecas no pasto… aquele cheirinho de mato…

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Agrotóxicos podem ser a causa de casos de câncer e malformação?, por Luana Rocha, Repórter Brasil: “O menino Kalebi Luenzo tinha pouco mais de dois anos quando, de repente, começou a andar com dificuldade. Preocupada, Elisângela, sua mãe, levou a criança ao médico: ele tinha leucemia. Kalebi cresceu próximo a uma plantação de algodão, em Lucas do Rio Verde, conhecida no Mato Grosso como capital da agroindústria. O mecânico de tratores Antonio Correa mudou-se para Tangará da Serra em busca de oportunidade de emprego no crescente setor agropecuário mato-grossense. Depois de dois anos trabalhando em fazendas de soja, teve sua primeira filha, Emanuelly, que nasceu com espinha bífida – tipo de malformação congênita que provoca problemas motores e compromete o funcionamento da bexiga e do intestino. […] Uma taxa mais alta de malformação foi encontrada em regiões com maior uso de agrotóxicos como a atrazina, segundo análise publicada em artigo da Universidade Federal do Paraná. O herbicida está proibido desde 2004 pela União Europeia, que associa a substância à ocorrência de distúrbios endócrinos, problema que afeta o sistema hormonal. […] Já o glifosato, classificado como “provável cancerígeno” pela International Agency for Research on Cancer, está em meio a intenso debate internacional sobre seus efeitos negativos à saúde. Em março, um júri nos Estados Unidos o apontou como um “fator importante” na relação com o desenvolvimento do câncer em um homem de 70 anos. […] “Quando meu marido soube da doença do Kalebi, ele ficou desesperado. Acho que se sentiu culpado porque trabalhava com isso e, mesmo sabendo que não podia, ele abraçava as crianças quando chegava do trabalho com a roupa contaminada”, lembra. A mãe está convencida de que essa múltipla exposição aos agrotóxicos levou seu filho a desenvolver a leucemia. […] O estado deve liderar a produção da fibra nacionalmente segundo previsão do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária para a safra de 2018 e 2019. […] Na cidade onde Kalebi cresceu, o glifosato aparece como o mais vendido na Agrológica Agromercantil, com o nome comercial ZAPPQ1. A loja é revendedora exclusiva da Syngenta, empresa suíça que tem no Brasil o seu principal mercado consumidor.”

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Aqui em casa a gente se alimenta de uma forma que eu consideraria saudável. Não sei se porque minha infância praticamente inteira foi na roça, cercada de plantios, mas gostamos muito de verduras, frutas. E, de uns tempos pra cá, tenho inserido algumas oleaginosas, umas castanhas do pará, e outras coisitas pensando nessa herança alzheimeriana, assunto pauta do meu primeiro não pode chorar. Pois bem, mas aí que hoje é meu primeiro dia de folga do trabalho. Tô chamando de férias, mas tá mais como negação do desemprego que me assola. Enfim, mas o fato é que nos últimos três anos, todo dia primeiro de folga, de férias, eu fico doente. Vem uma gripe, vem uma virose, vem qualquer coisa de ruim que dura pelo menos uns 4 dias. E não importa se tô lá comendo um monte de troço pra aumentar minha imunidade, se tomo chá de gengibre, nada. Um tanto vem pela ansiedade, mas… por que não estamos mais resistentes? Parece que tudo ataca o corpo!

Quando falo de comida e saúde, volto nestas memórias de infância, lembro do pomar, da horta, das vaquinhas… mas lembro também da roça, do plantio, do quartinho dos agrotóxicos, do veneno. A nossa horta era muito pequena, não pulverizávamos, dava pra tirar o mato com a enxada, com as mãos, mas, a roça, que era de colheita pra venda, sim. O primeiro desafio foi compreender que nós não éramos da roça, pelo menos não daquela. Meus pais foram criados no interior, mas passaram uma boa patê d avida na capital do ES. Eu fui pra roça com 4 anos, então, a gente não era bem da roça. Cada roça é uma roça, as relações genealógicas são importantes pra firmar se você é ou não daquele lugar. Então no começo tivemos bastante dificuldade de nos fazermos ser ouvidos. Diz minha mãe que um dos estranhamentos foi ter a necessidade de criar um quadro de pulverizações, para marcar o intervalo de tempo que o agrotóxico deveria ficar na planta e não se poderia colher antes do tempo prescrito pela embalagem. Tipo um tempo de carência do veneno. Eu achava isso muito legal, porque na nossa cabeça, estávamos respeitando as prescrições e isso já bastava para a planta não estar contaminada e não ser um problema de saúde pra ninguém, tanto que nós comíamos nossas plantações. E aí que a gente tinha que ficar de olho, porque vira e mexe os trabalhadores colhiam a roça antes, pra tirar um lucro mais rápido. E aí meu pai comprou uma roupa que parecia de astronauta, pra proteger na hora da pulverização. Ele conversou, explicou o perigo que era o agrotóxico, mas os trabalhadores não quiseram usar, diziam que era quente, que não precisava, era só não pulverizar contra o vento que nem tinha problema. E a gente achou que comprar a roupa já bastava e que se eles não queriam usar, a culpa não era nossa. 

Aish, como que é difícil voltar e pensar sobre estas questões, mesmo que fôssemos pequenos produtores. Hoje elas estão distantes da gente, já não trabalhamos na roça, mas, essa é a realidade corrente de muitas famílias. E essa realidade chega até a gente como um soco no estômago, não importa onde você esteja. Não bastava comprar roupa, não bastaria nunca criar um esquema e confiar nele, porque, estaríamos confiando em um veneno. E se a gente amplia para outros modos de produção, que usam pulverização não por bombas manuais, como usávamos, mas por aviões… Na mesma reportagem que lia antes, sobre o menino Kalebi, da ONG Repórter Brasil, diz que “No Mato Grosso, decreto de 2013 reduziu as distâncias permitidas para aplicação terrestre de agrotóxicos. Ou seja, hoje é permitido aplicar ainda mais perto de povoados, cidades e cursos d’águas. A distância mínima autorizada era de 200 metros no estado, e em 2013 foi reduzida para 90. Outras mudanças implementadas no mesmo ano reduziram a transparência sobre o uso das substâncias. O Indea, órgão estadual que antes publicava as substâncias e as quantidades de agrotóxicos utilizadas em cada município, hoje não divulga mais esse monitoramento”. E aí volto a pensar na embalagem do agrotóxico que eu tinha total confiança quando criança, que ela prescreveria o correto da aplicação, como um remédio, não um veneno. Que se ela dizia, “faça uma mistura de tantas mg com tanto de água.. e aguarde tantos dias para a colheita”, isso já bastava. 

A agência pública, que é uma agência de jornalismo investigativo independente, fundada em 2011 por repórteres mulheres,  afirma que “O brasileiro nunca consumiu tanto agrotóxico quanto hoje. O número de produtores que usam pesticidas na plantação cresceu 20% em 10 anos, segundo o IBGE, enquanto a aprovação para comercialização dos químicos subiu 135% em uma década, conforme mostrado nos novos registros publicados pelo Ministério da Agricultura. Apenas este ano, a pasta aprovou 169 novos produtos agrotóxicos e publicou a liberação de outros 197 registros. Hoje são 2.263 produtos agrotóxicos no mercado, e um uso anual de mais de 500 mil toneladas, segundo o Ibama. Os venenos podem entrar no corpo por meio de contato com a pele, mucosa, pela respiração e pela ingestão. O risco é crescente devido à dificuldade em retirar os pesticidas dos alimentos e até mesmo da água.”  A reportagem continua assim “Já no caso dos alimentos, deixar os produtos de molho na água sanitária, bicarbonato de sódio ou vinagre pode ajudar a retirar os tóxicos impregnados nas cascas [veja bem, ajudar] – mas a medida não tem efeito nos casos em que o veneno chega à parte interna do produto”. E aí você lê algo assim e seu coração aperta e você se ilude pensando: “ahh, mas pouco do agrotóxico fica no interior do alimento, neh?. Então… neh. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) tem um guia na sua página oficial com recomendações sobre como retirar agrotóxicos dos alimentos, mas destaca que os métodos não surtem efeito quando os pesticidas são absorvidos para a parte interna do alimento. E se, a gente separa, como faz a anvisa no guia, os pesticidas em dois modos de ação, temos o de contato, que agem mais diretamente na parte externa do vegetal, apesar de uma parte ainda poder ser absorvida, e os pesticidas de ação sistêmica, que atua no interior das folhas e polpas, penetram nelas. E advinha qual é mais utilizado no Brasil? O sistêmico rende muito mais, é mais econômico.  Eu conversava com minha mãe e ela lembrou do Tordon, que é um herbicida que se você passa no pasto, as vacas tem que ficar meses sem entrar em contato com o lugar de pulverização. “Mas Fabiana, não é qualquer um que pode comprar esses venenos e usar de qualquer jeito” – não, do mesmo jeito que não se deveria usar remédios de tarja preta sem prescrição. Mesmo que hoje se exija a inscrição de produtor rural, que se exija uma espécie de “receita”, ainda assim, o acesso é muito fácil. Destes poucos minutos aqui de conversa a gente já pode listar: contaminação de solos, contaminação de alimentos, contaminação por absorção da pele e respiração, não há corpo que aguente. 

Quem já esteve em contato direto com agrotóxicos consegue sentir o cheiro dele só por dizer a palavra. Aquilo gruda na pele, gruda na roupa, e a roupa fede, fica suja, você lava, ela continua suja, você lava e lava e todo o resíduo vai pra onde? Pois é… Segundo dados do Ministério da Saúde dentro do Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Sisagua), mais de 1.300 cidades encontraram resíduos de agrotóxicos na água que sai das torneiras em medições feitas entre 2014 e 2017. Embora a maioria esteja abaixo do limite legal permitido no Brasil, não existem estudos sobre o potencial da mistura de diferentes agentes químicos. O levantamento também descobriu que dentre os 5.570 municípios brasileiros, 2.931 não realizaram testes na sua água entre 2014 e 2017.”. Agora, imagine toda esta preocupação aumentada em 922% que é a percentagem de alta na liberação de pesticidas no Brasil este ano de 2019, se comparado ao mesmo período de 2010. 

Nossa, só dessa leitura já temos tantos problemas e medos aí no meio. Primeiro que pra gente ter ciência de números, estes números tem que ser medidos e.. quem mede? Como mede? Pra quem mede? Temos acompanhado este 2019 desastroso em muitos aspectos e um deles certamente é o desmonte das proteções ambientais. Temos o aumento da violência rural contra comunidades indígenas, dos movimentos sem-terra, a pressão dos ruralistas, uma alta de 922% na liberação de pesticidas no país, se comparado ao mesmo período de 2010.. e, por mais que a gente continue a se orgulhar do premiado filtro de barro, ele, coitado, não seria capaz de retirar os agrotóxicos da água. Segundo a Agencia Pública, “Uma vez que o pesticida chega na água, ainda não se tem um processo bem substanciado e que garanta que o cidadão possa usá-lo para fazer a purificação”, diz o professor Antônio da Hora, que ministra disciplina de Recursos Hídricos no Departamento de Engenharia Agrícola e Meio Ambiente da Universidade Federal Fluminense (UFF). […] A Resolução nº 274 de 22 de setembro de 2005 da Anvisa, que regulamenta a venda de águas envasadas e gelo no Brasil, define limites máximos permitidos das substâncias químicas que representam risco à saúde, inclusive de agrotóxicos. O glifosato, por exemplo, tem como tolerância 500 micrograma por litro”. 

E fica aquela pergunta, como que toleramos quantidades de coisas nocivas em nosso corpo? Se é nocivo, é veneno e pronto! Mas não é que toleramos, é que, desculpem o pessimismo, estamos caminhando para um colapso e o Brasil é um alvo fácil neste sentido, visto pela crise política, midiática, ambiental. 

Vamos a uma ultima reportagem.. Na Mongabay, que faz um jornalismo ambiental independente, publicou no dia 06 de maio (e olha quanta cosa mudou até agora) um alerta de uma pesquisa que afirma que a Amazônia pode ser a maior vítima de guerra comercial entre Estados Unidos e China. Diz assim, no resumo “Os Estados Unidos são o maior produtor de soja do mundo e, historicamente, exporta a maior parte de sua produção para a China. Mas depois da alta das tarifas imposta à China por Donald Trump resultar em uma retaliação chinesa – aumento de 25% nos impostos de importação sobre os produtos agrícolas dos Estados Unidos, no ano passado – as exportações de soja norte-americana para a China caíram 50%, e a importação chinesa de soja brasileira cresceu substancialmente. A produção de soja está ligada ao desmatamento em larga escala da Floresta Amazônica e do Cerrado – os dois maiores e mais importantes biomas brasileiros. Se a guerra comercial Estados Unidos – China continuar, novas pesquisas sugerem que a quantidade de terra dedicada à produção de soja no Brasil pode aumentar em até 39% para atender a demanda chinesa, o que causaria mais desmatamento, cerca de 13 milhões de hectares de floresta – uma área do tamanho da Grécia, segundo estimativas de pesquisadores”. Amazônia pode ser a maior vítima de guerra comercial entre Estados Unidos e China, alerta pesquisa, por Sarah Sax (Tradução de Mariana Almeida), Monabay; Somos uma grande bomba, prestes a explodir. Ou talvez já fossemos, em construção, há muitos anos. 

Ah, não, desculpem, preciso de mais uma fala pra juntar tudo o que estou dizendo aqui. “A ministra da agricultura, Tereza Cristina, esteve na Câmara dos Deputados nesta terça-feira (9/4) para esclarecer  os critérios utilizados para a liberação do uso de agrotóxicos no Brasil. Em menos de 100 dias de governo foram publicados no Diário Oficial da União o registro de 152 agrotóxicos. Um dia depois da defesa da ministra na Câmara dos Deputados, o Governo aprovou a comercialização de mais 31 produtos agrotóxicos. A publicação do deferimento dos registros ocorreu na edição desta quarta-feira do Diário Oficial da União. 16 produtos da lista foram classificados pela Anvisa como Extremamentes Tóxicos, a classificação toxicológica mais alta. Resumindo, ela disse que, em defesa dos pesticidas, que estudos científicos eram “desinformação” e que os agrotóxicos eram remédios para plantas, sim, ela usou estas palavras. A ministra declarou diversas vezes que a maioria dos casos de intoxicação ocorre devido ao manejo errado dos pesticidas,  “É preciso focar no processo do controle do uso desses produtos na aplicação”, garantiu a ministra. “Os pequenos produtores não têm essa capacitação feita para que eles tenham o cuidado e apliquem com roupas apropriadas, equipamentos apropriados, façam lavagem do equipamento e não fumem. Às vezes o sujeito fuma aplicando, e no cigarro ele acaba ingerindo o produto químico que ele está utilizando na aplicação do solo”. A reportagem aqui citada, do repórter brasil, procurou na internet casos de intoxicação por agrotóxico devido ao contato do veneno com cigarro, mas não encontrou resultados. 

E ai volto a pensar naquela roupa que meu pai comprou para os trabalhadores usarem na pulverização e que foi pouquíssimo usada. Não, obviamente, por culpa direcionada unicamente ao produtor, ao trabalhador, mas por uma cultura da facilidade não responsabilizada e dos grandes lucros. E começo a pensar naquele senhor, pai de um colega meu de escola, que se suicidou com uma mistura de agrotóxicos que ele tinha no sitio dele. E começo a ler um estudo feito pela professora Larissa Mies Bombardi, da USP,  (aqui) de um mapa de envenenamento de alimentos no Brasil. Desse mapeamento, gera-se um estudo feito em parceria entra a universidade pública, alvo de ataques constantes, e outro pais, a Alemanha, que sedia a Bayer/Monsanto e a Basf, indústrias agroquímicas que respondem por cerca de 34% do mercado mundial de agrotóxicos. NoJornal da USP, por onde tive contato com este material que já tinha sido lançado em 2017, afirma que A Monsanto, recentemente incorporada ao grupo Bayer, é a líder mundial de vendas do glifosato, cujos subprodutos têm sido associados a inúmeras doenças, incluindo o câncer e o Alzheimer. “Queríamos promover discussão sobre a contradição de sediarem indústrias que controlam toda a cadeia alimentar agrícola – das sementes, agrotóxicos e fertilizantes – e serem rigorosos quanto ao uso de mais de um terço dos pesticidas que são permitidos no Brasil. Eles são corresponsáveis pelos problemas gerados à população porque vendem e exportam substâncias sabidamente perigosas, porém, proibidas em seu território”, diz. 

Eu, como uma pessoa que ama comida, não tenho como não me desesperar com a situação. Um bom prato, saboroso, foi por onde o capitalismo me pegou de jeito. E eu vou, sim, ficar revoltada, porque tô aqui gastando o dinheiro que não tenho pra me alimentar bem, pra saber, depois de tudo, que tô comendo veneno! Só mais uma escuta, a do prefacio do ebook da Larissa: 

O que este notável trabalho, uma obra de coragem, de Larissa Mies Bombardi nos permite fazer, no entanto, é apontar uma verdade muitas vezes intangível, escondida e evasiva. Uma verdade que não está bem, que se infiltra no nosso ar, nos nossos rios, nos nossos solos, nas nossas casas, nas nossas veias e pode ser nomeada. Está marcada. É comercializada e sua venda é imposta aos agricultores pobres. Seus diferentes nomes estão em inglês, francês e alemão. Esses nomes são infiltrados por laboratórios em Whashington, Londres, Paris e Berlim, a partir dos corredores abertos pela vista grossa de governos e inescrupulosos cientistas treinados para focar em problemas imediatos e não em crises globais. Patentes são concedidas aos fabricantes, que vivem distantes das mulheres, homens e crianças cujas vidas, experiências, frustrações e aspirações estão por trás das dramáticas estatísticas que são apresentadas por esses mapas. Patentes que retornam lucros a cada novo produto criado e tem como único propósito matar. Fungi-“”cida”, herbi-“cida”, inseti-“cida”, pesti-“cida”. O sufixo “cida” tem como sentido literal “matar. Devemos agora acrescentar homi”cídio”, infanti-“cídio” e populi-“cídio” às façanhas desses produtos químicos? Infiltração a partir de aviões, dos topos das montanhas aos rio, dos ombros dos trabalhadores às roupas, lares e jardins, da cidade à aldeia e das fábricas aos nossos pratos. Condenados por decisões tomadas em continentes distantes.

***

Quem me conhece sabe que não sou muito boa em lidar com algumas informações como estas que vão muito além de ações que uma reles mortal como eu posso mudar. Mas,  como educadora que sou, com aquele espirito conflituoso de aquariana, eu sei que o primeiro passo para sair do lugar é a informação. A gente precisa acelerar o coração com estas notícias, pra gente sair do lugar. Porque, olha só a quantidade de material que eu citei que reúne pessoas preocupadas com a mesma questão. Isso dá aquela pontada de esperança. O tal trabalho de formiguinha parece ainda um tanto absurdo, mas ele está aí. A articulação começa no dia a dia. Ainda é muito difícil conseguir sair deste esquema absurdo da alimentação contaminada, até porque chegamos a um ponto realmente crítico. Mas o mais importante de tudo é não ignorar que vivemos neste mundo e que um problema não vem sozinho. E que, por pior que esteja, este processo de transição que vivemos, de uma piora para uma futura melhora, traz questionamentos que aquela Fabiana que pegava nas embalagens sujas de agrotóxicos sem luva nunca se faria. O problema não estava na roupa de astronauta que não queríamos usar, na nossa simplicidade e ignorância, mas na existência de um sistema baseado em grandes lucros e na desculpa do “dá nada não”. Por que deu, e tá dando muito ruim. As políticas públicas, que poderiam facilitar a produção de alimentos orgânicos e seu barateamento, por exemplo, vão completamente na contramão da nossa sobrevivência. Por mais que tenhamos mapas, programas que nos ajudam a encontrar os pequenos produtores de orgânicos, é um tanto desesperador perceber que na verdade, nosso corpo é o tempo todo atacado e explorado e somos cúmplices indiretos deste crime. E como sair deste crime? Como deixar de fazer parte desta malha exploratória? Não acredito que eu esteja em condições, ainda mais com a febre dessa maldita gripe e desse corpo fraco, de responder a esta pergunta. Mas posso dizer que a dúvida carrega tanta esperança que nos fez acreditar nos últimos dois anos que a Dinamarca seria, em 2020, o primeiro pais a ter 100% de sua produção só de orgânicos. Era uma fake News e é difícil de admitir que nossa esperança a alimentou tão bem. 

Agora chega de resmungos, vou descer a rua e comprar mais gengibre com o vovozinho da venda pra ver se salvo meu nariz um pouco. 

Referências:

Agrotóxicos podem ser a causa de casos de câncer e malformação?, por Luana Rocha, Repórter Brasil;

Desmonte de proteções ambientais brasileiras ganha velocidade, por Sue Branford e Thais Borges (Tradução de Mariana Almeida), Mongabay;

Amazônia pode ser a maior vítima de guerra comercial entre Estados Unidos e China, alerta pesquisa, por Sarah Sax (Tradução de Mariana Almeida), Monabay;

Lançado na Europa mapa do envenenamento de alimentos no Brasil, Por Ivanir Ferreira, Jornal da USP;

Série de reportagens Amazônia Resiste, da Agência Pública;

Série de reportagens Amazônia Sem Lei, da Agência Pública;

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