[transcrição] Como desistir de um doutorado

Imagem de capa. NPC01. Como desistir de um doutorado.

Imagem de capa. Fotografia antiga em preto e branco de criança chorando diante de escada de madeira de acabamento rústico, com garrafa de leite derramado no primeiro degrau. Fonte: infinitos locais da internet.

Este texto é a transcrição do podcast Não Pod Chorar 01

Texto de Rodrigo Hipólito

Sim meu povo, o mundo permitiu que eu me matriculasse em um doutorado e isso só depõe contra o próprio mundo, pois obviamente meu único objetivo de me tornar doutor é poder usar jaleco branco vinte e quatro horas por dia como qualquer acadêmico de medicina do primeiro período de graduação. 

Esta é uma história triste, irritante e com um final razoavelmente feliz. Embora felicidade seja uma palavra muito forte. Vamos dizer somente um final razoável, para uma série de decisões erradas que eu comecei a tomar no início de 2017. 

Depois de ter me formado bacharel em Artes Plásticas, dado aula pro ensino básico, trabalhado em museus, galerias, acervos, feito meu mestrado em História da Arte, mantido boa produção poética e teórica, eu já estava há um tempo fora da cadeira de estudante.

Na época, já fazia quase dois anos que eu lecionava História da Arte no Departamento de Teoria da Arte da Universidade Federal do Espírito Santo, além de diversas disciplinas de metodologia e fundamentos teóricos pro curso de pedagogia da Faculdade Europeia de Vitória, uma instituição particular dentro da região metropolitana da capital do Espírito Santo. 

Fora essas jornadas, eu editorava periódicos do Programa Pós-Graduação em Artes da UFES, mantinha, pesquisas no Laboratório de Teoria e Processos em Artes, também na UFES, e tentava conter uma profunda e intensa vontade de matar com requinte de crueldade, transmissão ao vivo, uma dupla de pessoas desprezíveis que tinham acabado de me dar calote na república onde eu morava, mas essa última parte eu deixo no outro episódio. 

Eu elenquei essas atividades, e preocupações, fora as mais pessoais, pra dizer que esse é o terreno no qual brota a merda. Se você se sobrecarrega de atividades a ponto de não conseguir gerenciar suas vidas doméstica, afetiva e financeira, esse não é o momento no qual você deve tomar decisões mais pesadas do que o cardápio do almoço. 

Mas, nesses momentos a gente perde boa parte da noção sobre o peso dessas decisões e quando percebe, já tá perdido numa cidade que você não conhece, acordando na calçada, com insolação e cheiro de mijo. Sério, se você estiver agora nessa situação, para de trabalhar e vai beber. Eu conheço gente que começou a trabalhar demais, viver na correria e do nada a pessoa perde a casa, perde a família e tá pagando dízimo na igreja, pagando cem contos numa rosa sagrada da salvação. 

Felizmente, eu não cheguei nesse ponto porque se você chegar nesse ponto não tem volta.

Na época, minha decisão mais errada foi pegar um projeto que eu havia desenvolvido por meses e me inscrever pra prova de doutorado em Artes Visuais da Unicamp. 

Esse não foi um erro só meu, a Fabiana, que tá com a gente aqui no não pode tocar, cometeu o mesmo erro. Mas, além do caso dela ser um pouco diferente do meu, eu não vou falar por ela. 

Eu me inscrevi na prova da Unicamp e, ao mesmo tempo, na prova da Udesc, a estadual de Santa Catarina. Por que eu pensei que seria uma boa ideia pra Campinas? Não sei. Eu detesto aquela cidade. Não é uma questão com os moradores de Campinas, não, que por sinal nunca me trataram mal. mInha questão com Campinas é a própria cidade. Parece que Campinas foi projetada pra ser detestável, pra impedir que você passe mais de uma hora sem querer esfaquear seu próximo. 

Mesmo se eu excluir o clima seco e o verão de deserto, que mata até lagarto de desidratação, eu não tenho como aceitar que uma cidade não tenha uma pedra grande, um morro alto, um ponto de referência. Cidade sem morro, sem pedra grande, pra mim não dá pra viver. Não é cidade. Tudo bem que eu não conheci Campinas inteira. Então, podem ter regiões interessantes, mas, Barão Geraldo e as redondezas da Unicamp é impossível. Tudo bem também que eu me acostumei com vitória, que é a cidade mais bonita da galáxia. Então, o comparativo é injusto, mas eu tenho que colocar a ausência de pedra grande e morro, aquele que talvez seja o pior problema de Campinas e da UNICAMP. Você mal chega na cidade, e ela vira pra você e pergunta 

_ você tem carro? – e aí você diz 

_ Não. Eu acredito na qualidade do transporte coletivo para compartilhar o direito de ir e vir.

E Campinas te diz

_ Ah, então vai embora porque aqui você só pode viver, se tiver carro e se for rico.

Campinas é um município enorme e não tem como você se deslocar de ônibus sem gastar todo o seu budismo e metade do seu dia. Tem tão pouco ônibus que, pra sair de um bairro pro outro, você precisa dar mais voltas do que cachorro atrás do próprio rabo. 

A última vez que eu tentei pegar um único ônibus que sai da UNICAMP para a rodoviária da cidade, eu fiquei quarenta minutos no sol sem encontrar ninguém que soubesse se esse maldito o ônibus realmente passava naquele ponto. 

Depois de cansar de cozinhar no asfalto, eu tive que andar quilômetros pra sair do campus, porque nenhum Uber entrava naquele inferno. 

Joga na conta desse ódio também, o custo de vida. Em Campinas, você vai pagar mais caro pela comida, pela bebida, pela luz, pela água, pelo aluguel e pelo ar quente você respira. 

Toda a maldita vez que eu pisada em Campinas, eu me perguntava como eu fui parar ali. E a resposta é simples e constrangedora. Eu passei na prova de doutorado pra uma instituição com a qual eu nunca trabalhei e que fica numa cidade que eu prefiro evitar. 

Logo após fazer todas as etapas da prova pra UNICAMP, eu recebi a notícia via passado na primeira etapa do doutorado da Udesc também. A etapa seguinte da Udesc envolvia a entrevista presencial e eu não tava disposto a pagar dois mil reais de passagem pra Santa Catarina pra fazer uma entrevista de quinze minutos e voltar pra Vitória. Eu jamais vou entender a resistência uma entrevista dessas por videoconferência. 

Provavelmente eu teria sido mais feliz se tivesse ido pra Udesc, mais dois mil reais pra dar um “oi” era demais pra mim, visto que o intervalo entre o resultado e a compra da passagem era de poucos dias.

No último dia de prazo pra comprar as passagens pra Santa Catarina, a Unicamp liberou os aprovados e eu desisti da prova da Udesc. Eu só não me arrependi disso porque nem tive tempo pra pensar. Entre o resultado da prova, a matrícula presencial e o começo do semestre, tinha mais ou menos um mês de diferença. 

Eu tomei um café, bebi uma cerveja e já tava viajando pra me matricular, tempo pra pensar “pra que, né?”. Os semestres de aula no Espírito Santo estavam no final ainda. Eu tinha correção de provas, de artigo final, preenchimento de pauta, confusão aqui, confusão ali, segue o golpe. 

Eu só peguei o avião, entreguei os documentos, pedi matrícula em orientação e voltei para Vitória. 

Aparentemente, tudo em ordem. 

Comecei a pensar na mudança pra São Paulo, tinha um segundo semestre pra largar meus empregos, para encontrar um lugar pra morar num novo Estado, para pedir bolsa. Seis meses é um mínimo pra poder planejar uma mudança completa de vida, mas, sob a ótica da UNICAMP, não funciona bem assim. 

Depois de mandar email pra minha ex-futura orientadora, eu recebo uma resposta que me fez pensar que eu havia ofendido todos os seus antepassados e acabado com o legado dos Berdinazzi. 

Nem “Olá”, nem “Seja bem-vindo”, nem nada. só uma bronca porque eu me matriculei sem autorização dela e que isso nunca tinha acontecido antes em todos esses anos dessa empresa vital. E eu só pensando, “eu nunca nem lhe vi”. 

Pela mensagem, eu entendi que eu não deveria ter me matriculado sem autorização dela e que não era comum novos alunos não cursarem disciplinas presenciais no primeiro semestre. Mas, pra que eu pudesse ser orientado sobre o começo do semestre sem conhecer todos os regulamentos da instituição, só se eu já morasse na cidade, pois o tempo entre os resultados das provas e o começo do semestre era muito curto. 

Além do que, eu nem imaginei que pra me matricular na disciplina de orientação, eu precisaria que minha orientadora, que ainda não era minha orientadora, me orientasse sobre como começar a orientação. 

Resultado: viajei no mês seguinte para a primeira reunião e fiquei umas quatro horas ganhando bronca, sem entender o porquê. E fazendo papel de quem desconhecesse todos os processos acadêmicos, para não criar mais uma rixa.

E, se não bastasse a nítida sensação, por todas as falas que eu ouvia, de que eu não era bem-vindo à Unicamp porque eu tinha vínculos demais com a UFES. 

Eu saí da primeira reunião com a obrigação de construir um outro projeto, porque o projeto com o qual eu me inscrevo não seria aceito.

Justificativa? Eu já possuía um artigo publicado sobre o objeto de estudo, publicado em co-autoria com a minha antiga orientadora, e, apesar da ligação deste artigo com as questões propostas no projeto de doutorado, ser quase nenhuma, isso poderia criar complicações futuras com relação a autoria. 

Depois de quebrar a cabeça pra entender porque raios as minhas várias ligações de pesquisa e trabalho com a UFES representavam uma complicação, eu concluí que não, ela jamais seria uma complicação de verdade pra quem estivesse disposto a travar parcerias.

Eu voltei pra Vitória, triste e tentando aceitar que eu não poderia mais pesquisar aquilo que eu acredito, que seja importante. 

Mais que isso, eu teria que fazer outro projeto do zero, sobre uma artista que não me interessava tanto. E isso só poderia chegar a ser uma pesquisa quase um ano depois. 

De novo, não tinha muito tempo para pensar, porque os boletos não se pagam sozinhos. Lá fui eu, triplicar minha carga de leitura, me matar pra ter o máximo de produtividade num semestre pra aumentar minha chance de bolsa, já que eu tinha cometido o absurdo, de só me matricular em uma disciplina.

Publiquei artigo em periódico, organizei evento, dei palestras, participei de exposição, editorei revista, participei de congresso, sem parar, sem vacilar. 

No final do semestre eu já tinha percebido que o projeto que eu poderia desenvolver não tinha nada que ver com a minha base teórica. Eu precisaria defender ideias de autores com os quais eu não concordo, ou não me interessam quase em nada, e que, no mínimo, eu tinha mudado de área sem perceber. 

Pra quê?

Afinal, eu estava num doutorado pra realizar um trabalho que não me interessava em nada. Pela titulação? Ok, seria uma resposta aceitável, mas, totalmente em contradição com o discurso que eu faço para as turmas em sala de aula. 

Se eu defendo que o primeiro ponto pra realizar uma pesquisa, que não arrebente com a sua saúde, é escolher um tema e um objeto de estudo que realmente sejam importantes pra você, por que eu gastaria quatro anos investigando algo fora da minha área que não me interessa e através de um método com o qual eu  não concordo?

Não sei, não deu para parar para pensar.Tudo isso só veio à tono no começo do  semestre seguinte, quando eu preparei os documentos para o pedido de bolsa e recebi a resposta de que minha orientadora não poderia me indicar para a bolsa. Apesar de ela me dizer que não poderia fazer a indicação porque eu possuía vínculos com a UFES, nenhum desses vínculos era mais empregatício.

Isso porque eu já havia pedido demissão da faculdade e avisado o dono do apartamento onde eu morava de que no mês seguinte eu me mudaria. Eu já tinha visto apartamento em São Paulo. Alana e eu estávamos ajeitando tudo pra mudança. Eu, não só não tinha vínculos empregatícios, como eu tava disposto a gastar minhas economias nos primeiros meses confiante pelo o que me disseram em todas as reuniões de que em algum momento eu poderia ter bolsa. Embora sempre viesse o papo da situação do país, da crise, blá-blá-blá, blá-blá-blá.Mas, existia a possibilidade.

Quando eu recebi esse último email, as coisas mudaram. Se minha orientadora não podia permitir que eu sequer me inscrevesse para tentar a bolsa, então, algo mais errado estava acontecendo. 

O fato é que os regulamentos da UNICAMP exigem que os pós-graduando se matriculem em pelo menos uma disciplina presencial no primeiro semestre. Se não for assim, a pessoa não pode ser matriculada. 

De início, eu pensei que o erro havia sido só meu. Mas, depois de procurar todo tipo de informação, inclusive com outros estudantes de pós da Unicamp, que tentaram se matricular sem fazer a disciplina presencial no primeiro semestre, eu descobri que a minha matrícula deveria ter sido recusada. Eu deveria ter sido instruído sobre o que fazer no momento em que eu tentei me matricular. 

Não só não foi assim, como ainda me deixaram seguir pelo primeiro semestre e me matricularam no segundo. Do modo como as coisas foram feitas, eu não apenas não conseguiria bolsa, como poderia ter problemas ao finalizar meu curso, já que a minha inclusão no curso foi feita em desacordo com as normas da instituição. 

Se tivessem dito isso, com todas as palavras e recusado minha matrícula, eu teria economizado um semestre inteiro de viagens, ainda teria meus empregos e não precisaria me mudar às pressas. 

Quando a realidade bateu nesse lindo ano de 2018, em que capricórnio volta para o domicílio, eu percebi que tudo estava no caminho errado, que a Unicamp nunca iria admitir que não deveriam ter feito minha matrícula. Percebi que eu nunca conseguiria bolsa para pesquisa, que aquele PPG não servia pro projeto que eu realmente queria realizar, que nunca permitiriam que eu organizasse eventos, trabalhasse em periódicos, puxasse parcerias e que eu deixaria de sentir prazer numa das coisas que mais gosto de fazer na vida, estudar Arte. 

O que que eu tava fazendo ali? Por que eu ia gastar minhas economias, arriscar minha vida numa cidade que eu detesto, investir dez mil conto por semestre, sem ter nem certeza de que eu teria meu diploma no final? 

Eu dei dois passos para trás, saí da caixinha e revi algumas das minhas posturas mais básicas. 

(i) Eu só faço uma pesquisa se eu realmente acreditar nela; (ii) eu não acredito na autoridade como argumento; (iii) eu não respeito hierarquia; (iv) pesquisar é trabalhar e trabalhar de graça, nem se for pra família; (v) estudar tem que ser divertido e eu só estou na vida a passeio.

Com isso em mente, eu perdi desligamento da Unicamp, antes de começar o segundo semestre do doutorado, e essa foi a melhor decisão do ano até agora.

Assim que eu tomei essa decisão, as coisas voltaram a andar. 

Eu consegui voltar pra um dos meus empregos. Alana e eu encontramos um ótimo apartamento e nos mudamos duas semanas depois. Eu reorganizei meu tempo, voltei a ler o que eu gosto, a escrever o que eu gosto, reaprendi a editar vídeos, aprendi a editar áudio, convenci essa galera a iniciar o Não Pod Tocar (podcast), já estou cheio de novas perspectivas e, com certeza, eu não vou esquecer de me cuidar na hora de entrar em um outro doutorado. 

Eu não desisti de fazer doutorado, só não foi dessa vez.

Foi importante aprender que quando algo começa errado e não dá pra consertar, você não precisa ser cabeça dura e insistir. 

Às vezes desistir de algo é o melhor caminho. 

Imagina só se a gente tivesse mudado pra São Paulo. Eu ia gastar todo o meu pouco dinheiro numa cidade cujo Prefeito é a encarnação do Dolinho sabor picolé de chuchu, ajoelhando no milho pra uma instituição que não me quer, aguentando papo diário de empreendedor paulistano médio, morrendo de saudades de andar por uma calçada, sem buraco. 

No fim das contas, esse podcast é também fruto dessa desistência e eu fico muito feliz de voltar a sentir que produzir conhecimento não depende de ter um número de matrícula.

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