[crônica] Ritos de passagem e ferros de passar

Imagem de capa. Ilustração. Ritos de passagem e ferros de passar. Fabiana Pedroni.

Laranjinha no alto da estante. Fabiana Pedroni. Ilustração sobre papel e intervenção digital, 2020.

Crônica de Fabiana Pedroni

 

Dizem que para a vida adulta há ritos de passagem. Para alguns, isso significa deixar a casa dos responsáveis legais, para outros, pode ser pagar boletos. Para mim, a primeira vez em que me senti intensamente adulta, foi quando comprei um ferro de passar roupa.

Muitas das coisas que precisei fazer assim que saí da casa de meus pais, eu na verdade já havia feito. Cozinhar, limpar a casa, cuidar das plantas, lavar roupa, fazer compras no supermercado, ir à feira, comprar e usar ferramentas de vários tipos, como martelo, chaves de fenda e furadeira. Eu já havia feito muita coisa que me ajudaria a sobreviver sozinha desde criança. Por sorte, não precisei sobreviver sozinha desde criança.

Tudo bem! Eu não sobreviveria sozinha só por saber usar uma furadeira. O ponto aqui não é esse. A informação mais importante aqui é que eu nunca antes havia comprado um ferro de passar.

No meu imaginário, só existiam dois ferros de passar roupa, além daquele de brasa que, para muitos, deixou a pilha de roupas para virar peça de museu. Minha primeira referência foi o substituto direto do ferro de brasa de minha avó. Aquele ferro de passar substituto era preto e prata, pesado, e nós tínhamos que ter muito cuidado para não torrar a camisa, a tábua, o chão de madeira da casa e, quem sabe, acertar alguém do outro lado do planeta.

Toda a vez em que eu o usava, tinha a sensação de que ele vazaria para o centro da terra assim que começasse a esquentar, puxado pela gravidade. Ainda não duvido de que essa seja uma possibilidade válida. Algumas peças da minha infância eram muito resistentes a impactos dos mais variados. Posso garantir que fiz testes que iam de mordidas a arremessos. No caso do ferro de passar substituto, talvez fosse o peso da máquina ou talvez fossem as minhas mãos de criança.

Eu precisei de uma pausa na escrita para recordar-me de seu nome, era o Bléqui. Esse era o ferro de minha vó, de minha mãe e de minha infância. Agora, posso parar de chamá-lo de ferro substituto e chamar-lhe pelo nome: Bléqui.

Minha segunda referência de ferro de passar era o de minha mãe, que substituiu o Bléqui, e ainda a acompanha. O substituto do Bléqui era de uma modernidade tão modernosa que, naquele tempo, eu tinha medo de encostar em sua carcaça de plástico e sair voando junto, de tão leve que a geringonça era.

Não era necessário colocar madeira em chamas para esquentar, nem precisava usar o peso do corpo para desamassar a roupa. O substituto do Bléqui fazia uso do poder miraculoso da água em vapor. Um vapor danado de bom e perigoso. Vamos dar nome ou milagreiro do desamasso: Walita Rosa.

O Walita rosinha, para ser um pouco mais carinhosa, hoje desbotado, ainda existe em versões mais recentes, mas este fato não me ajudou no meu tal dia de adultês. Eu não estava com minha mãe quando ela o comprou, não sabia quais características ela considerou importantes na escolha da máquina de desamassar a vapor. Isso era importante, pois, como adulta, era eu quem precisava escolher. A pressão de estar em uma loja, diante de tantas possibilidades de uso dos avanços tecnológicos dos eletrodomésticos modernos não é pouca coisa. Era assustadora a prateleira com vários modelos e funcionalidades que eu nem conseguia imaginar como parte do processo de passar roupa.

Quando uma criança tem medo de alguma coisa, ela olha de longe, rodeia, passa como se ignorasse para, em seguida, ficar na esquina, a observar. Eu passei pelos ferros de passar e fui embora: outro dia, talvez.

Andei pelo mercado, comprei verduras, olhei as flores e, quando ia embora, percebi que minha roupa estava amarrotada. Fiquei aflita com a ideia de que, se eu não comprasse o ferro, as roupas continuariam a me esperar em casa, como um grande embrulho de problema. Uma vida amassada pode ter seu charme. Mas, eu gostaria da liberdade de deixar minha vida amassada apenas quando fosse da minha vontade. Quero desamassar a vida e amassá-la novamente quando bem entender. Compreenda, então, o desespero e a urgência diante da possibilidade de perder o controle de uma vida amassada.

Olhei a fileira de ferros de longe. Prateleira pavorosa. Observei os clientes e quais ferros pegavam na mão. Tentei compreender quais eram os seus critérios de escolha. Sem sucesso. Quando as pessoas saíram de perto, pude encarar os ferros de passar com um pouco mais de coragem. Eu analisei o peso de alguns. Eu não queria afundar e nem flutuar.

Eu considerei o valor, porque não queria algo barato demais, que não durasse tanto quanto os ferros de passar de minhas antepassadas, mas, também nada tão caro que eu precisasse parar de comer brócolis. E brócolis são caros e preciosos. Não que preço, durabilidade e brócolis fossem diretamente proporcionais, mas havia uma ligação.

Também considerei os botões. Não queria um ferro de passar com painelzinho digital que, na primeira bordoada desastrada, queimasse e explodisse minha casa. Diferente da brasa, diferente da secura do Bléqui, eu queria vapor, muito vapor!

Foi aí que o fator mais importante aconteceu: eu olhei pro ferro de passar e o laranjinha sorriu para mim. A caixa mostrava uma fotografia de um jato gigantesco de vapor que saia por vários buraquinhos na base do laranjinha. Ele tinha um corpo opulento, mas relativamente leve. Aquela foi uma sensação de prazer maravilhosa. O laranjinha cabia no quartinho, cabia no bolso, e ele ainda gostava de banho! Era uma coisa lá de autolimpante.

Peguei o Laranjinha e, no caminho para o caixa, senti meu corpo mudar. Eu estava mais alta, os cabelos esvoaçantes e o passo mais forte. As batatas já nem pesavam e o brócolis nem era tanto luxo. Enquanto eu esperava para fazer o pagamento, meu peito inflou como de passarinho e senti uma vontade gigantesca de dar uma rizada maléfica de vilão bobo de filme clichê. Quase saiu uma risada de Dominarei o mundo! Este castelo será meu muáááá muááá.

Claro que sensação é uma coisa e a realidade concreta é outra. Cheguei no caixa, fiz o pagamento, me embolei para colocar a caixa na sacola, pois não cabia. A moça disse algo e eu não consegui ouvir. Fiquei tão ansiosa, tão nervosa, que rasguei mais uma sacola. A moça do caixa falou de novo e eu comecei a suar as mãos.

Ela disse: “Moça! Na saída tem sacola pra isso, moça!”. Só aí consegui dar um ponto final. Peguei meu Laranjinha, as batatas e o brócolis, corri para saída, encontrei a bendita sacola maior, agradeci o moço que me entregou a sacola como se já me esperasse, como se já tivesse visto de longe meu caos de rito de passagem.

Cheguei em casa com minha terceira referência de ferro de passar roupa. O Bléqui da minha vó, o Walita Rosinha flutuante de minha mãe e o meu Laranjinha ultra mega blaster vaporoso dominador do mundo do amassado! Agora, como uma pessoa que já passou pelo rito de passagem, sei que ele não passa. Amanhã terei de comprar uma placa mãe e descobri que existe difusão de calor dos transistores, vrm, sockets e bios, seja lá o que isso for.

Existe uma vida amassada das placas mães. A cada rito de passagem, eu espero manter minha liberdade de amassar e desamassar a vida quando der na telha.

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