[crônica] Do alto da janela, um anjo meio chihuahua

 
Imagem de capa. Crônica. Álmbum de família. Chihuahua.

Imagem de capa. Álbum de família, Fabiana Pedroni. Quatro fotografias coloridas em álbum fichário, todas com um cachorro caramelo pequeno. Superior esquerda, cachorro sentado na cama de madeira com três pelúcias ao redor; Superior direita uma moça de saia longa florida e cabelos longos sentada num sofá florido segura o cachorro no colo; inferior esquerda, uma mulher de blusa preta sentada no sofá florido segura o cachorro no colo; inferior direita, um corredor cimentado do quintal com plantas e o cachorro caramelo no chão.

Texto de Fabiana Pedroni

Toda vez que eu encontrava uma porta, eu queria sair pela janela. Essa imagem, de criança da roça que pula pela janela  e escuta o grito distante da mãe, “tá roubando o quê? Usa a porta!”, ainda é bem vívida em meus ouvidos. A concepção de que apenas ladrões pulam a janela era desanimadora.

Às vezes, eu me sentava na janela, ao lado do fogão a lenha, enquanto ela cozinhava, com uma esperança escondida de que a minha presença normatizasse o atravessar por outros buracos. Com as pequenas pernas encolhidas no beiral, ora me esticava para dentro, como se fosse descer da janela e pegar algo na cozinha, ora me esticava para fora.

Não me deixar pular não significa que eu não pulava. Até porque minha mãe precisava de um motivo para gritar. Ser criança é assim, brincar com limites e travessias. O pulo não tinha esse nome, estava mais para escorrego. Ia derretendo as pernas para baixo, atravessando de cadinho em cadinho, até encostar o pé do outro lado e sair andando na maior naturalidade.

Minha mãe era certeira. Se estivesse mais atenta em mim que na comida, uma esticada mais radical para fora e ela já dizia “pega o coiso pra mim”. O coiso era qualquer coisa que pudesse evitar o atravessamento pela janela. Alguns coisos eram ridículos, como uma colher que estava atrás dela. Minha mãe poderia pegar, bastava mover o braço, mas a intenção era outra.

Quando lavávamos a varanda, ela resmungou que eu deixava marcas de pés na janela da cozinha. Até parece! Se ela me deixasse atravessar, eu pularia, voaria se necessário! Mas, eu não podia responder com esse tom de voz. Ainda não era adolescente. Hoje, sei que seu eu pudesse pular pela janela, não teria pés, não teria incômodo, só um corpo saltitante.

Quando eu cai da janela, ela riu. Riu no ato, mas brigou porque rasguei a bunda num prego. Se eu pudesse pular pela janela, nenhuma bunda ficaria para trás.

Marteladas as rebarbas com toda a atenção, continuei a sentar no beiral, durante anos. Parada, sentia o cheiro da comida e implicava com os bichos do quintal. Do alto da janela, via o vento correndo das árvores para os pompons dos patos. A vontade de pular não era incidental. Eu queria.

Foi essa ladainha por um bom tempo. Mas, a vida dos causos é de pura ironia. Lá veio meu pai com um tal cachorro pego num trato. Um homem bêbo da capital queria um maço de cigarros e uma pinga. Meu pai já conhecia a figura do nosso antigo bairro. Camarada doente, precisava de ajuda. Mas, naquela hora, o que ele poderia fazer era salvar o cachorro de seu dono. O sujeito não era ruim, mas quando bebia demais, acho que batia no bichinho, e comida nem existia.

Foi assim que meu pai levou o cachorro minguado pra nossa casa na roça. O que tinha de raiva dos humanos, tinha de força no dente. Meio pequeno, meio chihuahua, veio numa caixa que mal atravessou a porta da cozinha. Não deixava a gente chegar perto. Antes de terminar o causo da janela, só digo que esta criatura foi muito amada e mimada. Engordou até demais, aprendeu a fazer amizade com pessoas e outros animais. Chega de rima, o que importa é a ironia.

O cão, que antes era da besta, latia e mordia qualquer um que tentasse atravessar a porta, foi o anjo da minha infância. Por quase um mês, eu vi minha mãe pular pela janela, pois a porta já não tinha vez. Amansou o bicho no abraço e largou de mão as minhas vontades de pular por aí. Voava da janela, voava do muro, voava das árvores, tava sempre voando por aí.

 

Imagem de capa. Crônica. Álmbum de família. Chihuahua.

Uma das fotos do álbum, que mostra o cachorro caramelo de peito branquinho sentado na cama com pelúcias

.

.

.

.

.

.

.

.

.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s