Caminhar pelo Traço (Limite-Interno)

Caderno de Anotações, p. 102, 19.01.2012.

         Passeei pela cidade até a cidade acabar…e a cidade acabou. Quando construíram a cidade com palavras macias, não indicaram – nem mesmo poderiam – que ela possuía um fim tão tácito. Era um cenário grosseiro imitando as ondas de um mar manso. Minto. Possuía seu realismo de pintura inacabada. Daquele pano de fundo não poderia passar. Como aceitar que o espaço existe exatamente para onde acaba o espaço? É que habitar depende de certo corte seco da falta de caminho. Na ponte quebrada percebe-se o juntar. Quando se desfaz ou está por fazer-se, antes do começo e de imediato para o fim, floresce um em si como para si. É uma balança que empurra de um lado só sem jamais mover-se efetivamente. O conjunto de prédios, parede de menires mal-humorados[1] avançam num efeito imaginário de distorção para a fuga do mar. O mar foge, os prédios avançam, na verdade, nenhum deles se move. É como um medo de altura que nada resolve. Você não perceberá, mas já está em queda. É na percepção de um fundo, por mais abstrato que se conceba tal fundo, que algo pode ser iluminado. É nos limites e um corpo que suas linhas se mostram. Não por um sublinhar inocente de figura-fundo, mas, num entendimento de que o fundo, mais que delinear, integra-se ao corpo percebido. Pois a separação de ambos é puramente uma artimanha do intelecto (?). A existência é pré-objetiva e o corpo se dá com o extra afigurado. O corpo da cidade está onde não há cidade. Aqui há o além-mar. É que a definição é arriscada, qual seria o fundo do traçado? Meu caminhar, um caminho, a concepção de um conjunto que funcione como traçado, o Eu que diz enxergar e caminhar por onde vê, ou ainda a ideia de outro que vê o Eu no caminho traçado? Qual é o fundo. Em verdade, eles trocam de posição perante a percepção de um modo muito… na medida em que as impressões tornam-se objetos, os fundos e os corpos trocam de posição.

[vale dizer que se distinguimos pontos é porque entre eles estabelecemos o “vazio”, pois se estivessem os pontos unidos, seriam um mesmo ponto, e se colocássemos algo entre os pontos, a situação tornar-se-ia impossível, pois esse algo entre seria outro ponto e ao mesmo tempo uniria os pontos tornando estes um mesmo algo, que teria com que e nem como relacionar-se, não poderia ser percebido e nem mesmo existir; a própria existência depende do vazio e aceitar o vazio é condição para a percepção]. Quando “associamos”, associamos entes objetiváveis, pois, associar impressões soa impraticável, pois, afinal, a associação de impressões seria uma impressão, e por tal, jamais objetivável e assim, jamais capaz de gerar uma impressão. O exemplo das duas figuras é interessante para demonstrar como uma impressão deixa de ser impressão para tornar-se objeto e então poder ser associado. Quando percebemos a figura 2 tendo conhecimento da figura 1, temos uma impressão da figura 2 sem objetivar a figura 1, que nela está contida; ao tentar associá-las e encontrar a figura 1 na figura 2, a figura 2 torna-se alvo; para percebermos a figura 1 na figura 2, esta deve deixar de ser uma impressão e tornar-se objetivável.

 

Tem-se ainda que a impressão é diferente de um conhecimento. Quando se conhece a figura 1 na figura 2, tem-se um trabalho de memória efetivo. E não se confunde a “projeção das recordações” com uma “ilusão” e muito menos com a “percepção”. “Recordar-se não é trazer ao olhar da consciência um quadro do passado subsistente em si, é enveredar no horizonte do passado e pouco a pouco desenvolver suas perspectivas encaixadas, até que as experiências que ele resume sejam vividas novamente em seu lugar temporal. Perceber não é recordar”[2].

Na tentativa de caminhar livremente, vi que era como uma criança liberada para colorir livremente, mas a quem eram dados os limites de seus meios, lápis azul, lápis verde. Que caminhar é caminhar pelo traço, que o traçado é sempre o limite, que o limite é sempre um corpo, que o corpo é sempre espaço, que espaço é sempre externo…


[1] Menires são monumentos pré-históricos de pedra que aqui, na qualidade de prédios, aparecem como totens de pedra mal-humorados, porque parece complicado afirmar que podemos fazer um prédio rir. Assemelham-se aos gigantes mal-humorados das lendas medievais e anteriores, que se impõe de modo a não se importar com o entorno, que não notam o chute em seu dedão do pé.

[2] MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percepção [tradução Carlos Alberto Ribeiro de Moura] – 3ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006, p. 48.

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