[resenha] Alvorada em Almagesto, de Teresa P. Mira de Echeverría

Imagem de capa. Alvorada em Almagesto. Teresa P. Mira de Echeverría. Resenha.

Fotografia do livro Alvorada em Almagesto, sob edição espacial do conto À sua imagem, também de Teresa P. Mira de Echeverría, sobre mesa de madeira, com marca páginas à mostra.

Texto de Rodrigo Hipólito.

Echeverría, Teresa P. Mira de. Alvorada em Almagesto. Trad. Toni Moraes. São Paulo: Monomito Editorial, 2021.

O título faz referência à obra de Ptolomeu do século II sobre o movimento dos planetas. Apesar de escrita em grego, essa obra ptolomaica foi preservada, por séculos, em árabe, cujo título transliterado seria al-magistï, algo como “O magistral”. É dessa maneira magistral, costurando astrofísica, amor e mitologia, que Teresa nos apresenta uma narrativa do arcaico ao futurista. (Ana Rüsche, orelha do livro)

Essa é a primeira narrativa longa de Teresa P. Mira de Echeverría lançada em português. Já li algumas de suas narrativas curtas em espanhol e a tradução de Toni Moraes conseguiu manter o ritmo e o estilo originais. A escrita de Echeverría é hipnotizante, causa embriaguez, nos seduz e nos convence a caminhar por ambientes sublimes e febris.

Além de pensar no new weird, gênero ou subgênero em que podemos “enquadrar” suas histórias, o ritmo dessa e de outras de suas narrativas é marcado pela inteligência de suas personagens e a profusão de referências da autora. Todo o texto é tecido com indicações que vão de músicas, que nos falam do íntimo de suas personagens, até conceitos que nos ajudam a pensar a estrutura da história.

Quando digo que suas personagens são inteligentes, isso não é suficiente. Não se trata de figuras verborrágicas ou enciclopédicas. Elas filosofam com simplicidade, enquanto tentam seguir com suas vidas e compreender as situações bizarras em que foram colocadas.

Para não cair em abstrações vazias, Echeverría faz questão de que suas criações sejam palpáveis. Elas não reagem apenas com o intelecto, mas com desenvolvimento emocional, físico e coletivo. Tudo ali tem corpo e isso faz toda a diferença.

Na verdade, a grande diferença das narrativas de Teresa P. Mira de Echeverría com relação às suas contrapartes anglo-americanas é justamente essa: a pulsão do desejo. A ficção dos EUA e do Reino Unido, por melhor que seja ( e tem ficado melhor nos últimos anos por obra e graça de autoras, autores LGBTQ+, negras, indígenas, neurodiversas, com deficiência), ainda é muito puritana, coisa que a literatura latino-americana definitivamente não é. (Fábio Fernandes, apresentação do livro)

Os corpos e os desejos guiam a dinâmica de Alvorada em Almagesto do início ao fim. Mas, com mais força em suas partes finais. O que Fábio Fernandes comenta, na apresentação do livro, é algo que leitores de ficção científica — e quaisquer leitores — devem considerar com todo o carinho. A dessexualização dos corpos é algo comum em narrativas de ficção científica. Isso se relaciona tanto com a supervalorização do intelecto separado do corpo quanto com a defesa de que o controle das paixões é uma qualidade moralmente superior.

Echeverría põe sobre a mesa, nessa e em outras histórias, a necessidade de compreendermos o sentir e o pensar como faculdades inseparáveis, ou mesmo iguais. Corpos pensam, corpos desejam. Por isso, a corporeidade de suas personagens envolve o sexo sem desculpas, sem higienização e sem esvaziar a foda.

Ao ler Alvorada em Almagesto, tentar separar as temáticas trabalhadas seria um erro. O sexo, o amor e a filosofia — que já pouco se separam — dão carne para o controle, a escravidão, o desespero, a organização política, a luta idealista, os sonhos de liberdade, a estrutura familiar, os traumas pessoais e coletivos ou a colonização de vidas e mundos, factuais e imaginários.

A metáfora do elefante acorrentado, recorrente no texto, exemplifica os processos de colonização que reduzem o colonizado, mas não o destroem, pois dependem dos mundos que os controlados são capazes de inventar. O colonizador menospreza o colonizado por medo de aceitar sua própria fragilidade, limitação. O colonizador age sob um terror auto-infligido de perder o chão quebradiço sobre o qual construiu suas identidades.

É com esse medo que nós forçamos o outro a deixar de ser outro. Não sei se isso é possível, mas acontece todos os dias. Quando exigimos que outra pessoa se adapte às nossas necessidades, o resultado é um conforto profundo, que funciona como a ilusão de que não somos dependentes, mas comandantes. Essa ilusão é de mão dupla e pode se dar por diversos meios, como escravização, vigilância ou tutoria.

Em alguma medida, é como se tentássemos matar as pessoas para podermos controlar nossas relações socioafetivas. O ponto dessa questão é como não enterrar pessoas vivas.

***

Em torno da plataforma-planeta Almagesto, há várias estrelas em formação. Essas estrelas e seus desenvolvimentos são controlados por seres alienígenas que foram aprisionados em corpos humanos reanimados ou clonados. Como são seres com capacidades muito além do que humanos podem compreender, o seu controle é rígido e um escorregão pode resultar no colapso de uma estrela.

Alastair é um dos cientistas designados como cuidador de Sóis, mas suas relações com eles caminham para um aprofundamento inédito. A sua capacidade de “amar como uma estrela amaria” determinará os destinos dos seres que ele ajudou a escravizar.

Mesmo com o risco de dar mais informações sobre a narrativa do que eu intencionava ao começar esta resenha, não posso terminá-la sem voltar aos corpos. Pensar a possível ou impossível separação entre corpo e mente/espírito é algo recorrente nas narrativas de Echeverría. A coletividade das relações corporais/sensuais é um dos focos que mais me encantam em suas histórias. Em vias distintas, isso pode ser encontrado em El señor de la lluvia e Lusus Naturae.

Em Alvorada em Almagesto, uma pergunta sobre como seria acordar em um corpo que não é seu é dobrada sobre si até se tornar horrível. Os Sóis são seres retirados de seus corpos originais ainda quando larvas. Sem jamais conhecer suas capacidades orgânicas, as mentes/espíritos desses seres são inseridas em cadáveres reanimados ou clones. São corpos mortos com mentes mais do que vivas.

Corpos reanimados e mentes/espírito possuem memórias e concepções de realidade distintas e conflitantes. Alguns dos Sóis conseguem responder às torturas e humilhações com adaptação à condição limitada que lhe foi imposta. Outros Sóis não o fazem e, sem serem controlados, são considerados um risco a ser descartado.

Essa última situação faz surgir uma das passagens que me pareceram mais complexas: a recriação de uma vida a partir das memórias de outra pessoa. Digo que isso me pareceu complexo pois é algo que nós fazemos.[1] Nós imaginamos pessoas através de nossas memórias e não sabemos como nos relacionar com elas quando notamos que, ao tomarem vida, desejam ser algo novo. Esse algo novo pode nos amar, nos odiar ou desprezar tudo aquilo que o fazia memoriável dentro de nós.

Todos esses elementos, presentes em Alvorada em Almagesto, podem soar misteriosos. Mas, não há um grande mistério para ser descoberto. Echeverría não faz uso de sua verve para te dar sustos baratos ou torcer suas expectativas de aventura. Isso é desnecessário diante da possibilidade de tocar o estranho.

[1] Veronica O’Keane, em “El Bazar de la Memoria: Cómo Construimos los Recuerdos y Cómo los Recuerdos nos Construyen” [libro que ainda não li, mas vou inserir nesta nota, pois sim], comenta como é inevitável que criemos o mundo, incluso pessoas, através de nossas memórias.

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