[artigo] História de troncos e cascas

Fotografia antiga; Sépia. Arquivo pessoal. Autoetnografia.

Tronco gente-bicho. Maria Angélica Pedroni. Arquivo fotográfico pessoal. Década de 1970.

Referência completa: PEDRONI, Maria Angélica. História de troncos e cascas. Revista do Colóquio[S. l.], n. 18, p. 135-145, 2020.

Maria Angélica Pedroni[1]

 

Resumo: Este relato de experiência parte da pergunta “Quando você se tornou artista?” para falar da relação entre arte e vida, entre natural e artificial. Dessas tensões de discurso, surge a urgência de um pensamento político como um dos possíveis alcances da Arte. De uma potencialidade política, os sujeitos se entrelaçam em camadas, entre troncos e cascas, para nos mostrar como interferimos no mundo e como não podemos ser neutros.

Palavras-chave: Relato de experiência; Natureza; Processo de criação; Formação artística.

History of trunks and barks

Abstract: This experience report begins with the question “When did you become an artist?” to talk about the relationship between art and life, between natural and artificial. From these tensions of discourse, the urgency of a political thought emerges as one of the possible reaches of Art. From a political potentiality, the subjects intertwine in layers, between trunks and barks, to show us how we interfere in the world and how we cannot be neutral.

Keywords: Experience report; Nature; Creation process; Artistic formation.

 

Respirar artístico

Sempre me irritou a falácia da inspiração e do gênio criador. Quando inspiramos, consumimos principalmente oxigênio e produzimos gás carbônico; acontecem trocas no corpo. Por que a inspiração no campo artístico seria tão passiva e romantizada? Vivemos num mundo cheio de conflitos, tensões e trocas. É delas que inspiramos experiências e produzimos arte. Por isso, se alguém me pergunta “Quando você se tornou artista?”, não tenho outra resposta a não ser “Quando comecei a respirar”.

E isso não está atrelado à ideia de gênio criador, inspiração ou “eu desenho desde pequena”, para pegarmos um dos grandes estereótipos de formação artística. O avançar do tempo tem me mostrado de forma mais clara um quebra-cabeça de meu caminho artístico que se cruza com o caminho cotidiano, porque não há uma separação dualista dentro do sujeito artista.

A constatação do binômio arte/vida pertence conceitualmente a uma época, mas não vive apenas nela. Todas as trocas, os encontros, as experiências, os tombos, os registros, todos fazem parte de uma vivência que é palco para a produção artística.

Alguns artistas vão tornar a vida seu tema, outros seu suporte, outros, ainda, manterão a vida no bastidor do processo criativo. Mas nós não conseguimos nos tornar neutros, artistas não são neutros, historiadores não são neutros, cachorros não são neutros. Sempre marcamos um posicionamento, somos formados por escolhas e ações que falam sobre como vivemos e no que acreditamos.

Não seria diferente em minha formação artística. A junção de várias experiências construiu uma atuação em que no mundo artístico chamamos de artista, mas que na vida chamamos de viver. Há marcos, claramente. Momentos ápices em que uma experiência se torna mais clara como um marcar o sujeito em seu modo de se atentar ao mundo, de viver e construir.

Para minha filha, o marco de minha experiência para adentrar no campo artístico foi no dia em que o vidro da varanda de uns andares acima do meu apartamento caiu na minha varanda. Espatifou-se em diferentes formatos. Além do susto, veio um encantamento. No amanhecer, os raios de sol que refletiam no chão-vidro, inundavam a sala. Ao me aproximar da varanda, um mundo diferente se abria de uma paisagem que eu não conhecia senão pelos cacos. Deixei os cacos de vidro no chão até minha filha vir me visitar. Isso foi em 2013, quando ela morava em São Paulo. Foram algumas semanas de espera. Naquele dia, ela, graduada em Artes Visuais e mestranda em História Social, me disse “você precisa fazer o curso de artes, não tem mais jeito”.  Para ela, foi naquele dia. Para mim, foi muito antes. Foi em meio à troncos (imagem de capa).

Quando penso sobre essas marcas de vivência estética que ficam na gente, lembro-me de um tronco em formato de gente-bicho, que encontrei quando criança. Em uma viagem para Linhares, lugar que eu nasci, perto da Lagoa Juraparanã, nós posamos ao lado de um barranco, parados junto daquele tronco, papai, eu, meu irmão, primos e o tio. Ali eu reconheci uma produção de arte.

No decorrer da vida vamos adquirindo essas experiências. Quantas vezes meus pais brigaram comigo, porque eu amava tanto o piso de taco que tirava alguns para poder entalhar. Papai, pedreiro, tinha um formão enorme, que eu usava para entalhar, junto de facas da casa. O plano era mudar o piso, e eu fazia isso aos poucos.

Aquilo que aconteceu lá atrás persistiu. Não ficou esquecido, em muitos momentos voltou para me marcar novamente. Por mais que reconheça que há um lapso grande entre estas experiências de infância e adolescência e o momento em que entrei no curso de artes, em 2014. Casei-me muito cedo, com 19 anos, e, de um tempo em que a maioria das mulheres viviam uma vida dedicada exclusivamente à família, o pensar artístico mutou-se e se misturou com tarefas diárias que, na época, aparentemente, nada tinham a ver com o campo artístico. Mas é preciso chegar a um ponto mais distante para perceber que as peças do quebra-cabeça se juntam e que essa persistência das experiências se adapta às exigências da vida. Foi preciso me conhecer um pouco mais, me descobrir um pouco mais, para compreender que não há uma inspiração ou um nascer do sujeito artista. A gente produz, sempre produz, e chega um momento em que pode ser que você se encontre em um meio acadêmico de produção artística e isso reconheça de modo mais direto aquilo que você faz.

A graduação em Artes fez isso por mim. Me deu a oportunidade de me concentrar nessa descoberta de mim e do montar do quebra-cabeça. Os tacos riscados viraram matrizes de gravura, a fotografia de tronco-bicho virou objeto artístico, virou pintura, virou performance, virou toda forma de produção que brinca com a memória e com o fazer. Virar naquele sentido de trocas internas e produção, como inspirar e expirar.

 

Troncos políticos

Depois de sair de Linhares e vir para a capital, o encontro com a Arte foi cercado não só de obras de arte pública, mas, também da Galeria Homero Massena. Eu ia sempre na Vila Rubim levar marmita para meu irmão, saía da Glória, onde morava, e, nesse trajeto, encontrava um refúgio na Galeria. Depois a vida adulta me engoliu e só fui voltar à Homero Massena quando minha filha expôs lá e eu fui a produtora da exposição Chronologia Kairológica. Fiz a montagem, me envolvi em todo o processo, me aproximei das pessoas do ambiente artístico. E um ano depois eu estava no curso de artes.

Mas, como eu disse, não somos sujeitos neutros. Não poderia entalhar matriz de gravura sem me atentar para o piso de taco. O formato das matrizes, a vontade do detalhe, tudo passa por outras experiências. E, mesmo agora, na reta final da graduação, retorno todo mês ao sítio que morei durante décadas, quando sai com meus filhos e marido da capital, em 1992.

Foi no sítio que, próximo à Pedra Azul, no interior do ES, que encontrei outras madeiras e outros troncos.

Se em minha juventude, encontrava troncos que se abraçavam, e que eu me abraçava, foi no interior que encontrei uma árvore-mãe, e aprendi a lida com a natureza.

Fotografia antiga. Arquivo pessoa. Autoetnografia.

Abraço. Maria Angélica Pedroni. Aquivo fotográfico pessoal, 1979.

Mas não vamos romantizar essa experiência como aqueles que romantizam o respirar artístico. Naquele tempo, eu não tinha a noção que tenho hoje de impacto do ser humano na natureza. Não compreendia que botar fogo em um terreno, mesmo com acero, poderia ser prejudicial para a terra, por mais que momentaneamente, ela produzisse com mais força. Não compreendia que as braúnas deveriam ser preservadas como hoje são. Madeiras tortas, resistente, que trazem uma história antiga que é nossa história.

A madeira da braúna era usada para construir a fundação das casas, não apodrece, é resistente à umidade. Nós a usamos para fazer cerca no início dos anos 1990, como mourão, nome das peças de madeira fincadas no solo que sustentam os arames na horizontal. A Braúna é resistente à umidade, mas ela lasca muito, é preciso cautela. O grampo, colocado para segurar arame da cerca, tinha que ser colocado não na vertical, paralelo ao mourão, mas levemente deitado. Bastava um grampo colocado errado, muito em pé, que o mourão trincava, ficava frágil. Depois de quase 30 anos, as trincas deixadas por esses grampos se tornaram aberturas encantadoras.

 

Fotografia de arquivo. Autoetnografia.

Lascas de braúna. Detalhe de três mourões da antiga cerca, da década de 1990, retirada em 2020.

 

Toda a articulação para se construir uma cerca, a composição, a escolha dos materiais, a compreensão de que as peças de canto da cerca precisam ser mais firmes e resistentes que o meio, tudo isso, somou-se ao fazer artístico, não foi esquecido.

É o tronco que lasca, que trinca, que carrega 30 anos ou mais de memórias, que vira cerca, vira canteiro, vira lenha para fogueira de São João quando já não consegue parar de pé, é esse tronco, que me constrói como ser consciente da proteção ambiental. É esse tronco, hoje protegido, que me lembra das queimadas da Amazônia, ou não tão distante, a queimada do vizinho, que por mais que eu avise, alerte, não compreende que precisa proteger a camada mais externa do solo. Ou que não entende que aquilo que fizemos no passado, não estava certo, não deu certo e não continuará dando certo.

É esse tronco, é esse taco, é essa matriz, é esse discurso do fazer, que me coloca no discurso artístico-político. O transformar da matéria em algo novo, o reaproveitar, o reciclar, fazem parte de uma postura que questiona o modo como vivemos. As madeiras tiradas da mata, com a devida autorização dos órgãos de proteção ambiental, foram retiradas seguindo as instruções dos pomeranos que construíram nossa casa. Era preciso tirar a madeira na lua certa, para que não desse broca, deixar secar por mais de mês, para depois ser cortada. Algumas madeiras não foram abandonadas, viraram prateleiras, as prateleiras, viraram lenha para cozinhar o prato do dia, e viraram cinza para jogar na horta.

Mas, como era a proteção ambiental na época para me permitir retirar uma braúna da mata sem retribuir de alguma forma? O quanto a proteção hoje é eficiente? Estar na mesma terra por décadas me mostrou o impacto que geramos, como decisões erradas secaram a terra, como o não-saber era prejudicial, e como a persistência ignorante hoje é arrasadora. Não me é possível produzir artisticamente sem pensar em todas estas questões que atravessam a vida.

 

Cascas: camadas de sujeitos

Degradamos a natureza e ela dá a volta. Retire as árvores, seque as nascentes, espante os animais, torne tudo inabitado e nós não sobreviveremos. Nossa capacidade de adaptação é pequena. Há muitos animais que vivem no deserto, em condições extremas, mas, há poucos seres humanos capazes dessa sobrevivência. Estou isolada do mundo por causa de um vírus, o mundo se abalou com o covid-19. Isso é natureza. Sua resposta é mais rápida que qualquer resposta/solução tecnológica.

Se levo esta compreensão para o observar cotidiano, encontro um pé de ameixa que engoliu uma enxada. Criou camadas de cascas a envolver cada vez mais um elemento artificial, até torná-lo natural. O pinheiro, cortado pelo arame farpado de uma cerca, reagiu a engoliu, aos poucos o mesmo fio.  A modernidade nos separou da natureza e nos tornou artificiais. Mas quantas cascas a natureza criou para nos sobrepor e engolir?

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Tronco de pinheiro com arame farpado pregado com grampo engolido, 2015. Imagem utilizada no ensaio visual “Entre crescer e cair: processos iniciais”, 2015.

Cada vez mais tenho pensado nas cascas. Há dois anos, comecei a fazer desenhos e pinturas de rostos. Em desenho III, iniciei este processo, mas foi em Desenho IV, depois de fazer também gravura, que estes rostos ganharam uma forma de sobreposição. Uma camada se sobrepõe a outra, e forma um povo, de origem diversa que se encontra. As vivências do interior, do plantar e colher do café, o sofrimento de meus pais no plantio de milho, os deslocamentos para encontrar trabalho, por tantas famílias, aqueles que lutavam pela vida na cidade, todos estes se encontram num só.

Essas cascas arranhadas, lascadas, que engolem, reagem são matéria que diz o que somos. Não ao acaso, não mostrei aqui nenhum de meus trabalhos artísticos. O que trago neste relato de experiência são camadas de pensamento que nos dizem que sujeitos se formam pela história e pela memória. Vivemos no presente atentos ao passado, para sabermos o que podemos fazer de melhor hoje. Para isso, é preciso de empatia. Mamãe dizia “coloque-se no lugar do outro”, porque se fizermos isso, cometemos menos erros, sofremos mais, mas criamos um mundo melhor. Foi isso o que entendi nestes meus 58 anos de troncos e cascas.

 

Notas

[1] Graduanda em Arte Plásticas na Universidade Federal do Espírito Santo; colaboradora no grupo Coletivo Monográfico e no site notamanuscrita.com; tem experiência na área de Artes, com ênfase em História da Arte, elabora pesquisas poéticas sobre a dicotomia Natural/Artificial e atua principalmente nos seguintes temas: Instalação, Colaboração e Processos de Criação.

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