[resenha] Estação Perdido, de China Miéville (Bas-Lag livro 1)

Imagem de capa. Nova Crobuzon. China Miéville

Imagem de capa. New Crobuzon. HiHaFizi. Ilustração. Fonte: https://www.deviantart.com/hihafizi/art/New-Crobuzon-711432466 Descrição: em tons de amarelo, marrom e ocre, cidade coberta de fumaça, vista de longe, com arcos de um viaduto, sobre o qual passa um trem, em primeiro plano e torre pontiaguda ao fundo, à esquerda. Ao centro, no céu amarelado, voam formas parecidas com borboletas com asas pretas.

Texto de Rodrigo Hipólito

Miéville, China. Estação Perdido. Trad. Fábio Fernandes; José Baltazar Pereira Júnior. 1ª ed. São Paulo: Boitempo, 2016.

Talvez esse seja o livro de ficção que mais me impactou na vida adulta, até o momento. O que me impactou? O estilo da escrita, a estrutura da narrativa, as temáticas, o subgênero literário, a construção das personagens, a descrição de cenários e por aí vai. Qual o teor desse impacto? Esse livro me empolgou e surpreendeu o suficiente para que eu quisesse ler tudo o que o autor já lançou e diversas outras obras enquadradas nesse subgênero, além de me fazer voltar a escrever ficção com gosto.

O subgênero a que me refiro é o new weird. Com uma mistura de elementos da ficção científica, da fantasia e do terror, o new weird apresenta forte influência das histórias absurdas, popularizadas como pulp, e do horror cósmico. Além de cruzar gêneros para gerar um novo sabor, há outros aspectos que podem ser considerados novos, ou renovadores.

O new weird nasceu com autocompreensão, não como uma etiqueta de mercado, embora não esteja imune aos males do sistema que habita. Foi a partir do debate em fóruns de internet e encontros, que autores e críticos compreenderam que Estação Perdido marcava, com nitidez, o surgimento de um subgênero, o qual já se desenvolvia.

Essa última parte da afirmação pode causar algum desconforto. É possível encontrar muitos texto e resenhas que apontam que o new weird já existia em meados do século XX. Essa confusão se dá, em alguma medida, pelo entendimento apressado da coletânea The New Weird (2008), editada e organizada por Ann e Jeff Vandermeer. Essa coletânea elenca autores de diversas décadas, que podem ser lidos como new weird, ainda que o subgênero só tenha se estabelecido na virada para o século XXI.

A preocupação com os debates políticos, ecológicos, socioculturais e históricos, desenvolvidos de modo crítico, também pode ser apontada como característica comum do new weird. Apesar da grande variedade de enredos e estilos, de todos esses cruzamentos e discussões, o estranho e o absurdo continuam a ser o centro e a força motora das narrativas.

Ainda que seja possível citar uma lista sintética de autores (Jeff Vandermeer, Mark Z. Danielewski, Libba Bray, David Mitchell, Cixin Liu, Caitlin R. Kiernan, Sarah Monette, Michael Marshall Smith, Thomas Ligotti, Hal Duncan e Tereza Echeverría, Alliah, Michel Perez), seria um erro reduzir esses nomes ao new weird. Por sinal, alguns já não produzem dentro do subgênero faz um tempo ou jamais se firmaram e afirmaram como parte desse movimento.

Estação Perdido me apresentou ao new weird, mesmo que eu já tivesse lido outras histórias assim categorizadas. Também já havia lido outro livro de China Miéville, A Cidade e a Cidade. Admito que aquela foi uma leitura um pouco arrastada, pois não tenho muita paciência para enredos policiais. De todo o modo, a experiência foi boa o bastante para que eu desse outro passo na direção do autor. Não vou gastar linhas para falar de Miéville. Basta dizer que ele é icônico ao ponto de ter virado meme nos grupos brasileiros de literatura especulativa.

Estação Perdido se passa na cidade de Nova Crobuzon, em um mundo chamado Bas-Lag. A cidade é, talvez, a grande personagem desse romance. Miéville descreve não apenas o cenário, mas as relações entre as áreas da cidade, as diferentes culturas de xenianos (raças e espécies diversas do padrão humano) imigrantes e todo o sistema de controle capitalista que destrói todos os corpos. O punitivismo marcado pelos sujeitos condenados a terem seus corpos refeitos para serem meio máquinas (ou mesmo para sentirem dor e desconforto para o resto da vida) dá o tom da crítica incisiva a esse sistema.

Nova Crobuzon é suja, superpovoada e sua arquitetura mescla camadas de uma história violenta e que ainda se desenvolve em direção à degradação. Ainda assim, há vida nessa cidade. As personagens apresentam seus gostos, suas fugas, esperanças, revolvas, artes e amores. Os preconceitos, os sofrimentos e a estupidez, a coragem, os desejos e a inteligência que existem do lado de cá das páginas, também estão presentes em Nova Crubozon, ressaltados em linhas fortes pela estranheza daquelas criaturas.

Yagharek é um garuda condenado e expulso do deserto de Cimek, onde seu povo vive. Os garudas são meio-pássaros meio-humanos, um povo nômade, orgulhoso de sua liberdade, que carrega sua vasta biblioteca pelos ares e preza o direito de escolha acima de tudo. Por cometer o pior dos crimes, Yagharek perde suas asas e viaja até Nova Crobuson para convencer Issac a pesquisar uma solução que o permita voar novamente.

Isaac é um cientista ostracizado por seus pares, expulso da universidade e obrigado a dividir um galpão, no Brejo do Texugo, com outros colegas desprezados. Ali, ele desenvolve os seus experimentos questionáveis. Além das suas pesquisas, Isaac parece se importar apenas com Lin, sua amante, mas não consegue vencer o preconceito alheio sobre as relações interespécies.

Lin é uma artista kepri exilada de sua espécie. As kepri são mulheres com cabeça de inseto que chegaram a Nova Crobuson vindas de outro continente. Com o passar do tempo, algumas se adaptaram e outras mantiveram seu modo de vida tradicional, em um bairro separado. Lin nasceu naquela comunidade tradicional e de lá fugiu, até conquistar sua liberdade como artista. No ambiente boêmio, Lin encontrou seu espaço, seu amor por Isaac e amizade de Derkhan.

Derkhan é uma crítica de arte, ativista política e editora do jornal clandestino Renegado Rompante. Através dela, conhecemos a estrutura social de Nova Crobuzon, compreendemos seus problemas estruturais e encaramos o muro da violência do Estado.

Esses podem ser considerados os protagonistas da história. Suas vidas não são calmas nem entediantes, mas nada se compara ao que acontecerá a partir da chegada de Yagharek.

Quando Isaac aceita receber o dinheiro do garuda para iniciar uma pesquisa sobre a capacidade de voar, peças insignificantes do ecossistema de Nova Crobuzon se movem em sua direção. Por coincidência ou azar, ele recebe um espécime de uma criatura que não conhece e que afetará toda a ordem da cidade.

Estação Perdido me apresentou aquele que talvez seja o monstro mais assustador que já encontrei na ficção. As mariposas libadoras são tudo o que você não quer encontrar. Infelizmente, é possível que elas estejam entre nós, mesmo que não percebamos.

A crueldade com que a narrativa trata as personagens pode parecer um exagero (e isso dentro de uma obra que se firma no absurdo), mas isso é o que há de mais realista naquelas páginas. Depois de ler Estação Perdido, é difícil caminhar por uma cidade grande, pegar o ônibus lotado, observar as expressões assustadas, cansadas e enraivecidas das pessoas e não entender que os pesadelos são reais e, às vezes, são criados.

Pouco antes de terminar a leitura, quando achava que tudo estava posto, Estação Perdido me fez largar o livro e pensar por horas, antes de ter coragem de voltar e terminar.

No ano passado, gravei dois episódios do Não Pod Tocar (linkados a seguir) sobre esse livro. Foi uma conversa com Ana Rüsche e George Amaral, a qual espero que tenha continuidade. Digo isso tanto pela qualidade da conversa quando por ter lido o segundo livro da trilogia Bas-Lag, A Cicatriz. Para quem quiser se aprofundar mais nas discussões sobre new weird e Estação Perdido, deixo o link para a dissertação do George Amaral.

Comentados

– [podcast] NPT S03E05 – Estação Perdido, parte 1. [Locução de]: Rodrigo Hipólito; George Amaral; Ana Rüsche [S.l.]: Não Pod Tocar, 10 mai. 2020.

– [podcast] NPT S03E06 – Estação Perdido, parte 2. [Locução de]: Rodrigo Hipólito; George Amaral; Ana Rüsche [S.l.]: Não Pod Tocar, 17 mai. 2020.

– [dissertação] AMARAL, George Augusto do. Novo estranhamento e consciência política: gêneros literários em Perdido Street Station, de China Miéville. 2017. Dissertação (Mestrado em Teoria Literária e Literatura Comparada) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2017.

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