[crítica] Humor e humor em vida animada

Texto de Rodrigo Hipólito

Tem sido uma experiência curiosa retornar aos primeiros textos que publiquei “oficialmente”. Eu coloca a palavra entre aspas, pois já havia tornado textos públicos antes de publicá-los em revistas e jornais.

O que eu sinto ao publicar um texto que passou pela edição de outra pessoa é diferente do que sinto ao tornar um texto público sem esse cuidado. Gosto das duas sensações. Hoje, prefiro o texto editado.

É difícil abrir esses textos de anos atrás e resistir a alterar um ou outro ponto. Há palavras que não uso mais. Há expressões que me constrangem. Há, noutro sentido, surpresas expressivas que deixam orgulhoso.

No texto a seguir, eu falo sobre algumas das animações que fizeram parte do festival de cinema Vitória Cine Vídeo, que estava em sua 17ª edição. Algumas podem estar disponíveis no Youtube ou em outras plataformas. Vou pensar duas vezes antes de procurá-las. Reler o texto de mas de nove anos trás já foi suficiente por hoje.

***

Imagem de capa. Ilustração. Felipe Mecenas. Revista Nós.

Ilustração para a seção Crítica Emaranhada. Revista NÓS, n. 3. p. 38. Felipe Mecenas.

Publicado originalmente em: HIPÓLITO, Rodrigo. Humor e humor em vida animada. Revista NÓS n. 3. Crítica emaranhada. Vitória: Programa Rede Cultura Jovem, jun. 2011, p. 37-38.

No começo era o papel em branco, vazio. No instante em que tudo aguarda o primeiro traço, uma forma, um desenho, surge a ideia da imagem dinâmica. Depois, é trabalhar incessantemente para se criar uns segundos de movimento. Esse é o esforço de quem se presta à preciosa prática da animação. Mas, esta simplificação é injusta, pois não são apenas segundos de movimento. Melhor seria dizer segundos de vida animada.

As tecnologias digitais propiciam um aumento considerável dos segundos de vida animada em relação aos meses trabalhados e dão um caráter de nobreza à clássica animação 2D. Ainda assim, lá está o criador com cada frame tatuado na retina e imerso numa alquimia da imagem em movimento. Seu percurso é árduo: é necessário ver o mundo em duas velocidades e obter a melhor saída para o produto final. Mesmo sendo espinhoso, esse é o caminho escolhido por muitos jovens que seguem com a
energia que somente a vontade de criação lhes confere.

“Metal Agropecuário” (1’30’’, 2010) é um exemplo de criatividade posta em ação. Em 2010, a produção do coletivo Eye Move (então composto por Bruno Nogueira, Arthur Perin, Gustavo Rodrigues, Gabriel Busato e Davi Cáo) foi escolhida na categoria Panorama da mostra de vídeo do AnimaMundi, ganhou a mostra de Vídeo do NDesign e foi selecionada para o 17º Vitória Cine Vídeo. A antiga técnica de recortes, adaptada à realidade digital, agilizou o trabalho e serviu muito bem a um vídeo esteticamente limpo, que veicula a mensagem de forma direta. Visual e música são equacionados como um conteúdo sintético, dando acesso imediato a uma discussão sobre a expansão e sobre os possíveis usos das novas mídias. O roteiro, feito de pequenas surpresas, traz imagens que se multiplicam em telas dentro de outras telas, mostrando as amplas possibilidades de encontro da imagem digital com o espectador.

Essa dinâmica de subsequentes mergulhos na virtualidade é algo comum aos usuários de novas mídias. Lidar com a informação por meio de links é entrar em telas que lhe transportam para outras telas. E em cada mudança, uma novidade acontece. É interessante perceber que acessamos o conteúdo por meio de um humor leve e despretensioso. Está aí o humor que vem do “contraste súbito”, propiciado pelo roteiro ágil e bem dividido. Isso se dá quando ocorrem situações inesperadas e de pequena magnitude, as quais, aliadas à incongruência entre as práticas esperadas das personagens e o tema do vídeo, constituem o embrião do bem-sucedido humor de “Metal Agropecuário”.

Em grau diferente surge o humor de “As Descobertas de Fifi” (1’20”, 2010). Na produção da TV Quase, assinada por Yuri Custódio, com colaboração de Juliano Enrico e com trilha sonora de Chico Cuíca, todo o reino é dado ao nonsense. Incluem-se, no material, as personagens, que são cães antropomorfizados. A animação, que também participou do 17º Vitória Cine Vídeo, provém de uma história em quadrinhos protagonizada por uma cadela/menina/mulher, publicada na Revista Quase nº 5.

A excentricidade de animais que fazem a vez de humanos é tática eficiente como geradora do cômico e também de estereótipos. Tal aspecto permite a agressividade crítica e é mordaz sem a necessidade de justificação. O nonsense não é uma voz de oposição, mas é um dedo indicador de onde pinga o sarcasmo mais descarado. Bergson aponta que “o riso não tem maior inimigo que a emoção”* e é essa insensibilidade que a TV Quase pede ao espectador para que a aspereza de sua comicidade apareça em seu lado positivo.

Em “O Ato da Criação”, Arthur Koestler mostra que as condições do humor e da criatividade têm muito em comum. Capturar elementos da realidade para os quais damos pouca atenção (ou atentamos em exagero) e dispô-los de maneira a formar um conjunto revelador é, talvez, o papel mais positivo do cômico sarcástico. Assim, o ato de organizar elementos é próximo da chamada composição. Ao inserir, no jogo compositivo, uma intenção externa à natureza dos elementos utilizados, adentramos na esfera da força criativa.

Não é exagero falar de alquimia da imagem em movimento ao compreendermos as exigências criativas do fazer animação. Para se criar uma animação é preciso pensar simultaneamente a quantidade de imagens por segundo e a impressão de movimento resultante da união dessas imagens. E, quando assistimos à vida animada no cômico de sutilezas e de agressividades desses desenhos criados para o movimento, só podemos concordar com uma demonstração: funciona.


*BERGSON, H. O Riso. São Paulo: Martins Fontes, 2001, p. 104.

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