
Máquina de costura antiga. Fonte: Pixabay
Texto de Fabiana Pedroni composto para NPT S03E19
Lá no interior da terra de minha infância tinha uma costureira muito requisitada, a Dona Zita. Era uma velhinha negra que costurava tão bem quanto fazia biscoitos de leite. Eu, como todas as outras crianças, íamos na casa de Dona Zita pelos biscoitos. As mães iam pelas roupas.
Os biscoitos só apareciam quando estávamos com as nossas mães, claro, Dona Zita não era besta. Sua casa era do lado da escola, imagina dar biscoito pra toda criança que pintasse no seu quintal!
A casa de Dona Zita era a mais movimentada da vila, mais ainda que a casa do homem que não era chamado de coronel, mas que era a figura de tal.
Muitas vezes, no final do dia, depois do trabalho na roça, íamos pra casa de dona Zita. No quintal, nós crianças brincávamos, e lá dentro, gargalhadas e mais gargalhadas. Às vezes, também havia silêncios, alguns bem demorados. Nem sempre as mulheres conseguiam fazer o pedido de costura. Às vezes porque Dona Zita estava com muitas costuras já por fazer. Às vezes porque ela era uma velhinha cheia das histórias e das palavras.
Algumas mulheres saíam com sacolas, outras com lágrimas no rosto. A movimentação era um mistério pra mim. Os homens diziam que algumas mulheres iam lá aprender a costurar, por isso demoravam tanto. Nunca entendi, quando criança, que costura era essa a de Dona Zita, que fazia até as aprendizes voltarem como se nada tivessem aprendido.
Ô que Dona Zita ensinava uma costura que era lenta, que seu falecido marido não a deixaria coser se estivesse vivo. De linha a linha, ponto a ponto, Dona Zita costurava vidas. Aquilo que os homens viam como fofoca, as mulheres chamavam de informação. Aquilo que os homens diziam, futilidade e distração, as mulheres viviam como união e resistência. Essa era a casa de Dona Zita.
Hoje compreendo Dona Zita como um lugar de encontro. Os biscoitos, as fitas, as linhas de costura eram ferramentas de sustento e disfarce. Dona Zita poderia apenas aceitar as encomendas, fazer as medidas, e costurar sozinha em seu ateliê. Mas, não. Dona Zita precisava de uma sala, com a sua antiga máquina de costura bem ao centro. Mulheres se reuniam ao redor de Dona Zita para falar da rotina, para entender as necessidades.
Ela parecia estar ocupada na costura, mas ouvia todo sussurro. Cada palavra por ela dita era seguida de várias perguntas das outras mulheres. Hoje entendo que era essa ginga do diálogo questionador que mantinha o grupo unido.
Dona Zita não precisava dizer, e ninguém sabia. A palavra ainda não havia chegado naqueles confins.
Dona Zita seria a primeira mulher feminista que conheci.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.