[resenha] Faísca, temporada 2, parte 1

Imagem de capa. Rãs e Carinatas. Rodrigo Hipólito. Colagem digital, 2015. Resenha. Faísca. Temporada 2

Imagem de capa. “Rãs e Carinatas”. Rodrigo Hipólito. Colagem digital, 2015.

Um dos melhores projetos voltados para novas narrativas da ficção especulativa que encontrei nos últimos anos é a Faísca. Esse projeto me encontrou num momento em que o tempo para a leitura de ficção havia quase sido excluído de minha rotina. O resultado desse encontro é que consegui retomar as leituras de ficção e também a escrita.

Não é possível compreender a própria escrita sem exercitar a leitura. Mas, o tempo para a leitura de ficção pode ser muito escasso, tanto para escritores quanto para não escritores.

A Faísca é uma newsletter que te envia, semanalmente, duas narrativas relâmpago de duas autorias diferentes. Narrativas relâmpago são rápidas e intensas. Isso me permitiu ter um momento para a leitura prazerosa, sem cobranças, quando eu estava soterrado de livros de teoria e correções de trabalhos de alunos.

Quando consegui me livrar desse peso, a rotina de escrita de ficção trouxe a vontade de responder às pessoas que me proporcionaram as narrativas relâmpago toda a semana. Para cada episódio da segunda temporada da Faísca, eu fiz um pequeno fio de comentários no Twitter.

A primeira parte desses fios está reunida a seguir. Notem que esses comentários contêm os perfis das autorias. Se você não assina a Faísca, pode assiná-la, gratuitamente, aqui. Ela é um projeto que chocou do ninho da revista Mafagafo.

Caso queira acessar os textos da segunda temporada, eles estão disponíveis aqui.

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Episódio 01

Quase antes de chegar ao segundo episódio, meus pequenos comentários sobre as duas primeiras @faiscamafagafo do ano ^.^. Gostei do ritmo do texto da @isadorando, que me ganhou de verdade no ponto 4. A partir daí, já me senti num cenário no qual queria seguir personagens traçados com esse humor rápido. Gosto quando o texto deixa espaço para quem lê poder imaginar.

A partir do ponto 4, comecei a imaginar a viagem pelas rodovias do interior do ES e de MG, cheias de pequenas casas em ruínas, abandonadas perto da estrada ou no meio da pastagem do gado. Em resumo, se virar livro, eu lerei com gosto!

Não cheguei a chorar com a narrativa do @toledodiogo, mas se continuasse, aí eu já não sei hahahaha O texto me ganhou por conseguir me ambientar logo nas primeiras linhas. A segunda frase já me deu a perspectiva da realidade onde se passa a história e da sua proximidade com a nossa. Uma identificação maior se deu porque moro em Vitória ES e, aqui, quem não pode pagar um ambiente climatizado, respira pó de minério 24h por dia.

O fato de ser uma narrativa do ponto de vista e um só personagem me incomodou um pouco. Mas, não por considerar que fosse algo problemático, já que se trata de uma narrativa super curta. O incômodo foi apenas porque queria muito conhecer o ponto de vista das outras personagens. Isso significa que sim, acharia o máximo se tivessem mais duas ficções curtas com os pontos de vistas das outras duas personagens. Lerei com gosto!

Episódio 02

Pequenos comentários sobre o segundo episódio da @faiscamafagafo (não devo comentar todos os episódios. Mas, enquanto estou de férias, por que não tentar? hahaha)

Na narrativa do @denyssch, é possível reconhecer o narrador de imediato e isso fez com que eu desejasse saber o que acontece com ele. Isso não significa que ele seja uma pessoa sem defeitos. Provavelmente eu não seria amigo dele hahaha.

Isso é um elogio. Considero muito difícil apresentar um personagem com rapidez, sem que ele seja fechado num estereótipo. O texto consegue fazer isso com um tom de humor que deixou a leitura ainda mais divertida. Saber usar a repetição de frases é um ponto forte desse tom.

Somente o final não me agradou tanto. A prosa continuou boa, mas, a descrição da última personagem fez o contrário do que me ganhou no começo do texto. Isso não significa que eu não continuaria a ler, até porque, esse final é bem aberto para a construção da personagem.

Sobre a narrativa de @thepristar. Valeu muito a leitura! Eu me divirto muito com versões fantásticas da nossa burocracia. É de rir de nervoso imaginar que vamos encontrar esse tipo de situação em qualquer mundo onde formos parar hahahaha

Gostei também da ideia de karma como maldição. Preferia que a condição do personagem principal fosse algum karma “inventado” pela @thepristar? Sim, preferia. Mas, isso é consequência do quanto gostei da ideia original. Se, por acaso, ela tiver mais narrativas com essa premissa, adoraria que os karmas fossem algo diferente das maldições e monstruosidades já conhecidas ou que puxassem mais para as menos conhecidas. Eu aqui alimentando fanfics com o universo dos outros hahaha. Imagino que isso indique como a leitura foi boa!

Episódio 03

Terceiro episódio da @faiscamafagafo e ainda consigo comentar as narrativas pois eu continuo de férias!! (já prevejo a semana que vou querer e não poder).

A narrativa de @deeeehapp conseguiu fazer com que eu sentisse empatia por um item inanimado de um tipo de realidade muito distante da minha (tanto na vida adulta quanto na infância). Só isso já valeu a leitura.

O ritmo do texto é muito fluido e acerta a medida para um relato em primeira pessoa ser ágil, sem deixar que o narrador se perca em pensamentos ou prolongue cenas. Aliás, o sentido de urgência é uma das sensações mais efetivas dessa narrativa. Virou meu exemplo de ótimo terror!

O início da narrativa de @carlosmrocha me incomodou pela artificialidade de alguns termos. Mas, já no 2º parágrafo, fica evidente que essa artificialidade é proposital. O excesso de termos que poderiam ter surgido em fóruns de discussão da internet acrescenta um bom sarcasmo.

Conseguir manter essa impressão de sarcasmo até o final da narrativa é um dos pontos que mais me agradou. Apesar de discordar da visão de futuro e do retrato da arte contemporânea apresentados no texto, o encadeamento de acontecimentos é muito envolvente e divertido.

Episódio 04

Quarto episódio da segunda temporada da @faiscamafagafo e cada vez mais perto do final das minhas “férias”.

A narrativa da @Taynelles me fez rir de tristeza. Eu gosto muito desse tipo de humor e, nesse caso, veio de encontro a um comentário que fiz outro dia, depois de terminar de ler uma antologia de contos de ficção científica.

Eu havia comentado que não me agradam as narrativas de SciFi escritas em forma de relatório, relato em primeira pessoa ou “gravação para a posteridade”. O relatório de Abla Aba veio de encontro a esse comentário. Ele funcionou.

Em parte, sinto que gostei desse relatório por ele usar a expectativa de tecnicidade e seriedade de um relatório oficial de uma missão como elemento humorístico. Mas, o que mais gostei, foi outra característica o texto.

Como explicar, em um relatório curto, algo que foge não apenas aos objetivos do trabalho, mas também aos parâmetros que temos de sociedade? Umas das melhores respostas é: “então, é meio complicado”. O resultado ficou ótimo!

Curioso que, assim como eu não costumo gostar de relatórios, eu tenho zero paciência para poemas. Raramente um poema me agrada e, quando isso acontece, costumo ficar com o desejo de que fosse uma prosa. Não foi assim com o poema de Lise Rodrigues.

Acredito que foi a primeira vez que experimentei a construção de uma distopia em um poema. Ao menos tenho certeza de que foi a primeira vez que experimentei isso em um poema tão curto.

O que eu precisava para perceber a ambientação, a perspectiva (ou falta dela) de futuro, a força da personagem central e a maneira como chegamos àquela situação, tudo estava ali. Isso funcionou também por ser algo que compõe o tecido do Brasil de hoje.

Como negro-indígena, passei todos os versos com a mesma angústia com que acompanho o cenário atual todos os dias. Isso fez com que o final soasse como um manifesto em dois versos. Gostei de um poema.

Episódio 05

“Páscoa, renascimento”, de @PetronioDTN, conseguiu o objetivo de ser irritante. Vou imaginar que o objetivo da faísca era ser irritante. Pode ser que isso tenha batido só para mim. Já faz anos que fujo de narrativas de viagens no tempo ou de brechas temporais ou de feitiços do tempo ou de vórtex temporal ou não sei lá qual o tipo de termo mais recente para esse tipo de narrativa! Por quê? Porque isso me causa desespero.

Só de considerar a ideia de estar em uma repetição, como a apresentada nessa faísca, sou consumido por um vazio crescente. E quando eu falo assim, pode parecer que isso não é uma recomendação de leitura. Bom, isso depende dos objetivos com os quais você lê ficção especulativa.

Eu gosto muito das narrativas que usam o fantástico e o absurdo para causarem desconforto e, assim, nos fazerem voltar com mais força para a realidade. Essa faísca fez isso comigo. Ao terminar de ler, agradeci com sinceridade por acreditar que o tempo de vida é finito.

Por falar em morte, vamos para “As quatro utilidades de um coração falso”, de @brunocvitorino. No caso dessa faísca, tenho que confessar que fiquei um bom tempo sem fazer ideia do que comentar. Isso teria acontecido por conta de não ter conseguido “realizar mentalmente” as personagens? Ou seria por ter me perdido em algum ponto da narrativa? Não, não se trata disso. Eu demorei para saber o que comentar sobre “As quatro utilidades de um coração falso” porque essa faísca talvez faça isso.

Ao falar sobre sacrifício, através de referências tradicionais da ficção científica, e sem apresentar elementos que permitam que o leitor se preocupe com aquele mundo, essa faísca nos coloca me uma enrascada. Isso me parece importante, já que o robô, personagem da história, também está em uma enrascada parecida.

Para nos sacrificarmos, nós precisarmos nos importar com algo. E para nos importarmos com algo, deve ser construída uma ligação em nós. Pode chamar de programação, se quiser. Já que, nos últimos anos, a palavra empatia tem se tornado uma repetição meio vazia, é bom que uma narrativa como essa nos lembre de que, para nos importarmos com o outro, é necessário que habitemos o mesmo mundo onde o sofrimento existe.

Episódio 06

Sobre a narrativa de @jplimag, no sexto episódio da segunda temporada da @faiscamafagafo, Sim! O conto cumpriu a função de causar desconforto. A ideia de vida eterna sempre me pareceu algo bastante desagradável e elevar isso ao nível de destino do planeta só “piorou” tudo. É realmente aflitivo imaginar um mundo com tanta gente jovem e o acúmulo de gente velha dizendo que “naquele tempo é que era bom”. Esse é um dos meus novos infernos agora.

Fiquei com uma sensação parecida com a que tive ao ler, pela primeira vez, Jornada de Esperança, do Brian Aldiss. Só que, dessa vez, com uma carga sutil de humor. Em algum momento estranhei que não se usasse clonagem para resolver o problema da ausência de crianças. Mas, aceitei como resposta a falta de recursos para alimentar mais gente.

Preferia que o narrador não tivesse se revelado como uma das pessoas daquele futuro. Isso deixou a coisa toda um pouco emotiva demais para o meu gosto. Mas, isso não tira nada da qualidade do conto!

Já a história de @moranavioleta foi uma coisa mais difícil pra mim. Tenho dificuldades (atualmente) com referências a divindades europeias. Isso é uma questão um tanto pessoal. Fiquei um pouco saturado de mitologia greco-romana e trabalhar como professor de História da Arte não ajudou muito nisso.

Daí vem um dos pontos positivos dessa faísca: ela conseguiu fazer um leitor (eu) que acha mitos greco-romanos algo entediante se divertir com a personagem. Talvez isso tenha sido possível por ser uma história narrada de um ponto muito íntimo (uma oração) ou talvez pela própria narrativa não apresentar aqueles mitos como grandiosos. Seja o que for, deu certo!

Episódio 07

O sétimo episódio da @faiscamafagafo surtiu o efeito que mais gosto quando leio ficções curtas… me deu vontade escrever ^.^. Se o carteiro do @ardaia_ aparecer em outras histórias eu certamente vou querer ler!

Não dá pra saber tanto do personagem pela faísca. Esse é um dos motivos de querer ler outras coisas com o personagem. Outro motivo é o modo como ele está integrado ao cenário. O que está em volta do carteiro faz com que ele se torne mais interessante. Ele não apenas fala com os objetos. Os objetos aparecem como personagens e complementam o carteiro. Confesso que tive dificuldades de imaginar a Sucuri. Mas, de repente, terei mais descrições dela quando o carteiro precisar limpá-la ou recarregá-la. 🙂

Já a narrativa de @anamerege foi um ótimo tiro! A leitura foi tão fluida que, ao final, fiquei com aquela sensação de “será que isso que tô lembrando tava escrito lá mesmo ou já tô inventando coisa?”.

Apesar de ser uma narrativa que introduz um cenário, ela consegue se encerrar mais pelo tom da prosa do que por ter fechado as possibilidades de acontecimentos. Pelo contrário, qualquer coisa poderia acontecer após aquela primeira situação. Essa sensação de encerramento foi forte o suficiente para que eu não precisasse saber o que acontece depois. Talvez, quando já tiver passado uns dias, venha aquela curiosidade de seguir naquele mundo aterrador.

Episódio 08

A narrativa do @Rafa_Marx, nesse episódio 8 da @faiscamafagafo, poderia muito bem ter sido contada do lado do fogão à lenha, numa noite de inverno. Foi uma experiência de leitura bem nostálgica, pois me fez lembrar de muitas histórias que ouvi quando era criança.

O texto do Rafael conseguiu passar muito bem a impressão da oralidade, sem exagerar em estereótipos do linguajar interiorano. É muito bom poder ler esse tipo de diálogo e ouvir a voz das personagens sem que o sotaque pareça forçado. Isso funcionou bem o suficiente para dispensar maiores descrições das personagens e dos cenários. Dona Celina não está ali apenas para transmitir o causo para quem lê, ela demonstra personalidade desde as primeiras falas.

Talvez eu preferisse um final menos previsível, como um corte para uma notícia sobre um misterioso banho de sangue numa casa do interior. Mas, isso poderia estragar o clima despretensioso que foi super bem construído. Então, ainda bem que terminou como terminou!

Já a faísca de @dtriorado segue no sentido oposto ao fogão à lenha. É engraçado que, por mais absurdo que seja, tenho que concordar que, caso a espécie humana precisasse sair do planeta, seria provável que tentassem emular o modo tradicional de reprodução ao invés de pensar em clonagem. Mas, fora isso, essa narrativa me causou impressões confusas. Eu detesto “pequena Eva”. Mas não posso negar de que ela é uma canção grudenta de tão boa! Além disso, também a ouvia como uma narrativa de ficção científica desde criança. Adoro a ideia de pensar que uma das músicas mais populares do Brasil, que volta todo o verão, é uma narrativa de ficção científica!

Episódio 09

“Poussière de Lune”, de @annadixit, talvez tivesse outro efeito sobre mim, caso eu tivesse lido essa narrativa fora dessa pandemia. Talvez isso ocorra com a maioria das narrativas que eu vou ler em isolamento social (sim, eu sou uma das pessoas que pretende sobreviver a esse inferno!).

Faz uma diferença danada imaginar um personagem preso por séculos, ou milênios, dentro de uma garrafa ou uma lâmpada mágica, quando tal personagem tem pessoas das quais sentir saudades. A existência de seres imortais ou com tempo de vida muito longo é um pensamento que me dá algum desespero. Por isso essa faísca causou um efeito específico agora, durante a pandemia. Livrai-me (qualquer força sagrada) de viver por mil anos! Principalmente se essa longa vida for em isolamento. Quando será que isso vai passar?

Já “Sobrevivendo”, de @CarlosGauche, me fez retornar para várias vezes em que fiquei irritado com personagens e quase disse em voz alta: “Não, cara! Não faz isso! Vai dar merda. Todo mundo sabe que não é pra escolher a ilusão.” Daí o personagem vai lá, escolhe a ilusão e se fode.

O pior é que nossa tecnologia de imersão parece caminhar nesse sentido. E por que não seria? Afinal, isso será mais lucrativo do que promover o aprendizado emocional. Se o Second Life parece meio inocente hoje, em parte, é por já estarmos mergulhados em ilusões mais eficientes.

Fora isso, não sou uma pessoa que costuma guardar muitas lembranças e tento evitar as memórias que me deixam triste. Só que algumas lembranças sempre se recusam a ir embora. Espero jamais cair nas garras da realidade virtual e que a pandemia acabe antes que isso pareça uma decisão razoável.

Episódio 10 e 11

Nesses tempos de Apocalipse Coronga, atrasei várias leituras de ficção, pois é difícil aproveitar a experiência com a cabeça perdida em perdigotos. Hoje, finalmente consegui ler os episódios 10 e 11 da @faiscamafagafo. Seguem os comentários.

“Era difícil de enxergar as Banidas”, de Levi Banida é um tiro forte. Esse é um texto que causa impressão, constrói um clima, sem precisar de descrições visuais ou acontecimentos específicos. O foco no clima não retira o teor crítico e realista do texto, pelo contrário.

Na experiência de leitura, foi fundamental ter passado pelo mundo sombrio e quase lovecraftiano para, após a metade do texto, encarar esse mundo como real, pois é real. Ao final, fica o gosto de uma possibilidade aberta para que uma distopia se torne uma utopia.

Em “Dolly”, de @coral_daia, encontrei um tema que sempre me atraiu na ficção científica: o risco de extinção por baixa natalidade. Na contramão das ideias equivocadas de que existe gente demais no mundo, nós ocupamos pequena parcela do planeta e as taxas de natalidade caem.

Num cenário extremado, quais seriam as soluções extremas adotadas e o que ocorreria caso nenhuma funcionasse? Daí me lembro da “Jornada da Esperança” (Brian Aldiss), “The Children of Men” (P. D. James), “O conto da Aia” (Atwood) e por aí vai.

Mas, minha simpatia pela narrativa se deu, principalmente, porque, no ensino médio, escrevi e atuei numa peça sobre clonagem. A notícia sobre da Dolly era recente e assustava muita gente. Hoje, caso tivéssemos esse cenário de extinção, acredito que a clonagem seria muito bem aceita.

Vamos para o episódio 11, com “Tecnologias que não avançaram — parte 1 de 1”, de @delsices. Normalmente, não gosto de comédia, ou melhor, gosto de comédia em pequenas doses espalhadas por outros climas. Raramente leio até o final um texto que já se anuncia como comédia.

Cheguei até o final dessa narrativa e gostei do que li. O principal elogio que posso fazer a esse texto é o ritmo. É muito difícil construir um texto com a expressão da oralidade sem soar artificial. @delsices conseguiu expressar naturalidade e isso fez toda a diferença na minha experiência de leitura. Era como se o narrador conversasse comigo. O narrador é real e ele é bem humorado sem a intenção de fazer piada. Talvez seja outra coisa. Ele é engraçado sem saber que é. E passar raiva com impressora é algo quase universal.

Vamos para “A voz que não vai embora”, de @anavickcosta. Assim como o texto anterior, eu teria tudo para não gostar. Nesse caso, eu teria dificuldades porque minha paciência para ler textos em que existem adolescentes caiu muito nos últimos anos. Mas há exceções e essa foi uma.

Até o terceiro parágrafo eu só pensei, “Eu não quero ser terapeuta de personagem. Eu não me importo com a ansiedade dessa personagem. Vou embora”. Só que aí, a chave girou. Muito do que eu quero assistir em “Divertidamente 2” está nesse texto da @anavickcosta.

Da segunda vez em que assisti “Divertidamente”, senti falta de algumas coisas. E se a protagonista não fosse uma criança saudável, com família estruturada, branca, corpo padrão e boa condição financeira? As emoções básicas em sua cabeça seriam essas? Quem comandaria? Será que ela teria mais emoções preocupadas com seu bem ou teria emoções destrutivas pra valer? Como seria o “Divertidamente” de uma criança sem rede de apoio, sem tantos privilégios? Essa narrativa me deu algumas respostas e valeu muito a pena!

Episódio 12

Agora que tô conseguindo manter as leituras de ficção minimamente em dia (até a cabeça fritar de preocupação de novo), vamos aos comentários sobre o episódio 12 da segunda temporada da @faiscamafagafo.

“Um boteco no fim do mundo”, de @j_venegasa me deixou mal e isso tem relação tanto com a qualidade do texto quanto com o momento. Tenho dificuldades de lidar com emoções como tristeza. Aliás, costumo transformar tudo em raiva: se fico triste, fico com raiva por estar triste.

O modo como as palavras se rebatem e se aceleram no conto de @j_venegasa, para depois desacelerarem na aceitação do fim, é contagiante. Se eu lesse esse texto em outro momento, seria até acalentador. E é aí que entra a parte do momento atual.

A história me lembrou de que, hoje, não posso sair para comemorar o fim do mundo no meu bar de estimação. Daí vocês já imaginam o impacto da narrativa. Mas, vamos girar isso. Meus vizinhos baderneiros estão ouvindo música então, acho que vou abrir uma cerveja.

“Sobre o leite não derramado”, de @lricoy, é mais uma narrativa que me deu raiva. Volto no que disse acima, quando fico triste, fico com raiva. A identificação com objetos e algo que me atrai muito em narrativas e que faz parte do meu processo como artista.

Despertar emoções fortes com micro situações do quotidiano, como a história de @lricoy faz, é algo que coloca nossos pés no chão. O ser humano é um ser COM objetos. Nossa humanidade, nossa sensibilidade e nossa coletividade, nossas culturas e histórias foram feitas COM objetos. Não devemos separá-los do modo como vivemos no mundo que construímos. Uma das características de nossas relações com objetos é que eles se tornam guardiões de nossas memórias, documentos de nossas vidas. @Sunomoma pesquisa exatamente isso.

Como resultado dessas duas @faiscamafagafo de hoje, fiquei triste, fiquei com raiva porque fiquei triste, depois decidi comemorar a vida e lembrar de que tudo a minha volta faz parte do modo como estou e vivo no mundo!

Episódio 13

Demorei mais de um dia pensando nas @faiscamafagafo do 13º episódio da 2º temporada, pra só então fazer comentários. Ambas as narrativas, de @LauroKociuba e @KomatsuFlavio, são mais do que bem vindas nesse auto isolamento.

Cheguei a comentar “d(Ela)”, de @LauroKociuba com o próprio, no grupo de leitores aberto por @IcaroDeBP. É um daqueles textos que abraçam a ideia de obra aberta sem deixarem de apresentar um significado direto. Sim, isso é possível! E quase sempre aconselhável.

A ficção científica e a fantasia, majoritariamente, apresentam cenários e personagens q nos carregam para uma realidade que exacerba elementos desdobrados da nossa realidade. Nesse mundo espelhado e seguro, todas as críticas e discussões se tornam mais livres para serem apresentadas.

Uma alternativa a isso é tecer um discurso com os elementos fantásticos que já existem no nosso mundo e deixar apenas entreaberta a porta para o exercício da liberdade. Esse é o contrário do didatismo, pois nos instiga a aceitar o desafio da interpretação.

@LauroKociuba faz uso dessa alternativa em “d(Ela)”. Uma sugestão para quem fizer a leitura, é que deem sobrenomes para a Musa. Assim, podem experimentar as mudanças de direção da reflexão que o autor propõe.

Em “Muitos anos de vida”, de @KomatsuFlavio, o intimismo é mais evidente, pois é necessário para o efeito que o texto causa. Iniciar uma narrativa com uma pergunta que quem lê provavelmente tentará responder é uma estratégia de envolvimento difícil de usar. Pois, para que faça efeito, quem escreve precisa imaginar a leitura daquela pergunta a partir de diversas cabeças. Quando isso funciona, e esse é o caso, você se identifica de alguma maneira com o narrador já na primeira frase. Mais que isso.

Você para e PENSA já na primeira frase da narrativa. O restante de “Muitos anos de vida” encadeia a reflexão do personagem num ritmo que te arrasta. O texto parece se preocupar com as rimas e essa musicalidade quase te faz esquecer do aterrador cenário informado.

QUASE esquecer, pois quando isso começa a acontecer, a história chega ao seu final com uma informação nova sobre os personagens. Essa também é uma alternativa arriscada: terminar o texto com uma informação nova. Isso funciona bem quando essa informação se relaciona diretamente com tudo o que foi apresentado acima.

Iniciar de um jeito arriscado e terminar de um jeito arriscado, depois de carregar quem lê por um relato cheio de ritmo. Nem vou comentar a temática, pois em outras faíscas já disse o quanto essa discussão me interessa.

Espero conseguir manter os comentários sobre cada episódio em dia enquanto dura a quarentena. ^.^

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Você poderá ler a parte 2 desses comentários aqui.

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2 pensamentos sobre “[resenha] Faísca, temporada 2, parte 1

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