[resenha] Modernidade Líquida

Imagem de capa. Zygmunt Bauman. Fotografia. Modernidade Líquida

Zygmunt Bauman, Narodowy Instytut Audiowizualny-Reprodução.

Zygmund Bauman, Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

Texto de Rodrigo Hipólito

Faz tempo que li esse livro. Quando fiz a leitura, as ideias de Bauman me pareciam mais acertadas. Hoje, me parecem mais generalistas. Não que eu possa dizer que discordo da maioria das ideias ali contidas.

Tudo é tão acelerado que, alguns anos depois de ler esse livro, passei a pensar que a metáfora do líquido poderia ser acanhada demais para a nossa época. Eu passei a pensar nas pessoas, coisas, relações e fenômenos como partes de um movimento em que a troca de estados naturais é quase uma exigência para que tudo faça sentido. Foi nesse caminho que escrevi “Ser ou não ser uma nuvem”.

A resenha que você lerá em seguida, é composta pelas anotações da minha primeira leitura. Não me recordo da data. Tudo bem. Em 2020, o tempo é algo que nós apenas começamos a tentar reviver.

***

Bela edição, bom papel. Bauman sabe escolher títulos, às vezes. O filósofo tornou-se popular e diversamente publicado. Essa presença e essa fama, e seu discurso quase compreende isso, constroem o descrédito do pensamento na atualidade. Tornar-se propagandeado é um dos desastres mais aflitivos e, por isso, tão desejado, para um pensador na sociedade do espetáculo transparente.

Colocar-se na condição de propagandeado é atender à alguma espécie de mediocridade. Entre o medíocre que aprendeu a ler placas e o que aprendeu a ler livros, a diferença é apenas relativa. Mas, essa é uma limitação que deve ser superada para retirarmos o pouco ouro presente em tanta água.

O autor compara a sociedade atual com o estado líquido da matéria por perceber, naquela, uma condição de constante mutação e adequação às variações de pressão do meio. Os conceitos sólidos já haveriam sido desfeitos pelos momentos subsequentes da modernidade. Na chegada ao século dezenove, as estruturas das relações entre as coisas e as coisas, entre as coisas e o mundo e entre o mundo (através da vontade do sujeito) e as suas representações, já haviam se desgastado e demonstrado os seus limite. Após esse ponto, essas estruturas deveriam ser demolidas, ou dissolvidas, para servirem de matéria prima para “sólidos” resistentes, talvez perfeitos.

Emancipação: a modernidade haveria cumprido suas promessas, admite, negativamente, Marcuse, e o sujeito seria, então, livre. Infelizmente, grande parte das pessoas não chegaram a cogitar sobre ser ou não ser livre e os poucos que o fizeram e o fazem receiam que a liberdade seja mesmo a perdição. Não haveria uma “base de massas”. De posse da liberdade, a maioria não viu diferença e, se pensarmos um pouco, como exemplifica a “Odisseia”, de Lion Feuchtwanger, os marinheiros de Ulisses prefeririam manter-se sob o encanto de Circe, chafurdando na lama e esperando pelo dia da ceia.

Nesse caminho, a única liberdade do ser humano seria libertar-se da condição humana. Livre para tomar decisões, o ser humano abdicaria de seu papel para atuar sobre o mundo e integrar-se a ele. Pensar é trabalhoso, chafurdar na lama e ficar ao sol até que amanheça o dia do abate, com todos os gozos suínos possíveis, seria a alternativa mais vantajosa. Sujeitos livres são puros indivíduos amarrados ao tédio e ao medo de não mais se compreenderem. Por isso, compram suas personalidades de estante e sentem-se integrados em tribos, sentem-se sociais.

É justo dizer que esse sentido de liberdade pode ser facilmente ligado ao individualismo neoliberal e à queda ultraliberal desse começo de século XXI. São duas décadas em que a palavra liberdade voltou a dar base para discursos autoritários que, em extremo, jogam toda a responsabilidade sobre o indivíduo e retiram toda a responsabilidade das instituições e grupos de pessoas que detém o poder. Essa espécie de liberdade jamais pode ser coletiva e, desse modo, é sempre falsa e fadada a tornar-se escravidão ou animalidade.

Individualidade: a tentativa de Bauman de compreender as relações sociais a partir de princípios materialistas, simplesmente para negá-los, como na passagem da relação objetividade-durável para capacidade-transitório, atinge a afirmação de que não se concebem mais distopias nem utopias na atualidade. Os riscos são individuais e tudo depende de entrever a oportunidade e possuir a liberdade de mudar de caminho, para isso seria necessário um desprendimento de tudo que é possível considerar como seu.

Não se trataria mais de seguir interesses maiores, pois a autoridade não estaria interessada em dar ordens, mas em seduzir outras autoridades e conquistar seguidores. Para saber como portar-se e o que ou qual caminho seguir, o indivíduo necessitaria de exemplos diretos, não bastaria que lhe explicassem, mas precisaria que lhe mostrassem. Daí o massivo interesse na vida pessoal do outro (não um interesse no outro, mais apenas na sua possibilidade de exemplificar um comportamento que seja eficiente ou desastroso).

O consumismo mais agressivo não é o que envolve desejo por sapatos ou pedras preciosas, mas o que movimenta a exploração de exemplos. O vício de registrar exemplos atrofia a capacidade de gerir a vida pessoal e do próprio sujeito perceber sua vida como pessoal. Comprar modos de ser é o mais comum. O consumismo de exemplo anula não apenas o Outro como um sujeito diverso de Mim, mas também anula o próprio indivíduo, que deve compreender-se como igual ao exemplo comprado, pois realmente É o exemplo comprado.

Espaço/Tempo: haveríamos separado espaço e tempo, pois inventamos máquinas que cortam o espaço e reduzem o tempo ao momento. A percepção de espaço se dá por lugares, construídos e utilizados, abandonados ou que passaram ao largo da construção. Não caberia mais perguntar quanto tempo é de A até B, pois o espaço percorrido não pressupõe mais o tempo para o contato (temporalmente A e B estão no mesmo momento). Teria a humanidade passado pelas eras do wetware, do hardware e nos encontraríamos na era do software.

No capitalismo de software, ganha quem consegue comportar-se de modo a produzir interesses sem receio de perda. É interessante fazer coisas que apenas pereçam reais, pois a rede que une a feitura dos produtos é que deve ser encarada como a verdadeira posse. Mantém-se no topo do jogo quem consegue utilizar sua liberdade de arriscar como seu mais precioso produto. Estar de posse de algo é responsabilizar-se por ele, a escolha mais adequada, na vivência do tempo instantâneo, seria a de ter ganhos sem ter posse.

Trabalho: a capacidade de trabalho haveria se tornado o poder maior dentro da era do software. Realizar algo com os pés fincados no presente mantém a confiança numa ideia de progresso. Que tipo de trabalho é esse? As máquinas modificam a terra, o ser humano realiza atividades humanas, esse é o trabalho a ser feito. Possuir uma rede de contados mais sofisticada tornaria o trabalhador menos dispensável. Quanto maior sua rede de contatos e quanto mais distantes suas ações estiverem do trabalho maquinal, mais segurança você teria. Porém, essa segurança não está ligada à permanência, mas à possibilidade mais tranquila de saída. Encurtam-se os períodos de atividade e de espera. A pulsação é mais febril. É sempre bom observar que falar em indeterminação muito acertada já soa como uma interpretação de atores capengas.

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