[conto] Passeio na praia

A fala do corpo: três gerações de mãos. Fabiana Pedroni, 2019. Descrição: sobre um tecido rosa, as mãos enrugadas de uma idosa seguram, cada uma, outra mão.

Texto de Fabiana Pedroni.

Esperei a solidão da areia para poder sair de casa. Não tinha medo de chuva, mas aprendi a ter medo de pessoas que vagam aglomeradas pela praia. Desde a infância, ouvia Raul Seixas dizer que via as pedras chorarem sozinhas no mesmo lugar. Não imaginei que encontraria uma pedra chorona pela praia.

Como se já não bastasse o barulho da água no mar, agora ela também vinha do céu. Chuva que se misturava com as lágrimas de areia. Considerei que a pedra chorosa tivesse caído de muito alto. A marca em seu entorno indicava o peso de um forte impacto. A sua expressão parecia tão densa quanto sua matéria. Pedras não têm semblante, mas a água que escorria por seus poros a entristecia. Senti de longe que poderia me aproximar devagar, para não a assustar.

No fundo, eu ri de mim mesma por ter tantos pensamentos sobre uma pedra na chuva. Eu ri, até que vi algo se movimentar com nitidez por debaixo da pedra. Com nitidez pode ser uma expressão meio forte. Era mais como um pequeno vulto que não pode ser negado. Uma pontinha se sacudia, esmagada e sufocada. Seriam vermes geométricos e bidimensionais? Seriam sombras de algas aparadas de modo metódico? Seria a rabiola de uma pipa gótica aprisionada após a queda do pedregulho?

Fiquei com receio de que aquela ilusão se desfizesse. Nem percebi quando minhas pernas começaram a correr. Daria tempo? A distância era maior do que eu pensava. Corri tão rápido que o cabelo voava, mesmo com o peso da chuva. Quando apareceria a pessoa amada de encontro, para brincar nas ondas, com uma música bem brega e gostosa de fundo? Não! Tinha que ir até a pedra!

“Ué?” A pontinha se escondeu que nem caracol. “Não tava morrendo, diacho?”

Enrolada sobre si mesma, aquela tirinha opaca se enroscou, colada nas entrâncias da pedra. Era uma tira tão fina e desavolumada que poderia se recolher para debaixo de seu abrigo caracachento sem muito esforço. O tremor dos meus passos devia ter desencadeado a reação de receio e o trocinho se recolheu.

Quis tocar. A gente quase sempre deseja tocar coisas que podem ser perigosas sem anunciar perigo. Coisa mais infantil! No melhor sentido que o termo infantil pode ter. Se corri feito criança, tocaria a criatura desconhecida do mesmo jeito, como uma criança faria. Uma criança educada, afinal, é bom dar exemplo. Pedi licença e fiz um carinho. Não sou uma ameaça, por mais que a cena de minha correria deva ter sido de mal gosto para qualquer tirinha geométrica de mundo.

Pode ter sido por conta do pedido de licença, do calor das mãos, da delicadeza da pele dos meus dedos recém hidratados, ou pela sincera curiosidade. Não sei o motivo, mas a tirinha se desenrolou. Se me surpreendi ao perceber o que era a criatura? Como poderia ser diferente? Surpresa sim, mas sem razões para gritar ou fazer qualquer estardalhaço. A tirinha era parte de algo que conheço bem. Digo até que eu deveria ter reconhecido esse fiapo com mais prontidão. A fitinha preta era a perna de uma letra! Do outro lado da pedra, a ponta de outra letra.

Eu tinha encontrado a casa de um texto. Mais do que isso. Eu tinha encontrado o esconderijo de um texto. Um textinho bem acanhado e sem vontade de ser lido. Não são raros, mas é necessário sorte para localizá-los. Fui sortuda, apesar da minha desatenção inicial.

Minha avó me ensinou que a gente não deve entrar na casa dos outros sem ser convidado. Não tiraria a pedra de cima da letra, porque seria desrespeito com a casa do texto e, além disso, tem texto que é arisco, né? Vai que o bicho pulava em mim, me mordia e eu caia dura? Sei que existem textos venenosos. Além disso, alguns não fazem por mal. Querem carinho e não sabem que seu contato pode gerar reações as mais variadas.

Revelar um texto é um trabalho tão delicado quanto as antigas revelações fotográficas. Caso haja um ambiente controlado, como um laboratório, isso pode parecer mais simples. Não há dúvidas de que é mais seguro. Já o contrário, soa como a receita do desastre. Imagine ter de improvisar um estúdio de revelação fotográfica no meio de uma praia chuvosa. Era melhor ir com calma. A melhor maneira não era tirar a pedra de cima do texto, mas tirar o texto de debaixo da pedra. Essa lógica me pareceu fazer bastante sentido e foi nesse caminho que segui.

Ao redor, só areia e água. O que eu poderia usar para atrair o texto para fora de sua casa? O que poderia ter, naquele ambiente chuvoso, de mais interessante que o aconchego pesado de um mineral?

“Se você não sabe, pergunte!”. Minha avó era mesmo muito sábia. Sentei-me ao lado da pedra e perguntei para a perninha balançante o que ela gostava numa noite de chuva. Ela não me respondeu, mas se balançou um pouco mais. Havia ritmo ali. Ritmo é um negócio que atrai. Quase pude ver as pernas de outra letra.

“Bem, seu Texto, meu avô era cheio de prosa. Minha avó era cheia de verdades. Seu Texto, sabe que um dia meu avô chegou em casa com uma sacola de peixes e disse que ele mesmo tinha pescado. Deu pra minha avó, todo orgulhoso da pesca. Ela, que num é besta nem nada, já veio com um beliscão: ‘Cê acha que sou besta? Como que você pescou se aqui nem poça d’água tem?’. O véio, menos besta ainda, disse que por amor, criou um rio, só pra trazer peixes para ela. Cavou na terra seca, negociou com as nascentes caladas, e fez brotar água. Demorou, mas ele conseguiu o que ela mais queria, um peixinho pra assar e lembrar do gostinho da infância, de que ela estava tão saudosa. Tanto causo, minha avó nem quis responder. Foi preparar o peixe. Quando o almoço ficou pronto, minha avó foi caçar meu avô e chamar pra comer. Quando ele chegou, encontrou o peixe assado em folha de bananeira. Ele, curioso perguntou onde ela achou a folha de bananeira, pois num tinha nenhuma bendita banana por perto. Ela, toda confiante só respondeu ‘lá na beira do rio’.”

Eu mesma já não me lembrava daquela história. Teria mesmo acontecido daquele jeito? Por um momento, deixei de lado a intenção de contar o causo. Meus pensamentos se desviaram para as lembranças. Enquanto a chuva afinava e esfriava, o silêncio tornou a paisagem mais leve. Não dava mesmo para discordar das verdades da minha avó. O que será que ela diria para o pequeno texto acanhado embaixo da pedra? Ou, o que meu avô prosearia com aquelas letrinhas escondidas? Suspirei, com saudades e imersa na vista do mar.

Mal percebi a paisagem mudar, a chuva parar e o Texto me cutucar. Não sei bem quando ele saiu de casa. Sei que ele não me mordeu e isso já era muito importante. O bicho não tinha medo de chuva, nem de pedras, mas não queria morrer na praia. O Texto era bem direto, parecia até a voz de minha avó: “Conte-me mais”.

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