[crônica] O dia em que engoli um sorriso

insomnia monster. Arian Motta. Ilustração, 2016.

Texto de Fabiana Pedroni

O mais difícil, na experiência de envelhecer, não é sentir o corpo mudar. A pele ficar flácida, a barriga aumentar, tudo pesar, esses não são os maiores problemas. O mais difícil não é, por pior que isso seja, perceber que a forma como se descreve o próprio corpo expõe sua gordofobia e o seu ageísmo. O corpo envelhece e os pensamentos continuam a exigir mudanças.

Como é difícil tentar se abaixar e não conseguir alcançar o chão, nem levantar, na mesma velocidade que antes, sem ranger as juntas dos ossos. Ah, os ossos, como eles sofrem no envelhecimento! Parecem ganhar vida própria, cada um com uma dor diferente.

Mas, nada disso, é mais difícil que acompanhar o envelhecimento do outro, o envelhecimento de seus genitores ou responsáveis, duas, três décadas mais velhos. Se nasce uma ruga reta em seu rosto levemente flácido de trinta anos, no do outro, a ruga torna-se um sulco que divide a testa em várias expressões simultâneas.

Ela está triste ou preocupada? Ou será que está com alguma dúvida? É impossível ter certeza apenas pela expressão facial. As rugas nos confundem. Os lábios caídos podem não significar descontentamento, podem não significar nada. Pode ser apenas que eles não possuam mais elasticidade para se alinharem aos dentes.

Essas incertezas me recordam do dia em que engoli um sorriso. A hora de lavar as vasilhas e preparar o almoço é um convite para ouvir podcasts. Naquele dia, eu ouvia um episódio muito interessante sobre tempo e linguagem. Estava toda empolgada com a conversa sobre diferentes definições de tempo, quando minha mãe abriu a porta.

O movimento de abrir a porta, colocar as compras no chão e acender a luz fria da cozinha foi percebido em uma experiência alargada de tempo. No relógio, o movimento de seu corpo, em curva perfeita para o chão, foi imediato. Mas a reação de meu corpo foi  arrastada. Uma palavra de única sílaba conseguiu ser cortada ao meio quando engoli meu sorriso ao ver a expressão pesada de minha mãe. Entre o “O” e o “i”, toda a expectativa de um dia feliz foi sugada para dentro de meu estômago.

Não me lembro se realmente a cumprimentei. Talvez tenha me esquecido, porque estava muito mais atenta à reação traumática de meu corpo, que correu para desligar o podcast. Quando algo ruim está prestes a me atingir, corro para aniquilar qualquer ação de felicidade externa. Desliguei o podcast como desligava o toca discos ao ouvir os passos de meu pai, que se aproximava de meu quarto, no meio do dia, para me chamar para o trabalho na roça. A história com minha mãe não exigia tal atitude, mas quem controla o corpo quando ele tem medo?

O medo nos faz ter atitudes inesperadas.

Que ameaça poderia trazer um corpo que estica os braços gentilmente para acomodar ovos sobre o chão?

O movimento era tão atencioso, que poderia ser traduzido em um passo de balé. Eu mesma me surpreendi com tal destreza.

Como poderia meu corpo de quase 60 anos conseguir ir ao chão e voltar sem se partir? Toda dobra, depois de certa idade, é como dobra em papel, deixa marcas, algumas irreversíveis. Mas, naquele dia, me desdobrei.

Com a mão esquerda, eu ainda segurava a maçaneta, quando a direita desceu ao chão e acionou a perna esquerda como contrapeso. Subi a perna a uma altura que não achei ser mais possível. Somente me dei conta do movimento extremo quando os dois pés tocaram o chão e nenhum tendão do braço se distendeu.

Acendi a luz como quem acende uma esperança. E como quem sai da sala de cinema depois de um filme impactante, queria contar o causo. Mas, não pude. Toda a luz daquele momento foi soterrada com a expressão de minha filha, que soluçava num “oi” esquisito.

Sem luz, sem outras vozes. Ela correu para desligar o som, como se algo ali precisasse ser punido. “O que foi?”, eu perguntei. “Nada.”, a resposta da mais previsível e mentirosa. Frustrações parecem não ter fim. Quando a gente acredita que, por ter vivido a juventude, a gente pode compreendê-la, é aí que nos surpreendemos com um abismo! O dia foi ruim? Estava cansada do trabalho? Ou, mais uma vez, se preocupava com meu corpo? Com tudo o que ele poderia ou não poderia fazer?

Tenho a impressão de que, por culpa da incompreensão, nós nos tornamos companhias detestáveis. Aquele por quem você era responsável vira um tipo de perseguidor de preocupações. Você estava sorrindo, mas sua testa dizia o contrário e a única mensagem que chegava era “Estou morrendo, socorro!”

Quando a gente envelhece, o mais difícil é saber que a dificuldade de compreender o outro vem de um excesso de zelo. Em determinado momento, cada um assume para si a postura de “não quero trazer mais preocupações, ela já tem o suficiente”. O cuidado não esconde apenas um elemento potencial de preocupação, mas inúmeras trocas.

As outras vivências inibidas poderiam incluir sorrisos não engolidos, causos não silenciados, dúvidas não compartilhadas. Abraçamos tão forte o outro, que não ouvimos os estalos dos ossos. Ossos jovens também se quebram. Sim, é difícil nos perceber envelhecer. É difícil dar corpo ao tempo.

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