Distrações humanas para o desnecessário

 Apontamento I, pp.35-36, 03.01.2012

Música que acompanha: A Foggy Day (Louis Prima and Keely Smith)

Sei, conscientemente, que nestas cheirosas páginas brancas não deveriam figurar histórias cotidianas e rasas, mas o conto não deixa a mente. Hoje, em minha caminhada atípica que vai e vem como cólicas menstruais, deparei-me com o gosto de divertir-me com a estupidez humana. Era um senhor. Idade? Nunca soube julgar isso, mas talvez por volta dos 55. 60? 65? Não menos que 55. Blusa preta com o dizer nas costas: “não temos só palavras… temos atitude!” Irônico ou providente?

Logo que me aproximei, sua visão de águia de 55 anos viu meu reflexo jovem e pôs-se a passos largos e rápidos. Pensei, já rindo: “Senhor, isto é uma caminhada, não uma competição”. Mas… seguindo meu instinto, apressei-me para acompanhá-lo. E assim fomos por um longo caminho – ele, eu e Louis Prima. Foi então que ele desacelerou e pegou o celular. Celular?! “Senhor, olhe que praia linda! Desligue isso e desconecte-se um pouco…”. “Bla bla aham bla bla eu sei bla bla vou bla [voz de Keely Smith] bla bla [me aproximo, quase ultrapasso] bla bla bla [vê] bla tá tá preciso desligar” – guarda apressadamente o celulare força o joelho ao limite do The Flash. Atrás dele! Rindo o tempo todo, já fisicamente, da bobagem em achar que uma ultrapassagem numa caminhada diz alguma coisa.

Ele se afasta, meu tendão reclama. Já no final do meu percurso de ida, apoio-me para alongar e… vejam! Quem faz a curva e retorna?! O garotão tolo e agora por mim pensado como machista indelével. “Saio na frente? Não.. para que.. vamos brincar..”. Suas pernas parecem cambalear e jogarem-se para frente num ato de desespero pela conquista sem sentido. Vai à frente, “corre”, afasta poucos metros e diminui o passo. Eu espirro. Ele aumenta a velocidade. Eu fungo. Ele força o joelho.

Então que, no meio da corda entre esperança de afastamento com vitória e uma fungada, surge à percepção o pôr do sol que julgo ser o mais lindo que já vi. Exageros à parte, quase me deixei levar por um ânimo místico. Sem querer, alcancei o jovem 55 e ele entrou em pânico. Influenciada pelo espiritualismo diminui o passo sem o intuito de rir do senhor.

Seu corpo já estava curvado, pronto para o abater-se ao enterro. Tive, nesse instante, certo nojo e desprezo por algumas características humanas. O desrespeito consigo, de seus limites e o não aproveitar do pôr do sol mais lindo… raiva…  andar rápido. Rápido. Rápido… joelhos… latejar… tendões… curvaturas… risos internos novamente… patético… rápido… + rápido… ++ rápido… + rápido… rápido… – rápido… – – rápido…- – – rápido… apenas (-)*. Uma distensão? Um infarto? Desvio à esquerda. Perna direita não respondendo. Olhar fixo sobre minha condição jovem e o orgulho de não admitir o 55. Fingimento. Não ia alongar. Não ia morrer. Devia ser o final de sua trajetória. O findar de uma disputa não disputada. Sem um olhar para trás e conferir a verdade.

Permito-me a dúvida. Morrestes Senhor 55 Atitude? Provavelmente não. Mas tornei-me tão memoriável a ti quanto você à mim, mas.. mas.. por razões completamente distintas. E assim termina, uma página desconexa ao que deve ser escrito. Memorável…

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