[transcrição] Como não inventar um gênio

Sofonisba Anguissola, Senhora em um casaco de peles, 1577-79

 

Este texto é a transcrição do podcast Não Pod Chorar 17

Texto de Rodrigo Hipólito

 

Eu me lembro de quando eu publiquei o meu primeiro artigo em uma revista da área de arte. Eu tive a sorte de fazer isso ainda na graduação. Eu digo que tive sorte, porque, ao menos na época, a maioria dos meus colegas estudantes sequer considerava essa possibilidade. Mesmo aqueles que começavam cedo a ter mais orientação em algum projeto de iniciação científica, quase sempre paravam na apresentação de um pôster ou de uma comunicação em algum congresso. 

Eu reli aquele meu primeiro artigo outro dia e nossa! Deu até vergonha de como a coisa estava pessimamente escrita. Mas tudo bem! Isso não muda a importância que ter publicado aquele texto tem pra mim. 

Quando eu recebi a mensagem de aceite de uma revista de outro estado, depois de pessoas que eu não conhecia terem lido o meu texto e considerado que ele merecia estar ao lado de textos de pesquisadores e pesquisadoras, aquilo foi uma resposta pra dúvidas muito maiores. 

Até então, eu escrevia os trabalhos finais das disciplinas, os professores davam a nota, e aquele texto morria. O objetivo do texto era cumprir as exigências do professor. Eu também escrevia curtos memoriais descritivos para os exercícios das disciplinas técnicas e de prática poética. E mais uma vez, o texto morria li. 

Como nada acontece de uma vez só, eu já havia escrito dois textos para acompanhar pequenas exposições de amigas dentro do próprio centro de artes. Eram exposições pequenas mesmo, de estudantes tentando fazer alguma coisa. Os textos mesclavam um pouco de curadoria e crítica, foram impressos em folhas de papel, colados na parede da exposição e depois postados em algum blog que se perdeu no tempo. 

É engraçado e meio triste lembrar dessas coisas. Acontece que, naquela época, não havia espaço na minha mente para sequer considerar que as coisas que eu ou qualquer dos meus colegas fazíamos tivesse tanta importância assim. Não é que não houvesse o sentimento de que a gente pudesse criar algo importante, algo que fosse lembrado, que deixasse marcas. Não é isso. Eu vou tentar me explicar melhor e isso vai exigir um raciocínio um pouco mais longo e uma dose bem maior de irritação.

***

Antes de publicar aquele meu primeiro artigo em uma revista, eu precisei saber como periódicos acadêmicos funcionam e nenhum professor havia me explicado isso. Tudo bem. Qualquer pessoa pode descobrir essas coisas sozinha. Afinal: internet. Mas, eu não vou me culpar por ter demorado um pouco pra descobrir algumas coisas simples. A internet não era tudo o que ela é hoje e eu só encostei em um computador pela primeira vez depois de entrar pra graduação. Então, tudo bem. Já era maravilha suficiente a interação e a competição por afetos virtuais no Orkut. Que tempo horrível.

Eu tive sorte de alguém divulgado a chamada de trabalhos da revista e eu tive sorte de ler aquela chamada naquele momento. Fosse seis meses antes, eu teria deixado pra lá. 

Naquele momento eu estava suficientemente interessado pra ler as regras da revista e entender que eu tinha a permissão para tentar publicar as minhas ideias. Acontece que, naquele semestre, eu havia me matriculado em uma disciplina com uma professora que havia acabado de voltar do doutorado. 

Dentre os textos que ela nos indicou para serem discutidos em sala de aula, havia alguns muito recentes. Não eram os mesmos autores antigos e o mais doido de tudo, havia autores e autoras brasileiros e vivos. Um dos textos havia sido editado pela própria professora o nome dela estava ali, impresso e ela estava ali, na minha frente. 

Isso tudo pode parecer muito óbvio e meio ridículo quando a gente pensa de maneira fria. Só que o pensamento nunca é realmente frio e as decisões que a gente toma assim como a compreensão do que as informações significam depende das nossas emoções. 

Até aquele semestre, todos os textos que os professores indicavam para serem discutidos eram ou de autores europeus e estadunidenses mortos ou de autores europeus e estadunidenses velhos e renomados. Se era só isso que me era apresentado, era só isso que eu sentia que fosse possível. 

Nunca havia passado pela minha cabeça que eu estava no mesmo mundo que aqueles velhos barbudos sábios. Isso é importante: eram velhos barbudos sábios mesmo que eu jamais houvesse visto uma maldita foto deles.

Junto a sensação de, pela primeira vez, eu discutia ideias que acabavam de ser publicadas, escritas por pessoas vivas e que faziam parte do meu mundo, com aquela chamada da revista, e eu acreditei que as minhas ideias valiam a pena. Eu acreditei, não como um sonho, mas de modo prático, que valeria a pena para alguém ler e discutir as minhas ideias. 

Isso é uma diferença daquelas que a gente nunca deve esquecer. Uma coisa é acreditar que você pode fazer algo relevante para o futuro, que vão lembrar de você e do que você fez, outra coisa é acreditar de modo prático. No segundo caso, você não está interessado em ser lembrado, em deixar a sua marca, em ser importante ou fazer algo grandioso… você quer sim ser atuante no mundo em que você vive, junto com as pessoas que dividem esse mundo e essa época com você. 

Isso somente é possível quando a gente não constrói pedestais.

Aqueles nomes nas capas dos livros eram apenas trabalhadores e trabalhadoras que tiveram a chance de publicar as suas ideias. A distância que a maioria dos professores criava entre aqueles nomes e nós, estudantes, era uma distância castradora. 

Do modo como a história da arte nos era apresentada, nós éramos duplamente inferiorizados. Não apenas nós jamais seríamos dignos de estar nas páginas de livros de história da arte em vida, como nunca poderia passar pela nossa cabeça que nós poderíamos escrever essa história. 

Tá! Não é justo simplesmente apontar o dedo para aqueles professores. A maioria não fazia isso de propósito. Além de ter sido o que eles aprenderam, eles tinham que lidar com a frustração de não terem sido reconhecidos como grandes artistas e grandes autores em vida e… depois de algum tempo todo mundo tem o direito de se sentir cansado e ficar com preguiça de arrancar aluno da cadeira e sacudir a cabeça da criatura até desfazer o sono hipnótico do ensino médio.

Alguns daqueles professores hoje são meus colegas. Felizmente, a grande maioria mudou o seu jeito de lecionar e os conteúdos que são sugeridos para as turmas. Outros não mudaram e não vão mudar.

O tipo de história da arte que afastava os alunos da consciência de que autores não são deuses e a história da arte não foi talhada em pedra… ainda é o mais disseminado dentro e fora da academia. 

Esse tipo de história da arte pode parecer mais fácil de acessar, mais fácil de explicar, mais didático. Esse tipo de história da arte parece ser mais fácil porque está presente na formação básica de todos os cursos de arte e negá-lo ainda pode causar alguns constrangimentos. 

Todo mundo precisa entender e aceitar o sentimento de preguiça que bate só de pensar na ideia de discutir com aquele colega de trabalho tapado, obsoleto, incompetente e que mesmo assim se acha O intelectual incompreendido. Dá preguiça mesmo. Essa preguiça faz a gente manter a dominação desse tipo de história da arte. 

Afinal, que história da arte é essa?

***

No começo do ano, eu li um texto chamado “O mito do gênio artístico”, da escritora Cody Delistraty. Vou comentar algumas das ideias que ele apresenta.

Se você já passou por algum curso superior de arte ou teve boas aulas no ensino médio, alguns dos nomes que eu vou falar em seguida você já deve conhecer. Se não for o caso. Tudo bem. É o suficiente você saber que são nomes carimbados nessa área. 

O primeiro deles é o Ernst Gombrich. Ele publicou vários livros que são presença obrigatória nas bibliografias de todos os cursos de história da arte pelo mundo. Um desses livros se tornou uma espécie de bíblia, de tão frequente, referenciado e, algumas vezes, inquestionável. O nome do livro é A História da Arte e ele foi lançado em 1950. 

Deixar de usar esse livro do Gombrich é uma espécie de tabu nos currículos de história da arte, pois isso significaria aceitar uma mudança de rumo no modo como encaramos a própria disciplina da história da arte. Mas, também por outras razões. Como qualquer profissional da teoria da arte se formou com essa base, deixá-la de lado, ainda que seja só um pouquinho, significa que esses profissionais vão precisar de outra base. Isso dá muito trabalho.

Quando nós pensamos no tipo de formação histórica que o pensamento progressista deseja e luta para que seja efetivada… aquela formação crítica e ativa, não linear e interdisciplinar, multicultural e não totalizante… a História da Arte do Gombrich é o oposto disso. 

Quando nós nos apegamos a esse livro, nós nos apegamos a uma História enciclopédica, linear e totalizante. Mas, ainda é mais que isso. Esse tipo de história da arte se baseia em algumas ilusões e cria outras que são difíceis de descontruir depois de um tempo. 

Uma dessas ilusões é de que seria possível escrever toda a história. A ilusão de que, independente do assunto, você poderia procurar um volume que te desse toda a informação de que você precisa e pronto! Seus problemas acabaram!

Não se assustem com a proliferação de livros com títulos do tipo “Tudo o que você precisa saber sobre isso”, “Tudo o que você precisa saber sobre aquilo”, “Como entender não sei o que” ou “Como entender não sei o que lá”. 

Isso é fruto de uma ilusão totalizante e em nada ajuda o entendimento de como a História é escrita e como todas as áreas de estudo estão interligadas.

Todo o discurso totalizante só pode funcionar quando exclui, ignora, silencia ou mata aquilo com o que não consegue lidar. 

Não sei as atuais edições da História da Arte de Gombrich, mas as primeiras e aquelas com as quais estudei, não falavam de sequer uma artista mulher. Um livro que almeja ser a grande bíblia da história da arte e não apresenta uma só artista mulher!

Quando foi questionado sobre isso, o Gombrich disse que pra ele não tinha importância se Michelangelo era homem ou mulher, ele escrevia a história da arte das grandes obras e dos grandes gênios. 

Dito isso, isso soa até meio burro. Mas, vamos dar aquela passada de pano básica, já que se trata de um autor de outra época e em outro contexto.

Se você que me escuta ainda tem alguma tendência a achar que essa fala do Gombrich faz sentido, vai o exemplo de um experimento interessante. 

Num estudo feito com colecionadores de arte, eles foram colocados diante de imagens de pintura geradas aleatoriamente por computador. Obviamente, eles não sabiam que se tratava desse tipo de imagens. 

Além de construir as imagens aleatoriamente, o programa também gerou créditos fictícios para as imagens. O que os colecionadores precisavam dizer era quais trabalhos valiam mais e quais valiam menos, com pequenas justificativas. 

Não deve ser surpresa pra ninguém que eles deram valores maiores para as imagens com autoria masculina e valores menores para as que estavam assinadas por mulheres. Toas eram imagens fictícias geradas por computador.

Esse experimento, então, diria que aqueles colecionadores não entendem nada de arte ou que arte não faz sentido? Não, não é isso. Esse experimento apenas demonstra que os parâmetros para determinação do que é ou não considerado de valor na história da arte são machistas. 

A história da arte foi construída assim.

Acreditar que os nomes retidos como grandes mestres estão na lista dos grandes mestres apenas pela qualidade dos seus trabalhos é uma ilusão tão triste e infantil como acreditar na meritocracia. 

É difícil, para muita gente, admitir que as escolhas da história da arte não são uma ciência exata, pelo contrário, elas são comumente reflexos de interesses pessoais, preconceitos, arrogância, pesquisas mal feitas e desejo de nivelamento social rumo à aceitação acadêmica.

Caso você escreva um livro de história da arte hoje e o seu livro questione o lugar glorioso de nomes repetidos como grandiosos, você não será bem aceito. O medo de não ser bem aceito não é algo racional. Não é algo que possamos evitar. Quando nós respondemos ou tomamos atitudes guiados pela pressão de reagirmos de modo adequado ao que a comunidade a qual pertencemos considera positivo, nós refletimos o desejo de nivelamento social.

Quando Giorgio Vasari escreve o livro As Vidas, lá em 1550, ele não estava preocupado em analisar trabalhos de arte ou enquadrá-los em qualquer contexto. É um pouco difícil chamar aquilo de história da arte, pois se trata mais de um tipo de publicação bem comum na época. Muitos intelectuais e artistas publicação uma espécie de crônicas misturas com lista de coisas de sua época. O título inteiro do livro de Vasari é As Vidas dos mais Excelentes Pintores, Escultores e Arquitetos. O que ele fez, principalmente, foi reunir uma lista dos nomes mais famosos dentre esses campos de realização, não exatamente de sua geração, mas também os que ainda eram lembrados. O Vasari nem mesmo observou grande parte dos trabalhos que ele credita a esse ou aquele nome. É como se uma pessoa, sozinha, tivesse escrito o livro “1001 livros para ler antes de morrer”, mas sem ter lido todos os 1001. E mais! Sem ter uma noção do que existe para além daqueles 1001 livros.

Essa ideia de ressaltar os nomes dos artistas acima e antes dos trabalhos de arte é algo que ficou marcado para toda a história da arte. Aqueles nomes ficaram conhecidos como grandes mestres. Aqueles nomes, logo, ficaram conhecidos como gênios.

Depois de séculos, não adianta muito tentar explicar que algumas pinturas do Ticiano, na verdade, foram feitas por uma das maiores retratistas da época, a Sofonisba Anguissola. 

Depois de séculos, não adianta muito explicar que trabalhos creditados a El Greco e aos Carracci, provavelmente, foram pintados por Lavínia Fontana. 

Depois de séculos, não adianta muito explicar que Da Vinci não era um ponto fora da curva, que estudos como os que ele fez já haviam sido feito, que ele tinha por onde estudar e continuar trabalhos anteriores. Não adianta explicar que existiram pessoas que publicaram mais do que Da Vinci, desenvolveram técnicas de pintura bem mais influentes que as dele, escreveram tratados bem mais influentes que as pesquisas dele e por aí vai.

Cite dez discos do Da Vinci que você escuta sem pular uma faixa.

Esse desafio é injusto porque nem música pra ocupar dez discos ele tem direito.

Infelizmente, a invenção do gênio artístico como o conhecemos, no romantismo do final do século XVIII, vai englobar essa ideia maligna de que há sujeitos iluminados e com capacidades superiores. Essa ideia de que há sujeito infinitamente mais inteligentes, mais competentes e moralmente superiores a outros é, por si só, um mal que deveria ser combatido. 

Quando nós acreditamos que a obra de arte é reflexo direto da condição superior do gênio artístico, independente de qual sujeito seja habitado por esse gênio, nós criamos uma cadeia de problemas que parece insolúvel.

A construção da ideia de gênio inclui a profunda permissividade com a qual tratamos algumas pessoas e outras não. 

A ideia de separar obra de autor é uma consequência disso. Note que quase sempre, ou sempre, a defesa sobre a separação entre obra e autor se refere a homens brancos que fazem merda. Se pergunte antes: será que os trabalhos desses homens brancos são tão interessantes assim? São tão grandiosos assim? Nós sofreríamos, realmente, uma grande perda se escolhêssemos dar menos atenção para esses trabalhos e concentrar nosso esforço em tudo mais o que é produzido? 

Eu sei que é difícil sair da posição de fã hipnotizado pela figura do inatingível. Só que isso é necessário se você não quiser perpetuar um sistema baseado em exploração e silenciamento. 

Já passou da hora de nós pararmos de idolatrar grandes mestres separados da humanidade por pedestais intocáveis. Se você gosta de estar na posição de fã, tudo bem. Só se preocupe em ser fã de trabalhos de arte e não de artistas. Se você é fã de artistas, quando eles começam a fazer merda, você nem vai perceber. Pois você não se interessa pelo que aquela pessoa produz, você apenas a idolatra. 

Já passou da hora de nós pararmos de colocar pessoas na posição de deuses só pra nos escondermos na sombra.

Você quer saber como não inventar um gênio?

Isso é menos complicado do que parece.

Quando nós falamos sobre artistas e trabalhos que estão fora da lista tradicional da história da arte, nós somos capazes de quebrar a genealogia fácil que sustenta a ilusão de herança histórica do homem branco cishétero. Essa é a parte simples.

O problema é que: quando nós falamos de quem fica de fora dessa genealogia, isso pode até ser bem aceito. Mas, quanto nós deixamos de comentar os ditos gênios, as pedras voam de todos os lados, os chãos dos fã-clubes tremem e os fãboys choram alto. 

Enfrentar fã-clube é uma merda, principalmente quando são fã-clubes de doutores com currículos assustadores. Só que se a gente não fizer isso, há nomes que vão ficar pra sempre ou esquecidos, ou apenas lembrados na sombra dos eternos gênios.

 

Quando a gente escapa dessas sombras, a gente percebe que toda a ilusão de que algumas pessoas são mágica e/ou naturalmente superiores à outras é a fonte do preconceito, da opressão, da colonização e da escravidão. Alimentar essas ilusões é permitir que antigos e novos sofrimentos cresçam e se multipliquem. Quando nós destruímos os pedestais, nós damos um dos muitos passos necessários rumo à libertação. 

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