[resenha] Mulheres Radicais, organização de Cecilia Fajardo-Hill e Andrea Giunta

Imagem de capa. Ana Maria Maiolino. Mulheres Radicais.

A-X da série Fotopoemação (1973-2017), de Anna Maria Maiolino. Descrição: duas fotografias em preto e branco lado a lado. Na imagem da esquerda, as pontas de uma tesoura aberta se aproximam do olho de uma mulher, que olha na direção da tesoura. Na imagem da direita, a ponta inferior da tesoura encosta na pálpebra do olho, que está fechado com força.

Texto de Fabiana Pedroni

Por que não houve grandes mulheres artistas?” é título de ensaio de Linda Nochlin, originalmente publicado em 1971, na revista estadunidense ArtNews. A partir da tentativa de resposta à pergunta do título, Linda Nochlin questiona as metodologias da História da Arte e a construção de suas narrativas, baseadas na invenção do gênio criador.

“Essa pergunta reverbera em tom repreensivo na maioria das discussões sobre a tal questão feminina. Porém, como tantas outras ditas questões envolvendo a ‘controvérsia’ feminista, ela falsifica a natureza da questão ao mesmo tempo em que, de forma insidiosa, supõe a própria resposta: ‘Não houve grandes mulheres artistas porque mulheres são incapazes de algo grandioso”. Assim linda inicia seu ensaio.

Décadas depois, ainda estamos no caminho de encontrar essas mulheres e compreender, de forma mais aprofundada, o que aconteceu nas suas histórias não escritas. Nesse caminho, encontramos vários esforços, publicações, encontros, podcasts, exposições de arte…

No ano de 2018, entre os dias 18 de agosto e 19 de novembro, a Pinacoteca de São Paulo recebeu a exposição Mulheres radicais: arte latino-americana, 1960-1985. Esta exposição foi um marco importante para a pesquisa sobre mulheres artistas no Brasil.

Produzida, originalmente, pelo Hammer Museum, em Nova York, com curadoria de Cecilia Fajardo-Hill e Andrea Giunta, a mostra incluiu obras de cerca de 120 artistas de quinze países e, somada ao catálogo, trouxe o resultado de vários anos de pesquisa intensa por todo o continente americano.

A mostra Mulheres Radicais reunia trabalhos de artistas mulheres entre 1960 e 1985,

período de intensa repressão política e social em vários países latino-americanos e de embate contra mulheres latinas nos Estados Unidos. A noção de corpo político é a espinha dorsal da exposição que apresenta a multiplicidade de investigações artísticas radicais e experimentais realizadas nesse período. Mulheres radicais evidencia que artistas mulheres foram pioneiras em novas linguagens artísticas, tais como performance, vídeo e arte conceitual, e que sua arte foi um importante agente contra a opressão governamental. A mostra destaca um diálogo potente entre as múltiplas estratégias que abordam a politização do corpo feminino e sua libertação, denunciando atos de violência social, cultural e política e questionando o cânone artístico e os sistemas institucionais dominantes. (FAJARDO-HILL; GIUNTA, 2018, p.9)

A visibilidade que se ganha com uma exposição deste porte, intensifica a velocidade das pesquisas. Depois desta exposição e de outras iniciativas, observamos um aumento mais rápido do aceite de projetos de pesquisas em programas de graduação e de pós-graduação. Encontrar orientadoras dispostas a pesquisar artistas mulheres em diferentes períodos históricos se tornou não mais uma missão quase impossível. Esta é a importância de iniciativas que reverberam e de uma movimentação conjunta em busca de uma história por ser escrita. Isso altera não só o ambiente de pesquisas, por gerar fontes e debates, mas, por se configurar como uma mostra artística, aberta e gratuita ao público, ganha outra forma de notoriedade.

Quando falamos sobre mulheres que produzem arte, ou seja, que são artistas e não musas inspiradoras ou temas de obras, temos, em pauta, questões que alguns vão alegar que são ultrapassadas, como evidencia a introdução do próprio catálogo da mostra Mulheres Radicais. Coloca-se em questionamento a real necessidade de se discutir o assunto, como se ele já houvesse sido trabalhado em sua máxima profundidade.

A verdade é que cada vez mais sentimos diferentes forças sociais agirem para novas tentativas de apagamento. Usa-se até mesmo outras urgências para deslegitimar o interesse no debate. Na introdução do catálogo, que nos apresenta não só a mostra, mas a gênese da pesquisa e de como ela se alterou no tempo, alega-se que, dito de outro modo, “pra quê falar de arte feita por mulheres se a maior urgência é de pensamento contemporâneo sobre a arte queer?”.

Percebem como esse argumento é capcioso? Pesquisas científicas densas e que trabalham com fontes, com documentos, com reflexões acerca de contexto históricos complexos, exigem tempo para se firmarem, para ganhar voz e profundidade de discurso. Mas, quando chega o tempo de trazer à tona materiais que já foram debatidos e pensados em micro espaços privilegiados do saber, como as universidades, e disponibilizar os discursos para um público maior, ou seja, quando a conversa de corredor e debates acadêmicos querem tomar a praça, “não precisa, não tem porque, passemos para a próxima pauta”.

Esse é um processo ardiloso de deslegitimação do saber científico e do esforço de pesquisas dedicadas a que minorias ganhem poder de fala e existência em outros espaços. Falar disso no corredor da universidade, nos congressos, até que pode, mas não na praça, não nas mídias de largo alcance, não em mostras culturais que vão receber escolas e apresentar materiais que não precisam ser conversados. A gente precisa, sim, falar sobre isso, enquanto for necessário. O alcance destes questionamentos ainda é pequeno, se comparado com a necessidade de mudança social.

Dentro de tantas urgências, sem tentar deslegitimar outras, o papel de escolha é sempre árduo. Até por isso, a redução da mostra Mulheres Radicais para um período de tempo entre as décadas de 1960 e 1980, com enfoque conceitual para a noção de corpo político. Falar sobre essas produções certamente exige novos vocabulários e estruturas que não aquelas das classificações mais dominantes no campo da arte latino-americana e latina.

Os trabalhos produzidos pelas artistas representadas em Mulheres radicais propõem um corpo diferente, um corpo pesquisado e redescoberto, profundamente vinculado à situação política vivenciada por grande parte do continente na época, em especial nos vários países regidos por governos autoritários que pretendiam controlar o comportamento, o pensamento e o corpo. As vidas e as obras dessas artistas estão imbricadas com as experiências de ditadura, aprisionamento, exílio, tortura, violência, censura e repressão, mas também na emergência de uma nova sensibilidade. (Idem, p.17)

Os questionamentos elencados no catálogo, como fundadores do projeto, nos adiantam algumas questões que precisam ser pensadas de modo cada vez mais amplo, porque as tentativas de apagamento tomam outras formas, outros argumentos, outras políticas em nosso tempo.

Na introdução do catálogo, Cecilia Fajardo-Hill e Andrea Giunta colocam os seguintes questionamentos para o projeto: “Em primeiro lugar, o que aconteceu com essas artistas e suas obras? Em segundo lugar, quais foram as circunstâncias culturais, políticas e ideológicas que permitiram omiti-las ou até mesmo fazê-las desaparecer? E, em terceiro lugar, qual é a natureza de suas contribuições?”. Estas são perguntas extremamente atuais, quando pensamos em arte produzida hoje. Observamos a importância de se estudar o passado para compreender que presente é este em que construímos ou tentamos evitar que seja apagado.

É fato que a maioria das artistas que se inserem na mostra Mulheres Radicais não estavam empenhadas em produzir trabalhos diretamente feministas. Ainda assim, suas produções, quando analisadas no âmbito da História da Arte, apontam questões de discurso essenciais para a pauta feminista de ontem e de hoje.

 

Abaixo, a listagem das 120 mulheres radicais:

Argentina
Maria Luisa Bemberg (1922–1995); Delia Cancela (1940); Graciela Carnevale (1942); Diana Dowek (1942); Graciela Gutiérrez Marx (1945); Narcisa Hirsch (Germany, 1928); Ana Kamien and Marilú Marini (1935 and 1954); Lea Lublin (Poland, 1929–1999); Liliana Maresca (1951–1994); Marta Minujín (1943); Marie Orensanz (1936;) Margarita Paksa (1933); Liliana Porter (1941); Dalila Puzzovio (1943); Marcia Schvartz (1955).

Brasil
Mara Alvares (1948); Claudia Andujar (Suíça, 1931); Martha Araújo (1943); Vera Chaves Barcellos (1938); Lygia Clark (1920–1988); Analívia Cordeiro (1954); Liliane Dardot (1946); Lenora de Barros (1953); Yolanda Freyre (1940); Iole de Freitas (1945); Anna Bella Geiger (1933); Carmela Gross (1946); Nelly Gutmacher (1941); Anna Maria Maiolino (Italy, 1942); Márcia X. (1959–2005); Wilma Martins (1934); Ana Vitória Mussi (1943); Lygia Pape (1927–2004); Letícia Parente (1930–1991); Wanda Pimentel (1943); Neide Sá (1940); Maria do Carmo Secco (1933); Regina Silveira (1939); Teresinha Soares (1927); Amelia Toledo (1926–2017); Celeida Tostes (1929–1995); Regina Vater (1943);

Chile
Gracia Barrios (1927); Sybil Brintrup and Magali Meneses (1954 and 1950); Roser Bru (Spain, 1923); Gloria Camiruaga (1941–2006); Luz Donoso (1921–2008); Diamela Eltit (1949); Paz Errázuriz (1944); Virginia Errázuriz (1941); Lotty Rosenfeld (1943); Janet Toro (1963); Eugenia Vargas Pereira (1949); Cecilia Vicuña (1948).

Colombia
Alicia Barney (1952); Delfina Bernal (1941); Feliza Bursztyn (1933–1982); María Teresa Cano (1960); Beatriz González (1938); Sonia Gutiérrez (1947); Karen Lamassonne (Estados Unidos, 1954); Sandra Llano-Mejía (1951); Clemencia Lucena (1945–1983); María Evelia Marmolejo (1958); Sara Modiano (1951–2010); Rosa Navarro (1955); Patricia Restrepo (1954); Nirma Zárate (1936–1999).

Costa Rica
Victoria Cabezas (Estados Unidos, 1950)

Cuba
Ana Mendieta (1948–1985); Marta María Pérez (1959); Zilia Sánchez (1928).

Estados Unidos
Judith F. Baca (1946); Barbara Carrasco (1955); Josely Carvalho (Brazil, 1942); Isabel Castro (Mexico, 1954); Ester Hernández (1944); Yolanda López (1942); María Martínez-Cañas (Cuba, 1960); Marta Moreno Vega (1942); Sylvia Palacios Whitman (Chile, 1941); Sophie Rivera (1938); Sylvia Salazar Simpson (1939); Patssi Valdez (1951).

Guatemala
Margarita Azurdia (1931–1998)

México
Yolanda Andrade (1950); Maris Bustamante (1949); Ximena Cuevas (1963); Lourdes Grobet (1940); Silvia Gruner (1959); Kati Horna (Hungary, 1912–2000); Graciela Iturbide (1942); Ana Victoria Jiménez (1941); Magali Lara (1956); Mónica Mayer (1954); Sarah Minter (1953–2016); Polvo de Gallina Negra (ativo 1983–93); Carla Rippey (Estados Unidis, 1950); Jesusa Rodríguez (1955); Pola Weiss (1947–1990); Maria Eugenia Chellet (1948).

Panamá
Sandra Eleta (1942)

Paraguai
Olga Blinder (1921–2008); Margarita Morselli (1952).

Peru
Teresa Burga (1935); Gloria Gómez-Sánchez (1921–2007); Victoria Santa Cruz (1922–2014).

Porto Rico
Poli Marichal (1955); Frieda Medín (1949).

Uruguai
Nelbia Romero (1938–2015); Teresa Trujillo (1937).

Venezuela
Mercedes Elena González (1952); Margot Römer (1938–2005); Antonieta Sosa (Estados Unidos, 1940); Tecla Tofano (Itália, 1927–1995); Ani Villanueva (1954); Yeni y Nan (ativo 1977–86).

 

Referências

– [catálogo] FAJARDO-HILL, Cecília; GIUNTA, Andrea. Mulheres radicais: arte latino-americana, 1965-1980. São Paulo: Pinacoteca de São Paulo, 2018.

– [podcast] NPT S02E01: Mulheres Radicais na Arte: América Latina #OPodcastÉDelas2019. Alana de Oliveira; Fabiana Pedroni; Deborah Moreira [S.I.]. 31 mar. 2019.

– [ensaio] NOCHLIN, Linda. Por que não houve grandes mulheres artistas?. Tradução de Juliana Vacaro. São Paulo: Edições Aurora, 2016.

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