[resenha] Ler o livro do mundo: Walter Benjamin, Romantismo e crítica poética, de Márcio Seligmann-Silva, Parte I

Imagem de capa. Fotografia do livro “Ler o livro do mundo: Walter Benjamin, Romantismo e crítica poética”, de Márcio Seligmann-Silva, mostrado fechado sobre tecido listrado vermelho e branco, na margem inferior direita aparece a cabeça de um filhote de cachorro malhado de preto e branco a morder a beiradinha da capa.

Texto de Fabiana Pedroni

Tem um causo de minha infância ao qual retorno, quando penso sobre leitura. Eu era a criança emburrada, que precisava explicar para a professora que não queria aprender a ler. Já no primeiro dia de aula da primeira série, com sete anos, avisei a professora: vim aqui só pra aprender a escrever.

Eu entrei para a escolinha com dois anos e pouco, o que, no início dos anos 1990, era muito cedo. Queria ir para a escola porque meu irmão ia. Mas, era cedo para a alfabetização. Passei uns bons anos desenhando meu nome e algumas letras e queria continuar nessa jornada. Quando, no mestrado, comecei a estudar com maior profundidade a relação entre texto e imagem, eu me diverti muito com essa memória.

Ao iniciar a leitura do livro de Márcio Seligmann-Silva, já esperava pelo retorno desse causo. A relação entre a escrita poética do mundo e sua leitura é algo que me encanta imensamente. O livro aqui resenhado é denso. De início, ele exige alguns entendimentos anteriores sobre a produção de Walter Benjamin, ou, ao menos, uma leitura mais lenta, aquela do detalhe, para absorção das notas de rodapé e do labirinto de referências, que se cria entre os termos, no correr das páginas.

Ler o livro do mundo, compreender que o mundo é um livro, através de Benjamin, significa que não basta decifrar os seus signos, é preciso desautomatizar a linguagem para adentrar no mundo pela mágica, pelo silêncio. A pequena introdução acrescentada à segunda edição, lançada em 2020, é crucial para compreender a importância dessa obra. Nesse livro, Seligmann-Silva evidencia a dívida de Benjamin com os primeiros românticos alemães. Mas, mais que isso, aponta que esse “acaso” de nova edição vem de uma aproximação de intelectuais que escreveram em momentos rodeados e inundados pelo fascismo.

Benjamin não se rendeu às gigantescas pressões de seu tempo ou abandonou os seus sonhos mesmo quando estava em meio a pior das tempestades imagináveis.  Ele nos ensina que a força impulsionadora de toda transformação está na nossa consciência acerca de nossa história e de resistência aos que detêm o poder. É ela que alimenta nossos sonhos. Nosso desejo de realizar os desejos vencidos e esmagados pela história nos fortalece em meio ao tenebroso percurso. essa luz paradoxal nos dá esperança. E é pensando nessa esperança que devolvo este livro, hoje, à circulação. (p. 12).

Esse livro é uma obra para aqueles que querem compreender melhor a teoria da arte de Benjamin e para aqueles que querem compreender como ainda é possível se encantar com o mundo. O livro é dividido em duas partes. A primeira aborda conceitos da tradição romântica de Iena que, na segunda parte, são relacionados ao trabalho de Benjamin. O autor diz que a sua exposição “aborda a crítica benjaminiana (e romântica) a partir de três veios básicos: o da filosofia da linguagem, o da epistemologia e o da crítica de arte (e estética).” (p. 15)

Nesta primeira postagem, faço curtos comentários sobre trechos da primeira parte do livro. Ao final, deixarei o link para as próximas etapas da resenha.

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Parte I: A tradição romântica de Iena

De início, Seligmann-Silva aborda a noção de crítica dos românticos de Iena, traz, sobretudo, as contribuições de Friederich Schlegel e Novalis. Dividida em três itens, essa primeira parte é uma densa contribuição de Seligmann-Silva para a compreensão da leitura de Benjamin sobre os primeiros românticos. No primeiro item “I.1 A linguagem poética”, o autor fala da filosofia romântica da linguagem, a partir de Schlegel e Novalis, dividida em três níveis: A primeira de uma linguagem de conhecimento absoluto, a linguagem a priori, uma “linguagem anterior à queda” (p.24), sendo esta queda a que origina o segundo nível, em que a queda dá origem à pluralidade das línguas, em que se” perde a capacidade de compreender a natureza e as coisas, as palavras se distanciam daquilo que elas indicam e o homem como que ‘conhece a ignorância”. (p.24) O terceiro e último nível seria o de “restituição’ da linguagem ‘originária’, o trabalho de colher os cacos perdidos daquela antiga construção harmônica que estão espalhados entre os edifícios da nossa linguagem moderna.” (p.24). É essa conexão com uma linguagem originária perdida da qual a linguagem herda um caráter mágico, não-instrumental. Ou seja, nesse sentido, a língua não se restringe a uma forma instrumental de comunicação. “Magia é = a arte de utilizar arbitrariamente o mundo dos sentidos’ (W II 335), afirmou Novalis.” (p. 26)

Em suma, toda essa filosofia primeiro romântica da linguagem é permeada por uma constante crítica da noção utilitário-comunicativa da mesma e pode ser traduzida num plano estrutural. A linguagem possui várias manifestações (funções, diríamos hoje) sendo que cabe à poesia justamente o papel de desautomatizar a linguagem, retirá-la da submissão à prática do cotidiano. Nela todas as palavras são elevadas à categoria de nomes próprios, tornam-se mônadas numa linguagem que se autolegisla e que está liberada de ter que servir. A poesia é o local onde a linguagem se manifesta como poiesis (criação) absoluta, um conceito que, como ainda veremos, é central na epistemologia romântica. Abordaremos agora algumas das consequências destas concepções da linguagem. (p. 29)

As consequências ditas são: a) A teoria romântica da tradução; b) Ironia, Witz e Blitz (raio); c) O fragmento como forma; d) A teoria romântica da leitura criativa

  1. a) A teoria romântica da tradução

A tradução “implica para os românticos a (re-)criação daquela linguagem ‘perdida”. (p. 30) A tradução como um ato dermiúrgico, de (re-)criar a obra original. “A teoria romântica da tradução postula, contrariamente à prática da tradução enquanto belle infidèle, um trabalho que não procura esconder a língua de partida na língua de chegada, mas que, antes, deve aproximar estas duas línguas daquela unidade ‘perdida’ com a ‘queda”. (p. 31).

  1. b) Ironia, Witz e Blitz (raio)

Schlegel fala da ironia como uma alternância entre a autocriação (criação como exibição do infinito) e a autoaniquilação (como interrupção, como parábase. “A ironia , portanto, representa ela também uma interrupção, uma pausa, um momento no processo incessante da reflexão no seu movimento de alternância – pois não existe reflexão sem esse movimento (‘toda reflexão […] é uma ação de quebra’, W II 122) e, para os românticos, como Benjamin o notou, não existe Ser fora da reflexão. A ironia – bem como a tradução, como vimos – constitui uma das manifestações da concepção romântica do Ser como reflexão. A noção romântica de ironia, portanto, se, por um lado, reafirma a concepção de alegoria, no seu sentido de abertura para o infinito, por outro, ela também problematiza o acesso ao absoluto.” (p. 35)

A autoaniquilação estava ligada, para Schlegel e Novalis, à noção de Witz, uma autolimitação da ironia, “está vinculado à fantasia e a sua marca temporal é a do momento: ‘Witz é a aparição, o raio exterior da fantasia’ (KA II, p. 258); […] o momento pontual da irrupção ‘witzig’ coincide com o momento no qual se (re-)constrói, num raio (Blitz), uma unidade que havia sido ‘perdida’ […] em ambos os casos trata-se de uma entrecruzar instantâneo entre a história e o Absoluto”. (p. 36-37).

  1. c) O fragmento como forma

“O fragmento é a manifestção no âmbito da exposição teórica da impossibilidade de acesso ao ‘todo’, ele visa a concretização do Witz, o encontro do Ideal com o real, que não pode nunca se cristalizar totalmente. Por o ‘todo’ é a soma, o resultado dos encontros entre os fragmentos ‘do mundo’ e ‘da linguagem” (p. 37)

  1. d) A teoria romântica da leitura criativa

Leitura como desdobramento criativo do texto, o leitor como prolongamento do autor.

Depois da linguagem poética, o segundo item da primeira parte trabalha os conceitos de “I.2 Idealismo, Realismo e Imaginação”.

Para os românticos, assim como a linguagem era indissociável da filosofia, a letra (palavra) não viveria sem o espírito. A filosofia se torna crítica da linguagem, crítica por recusar a concepção tradicional  de linguagem como meio, no sentido de instrumento, e crítica por criticar “a possibilidade de se separar na linguagem os significantes dos significados” (p .40)

(…) como o conceito de ironia acima analisado já indicou, toda a teoria romântica do conhecimento está marcada pelo conceito de reflexão, pela noção de alternância, pela concepção de movimento cíclico. […] A filosofia cíclica romântica parte do pressuposto da não-conhecibilidade do Absoluto: ‘Não buscar (desde o início) o incondicionado, mas sim o originário […] A consciência do infinito é a raiz de todo o saber‘ (KA XVIII, p. 409). (p. 43)

As páginas 44 e 45 são substanciais para se compreender essa relação entre o idealismo e o realismo. O Absoluto está “espalhado pela superfície do mundo” (p. 43). “O mundo empírico torna-se o medium-de-reflexão através do qual se pode conectar o eterno e o material: essa é por assim dizer a ‘virada antimetafísica’ que os românticos deram no topos do mundo como texto. Daí as constantes afirmações em F. Schlegel e Novalis acerca da união entre o Ideal e o real: ‘Toda realidade deve tornar-se ideal e toda idealidade, real’ (KA XVIII, p. 56)” (p. 44). “Benjamin destacou com razão que o modelo deste conhecimento romântico, que aproxima a autoreflexão do sujeito com a do objeto, o ideal do real, equivale a uma ‘coincidência dos lados objetivo e subjetivo no conhecimento’ (I 61).” (p. 44) Não há, assim, “uma divisão estanque entre o sujeito e o objeto do conhecimento: ‘Onde não há autoconhecimento não há em absoluto nenhum conhecer, onde há autoconhecimento a correlação sujeito-objeto está superada, ou, se se quiser: dá-se um sujeito sem objeto-correlato’ (I 56).” (p. 44)

O ideal não se submete ao real, mas se unificam.  Na teoria do conhecimento do romantismo “o mundo é visto como sendo composto por duas metades, uma material, outra ideal – ou mágica, para falar nos termos da filosofia romântica da linguagem. A reflexão exige as duas metades para se realizar”. (p. 45) O ato da reflexão é um ato filosófico e “apenas com ele se inicia o trabalho de conexão e separação entre os extremos, entre o eu e o mundo, entre o real e o Ideal. A reflexão gera um salto sobre si mesma, e com o salto “é criado o próprio mundo”. (p. 48)

Benjamin denominou a faculdade da reflexão de “absolutamente criadora” e “notou também que na medida em que a reflexão está vinculada, nos românticos, àquele movimento de mediatização do mundo com o Absoluto, ela, como forma, é o próprio Absoluto: ‘A reflexão constitui o absoluto e ela o faz enquanto medium (i 37). Ou seja, o absoluto só existe enquanto e como algo mediatizador e mediatizado, presente no tempo, exposto, atualizado.” (p. 48) “A imaginação, ao lado da reflexão, é também a faculdade que rege o trabalho de destruição da ordem atual e (re-)construção de uma ordem mais elevada, menos prosaica.”

Por fim, em “I.3 Arte, crítica e crítica como arte”, Seligmann-Silva parte da noção de perda dos parâmetros tradicionais da crítica diante do início do historicismo, em que cada obra é particular, marcada por sua época, ela é única. No relativismo histórico “passa-se a perceber o caráter próprio de cada época da história. Sendo única, tem-se “o fim de todos os parâmetros de avaliação”. (p. 58)

A crítica enquanto medium-de-reflexão é grau de consciência mais elevado e “Este processo de ‘elevação’ ou ‘intensificação’ da obra dá-se, para Schlegel e Novalis, com a exposição da autorreflexão da obra através da crítica. A crítica revela tal reflexão através da confrontação entre a obra e o seu próprio Ideal, ou, ainda dentro da terminologia romântica, ligando o seu espírito (Geist) à sua letra (Buchstab) – o que demonstra a íntima conexão existente para estes autores entre a sua filosofia da arte e a sua filosofia da linguagem. ‘A letra de toda obra é poesia, o espírito, filosofia’ (LN 975), afirmou Schlegel”. (p. 61)

O crítico é um “agente de romantização do mundo, de conexão entre o real e o Ideal”  (p.62). Na página 67 fala-se sobre a aproximação entre a crítica e a obra, que para se criticar poesia, é preciso fazer-se poesia. Para se criticar arte, faz-se pela arte. Sobre a questão do público, valoriza um público especializado e reforça a noção de que não se deve submeter ao limites médios do público geral (p. 70).

Para acessar a próxima parte da resenha clique aqui.

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