[ensaio] Sobre pelúcias e rússias curatoriais, parte 2

Texto de Rodrigo Hipólito

Outro dia, numa reunião do Pindorama, comentávamos sobre como alguns textos se perdem na internet. Endereços abandonados, links quebrados, trabalhos perdidos.

Nesse 2020 catastrófico, tenho feito alguns mergulhos em textos que escrevi, publiquei ou não, entre final dos anos 1990 e o surgimento do Nota. Há surpresas desagradáveis e outras muito felizes. Os materiais mais antigos e jamais publicados, quase em todos os casos, necessitarão de um tratamento muito carinhoso para poderem vir a público. Outros textos fizeram partes de publicações e projetos que não existem mais. Decidi que muitos deles merecem sair do limbo existência/não-existência.

Esse é o caso de “Sobre pelúcias e rússias curatoriais.” Esse texto foi publicado num antigo blog, integrante do projeto Rede Cultura Jovem, da Secretaria de Cultura do Estado do Espírito Santo. Depois disso, republiquei o texto em um antigo blog pessoal.

Hoje, talvez eu apontasse para esse texto e dissesse que é o material de processo, um registro de pesquisas da graduação. Na época, eu o entendia como um curto ensaio e assim será mantido. Já não me lembrava de algumas das piadas e ironias aí presentes. Acredito que ainda seja divertido e, de alguma maneira, útil para quem começa a se interessar por arte contemporânea.

Se você quiser ler a parte 1 deste texto, clique aqui.

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Parte 2

dezembro de 2010.

Assim como é comum encontrar pelúcias em exposições coletivas de jovens artistas, é quase certo que encontraremos o que a pensadora Laisa David chama de “Rússias” – isso quando a coletiva não possui a restrição de apresentar apenas a arte mais recente. As Rússias curatoriais são bem mais simples de reconhecer do que as pelúcias. Isso porque elas são realmente obras de arte.

Não encontramos, na maioria dos casos, problemas em aceitar a presença das Rússias dentro de uma exposição, tanto pelo fato de serem obras de arte verdadeiras quanto por serem obras renomadas ou produzidas por artistas renomados. Inserir uma Rússia dentro de uma exposição é, também, utilizar os ícones do universo da arte e ainda mais, dos ícones recentes ou imediatos.

Imaginem uma exposição composta por obras com as quais o visitante teve pouco ou nenhum contato até então. Enquanto caminha pela exposição, o visitante encontra-se, na maior parte do tempo, em dúvida. Ele tenta absorver os que as obras buscam lhe passar ou, como alguns preferem dizer, “fruir as obras”, e a relação entre elas engendrada pela curadoria. Podemos ser benevolentes e aceitar esse “fruir as obras” no sentido de aproveitar o que for possível do que lhe é dado, ainda que, na maioria das vezes em que essa expressão é utilizada, isso ocorre por indivíduos que ainda guardam a crença de que o contato estético seja o máximo a que podemos chegar na nossa relação com a arte.

Voltemos ao visitante: ele não sabe muito bem se compreende uma ou outra das coisas que encontra pela frente, nem se gosta dessa ou daquela experiência, mas aceita que elas estejam ali, pois reconhece que elas enquadram-se perfeitamente na proposta apresentada pela curadoria ou que aquele é o local onde devem estar. Então, de repente, suas dúvidas são varridas para muito longe das paredes brancas que o cercam, pois ele se encontra com algo que decididamente deve estar ali. E mais, é algo que deve estar ali com ou sem as outras obras. Uma Rússia curatorial. Seria como “a reunião das oito maiores economias do mundo mais a Rússia”.

Colocar um grande nome em uma exposição coletiva pode muito bem evitar a uniformidade dos ataques diretos ao trabalho da curadoria ou da produção e, em grande parte dos casos, também do espaço. A Rússia é uma obra normalmente já exposta, que pode ser bem mais antiga que as demais companheiras da mostra ou ter sido abertamente elogiada pouco tempo antes. Esse tipo de obra pode, também, ser mais uma obra de um artista inatacável, jovem ou velho, e pode ser uma obra rara, que todas queiram ver, que não traga lucro para a discussão, mas sacie os desejos. Aliás, isso é importante, devem mesmo ser obras indiscutíveis. Quanto mais distantes das discussões, melhor, contanto que estejam distantes para o lado reconhecido como certo.

Exemplos de Rússias curatoriais podem ser encontrados aos montes, mas seria estupidez citá-los. Visite qualquer grande exposição coletiva de arte e, dificilmente, lhe faltará uma Rússia. Elas costumam ser encontradas até mesmo em individuais, quando se tratam de retrospectivas e, nesse caso, a jogada da curadoria é quase desesperada.

Retrospectivas de artistas pululam nos museus e galerias pelo mundo. Essas exposições trazem público e ninguém encontra motivos para reclamar – é bom lembrar que Rússias não são exatamente motivos para reclamar. As retrospectivas trazem público para os museus e galerias e esse público encontra a oportunidade de travar contato com realizações fora do circuito, ou com clássicos – seriam praticamente visitas históricas.

Agora, imaginem que não seja uma das tarefas mais simplórias reunir os momentos mais gloriosos de uma artista. Mesmo para que ocorra a reunião de um ou dois desses momentos gloriosos, o esforço e o investimento devem ser consideráveis. Ocorre, então, a reunião de uma ou duas Rússias, cercadas por figurantes dispensáveis, e constrói-se uma retrospectiva sem que o público se questione sobre a possibilidade de descartar boa parte do que lhe é apresentado. Mas, isso acaba por não constituir qualquer prejuízo para o público, pois, tanto as obras dispensáveis quanto as Rússias – e isso é uma generalização – não se enquadram, no caso de retrospectivas, nas discussões atuais. Como já apontado, essas seriam mostras que aproximam-se da curiosidade histórica, e essa é mais uma generalização.

Quase não há risco negativo em se inserir uma Rússia numa exposição, contanto que ela relacione-se perfeitamente com as demais obras. Quando o público encara uma Rússia curatorial ele é levado a pensar que aquilo é algo que indiscutivelmente é arte boa, com ou sem as demais obras, e pode ser levado a pensar também que aquilo é arte boa com ou sem a curadoria. Nesse caso, tudo o que estiver exposto pode perder o sentido.

Posicione uma Rússia curatorial ao lado de uma pelúcia e não será surpresa que duvidem de todo o resto apresentado e o espaço onde é realizada a exposição perca prestígio. O espectador olha para a pelúcia, depois para a Rússia e mesmo que não seja afeito a arte contemporânea, não há dúvida em sua cabeça. O espectador reconhece, na Rússia, algo aceitável, na pelúcia, algo repulsivo, e então conclui: o espaço que permite que tal situação possa acontecer não parece merecedor de respeito.

Embora esses sejam, em verdade, riscos pequenos se lembrarmos que, entre as obras abarcadas pela dúvida, pode haver coisas surpreendentes.

Referências

BELTING, Hans. O Fim da História da Arte: uma revisão dez anos depois, São Paulo: Cosac Naify, 2006.

DANTO, Arthur. Após o Fim da Arte: A arte contemporânea e os limites da história, São Paulo: Odysseus Editora, 2006.

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