[resenha] A memória vegetal

Imagem de capa. A memória Vegetal, de Umberto Eco.

Livro físico, A memória vegetal, sobre mesa de madeira, com outros livros empilhados ao fundo. O livro está na vertical, semiaberto, com vários marcadores coloridos afixados em suas páginas.

Texto de Fabiana Pedroni.

Umberto Eco. A memória vegetal: e outros escritos sobre bibliofilia. Rio de Janeiro: Record,2010.

Apesar de extensa, esta resenha não objetiva abarcar a obra de Umberto Eco em seus mínimos detalhes, nem mesmo nos mais superficiais. Escrevo com o intuito de divulgar uma leitura prazerosa e, assim como o autor, promover o amor que tenho pelos livros.

Por meio dos livros, vamos para além de uma memória orgânica, aquela que guarda o conhecimento dos anciãos, arquivada pelo cérebro e divulgada pela oralidade. Não se trata de uma anular a outra, mas de novas existências. A memória mineral surge com o nascimento da escrita, mineral por ter sido iniciada nas tabuinhas de argila e esculpida em pedras (Umberto Eco inclui aqui a arquitetura como uma memória mineral). Com o avanço da escrita e dos materiais, a memória torna-se vegetal, o livro constitui-se sobre matéria vegetal – o papiro, os livros de trapos de linho, cânhamo e algodão; “etimologia tanto de biblos como de liber remete à casca da árvore” (p. 15).

Por meio do livro tem-se a representação de uma memória, mesmo coletiva, mas por uma perspectiva pessoal. “Não procuramos apenas decifrar, mas também m interpretar um pensamento, uma intenção. Em busca de uma intenção, interroga-se um texto, do qual se podem até fazer leituras diferentes” (p.15). Difícil aqui não se lembrar de Obra Aberta. A obra literária, e mesmo não-literária, abre-se à participação do leitor. Ele não apenas lê, num ato pensado de absorção de palavras, mas traz a leitura para sua vivência. A interpretação do conjunto da obra varia de acordo com sua percepção. Tal comparação é fortalecida na relação de diálogo entre o leitor e a obra. É esse diálogo que acabamos por assumir ao ler Memória Vegetal. O autor nos envolve de modo prazeroso nos vários textos publicados em conferências, revistas e outros. Através de suas palavras buscamos não apenas a obra original da qual ele fala, mas entender a sua vivência nesta obra. Essa curiosidade por buscar Eco em suas palavras vai além da memória vegetal, ele nos instiga a buscá-lo principalmente nos momentos em que não contém as palavras de amor aos livros. Como amantes, acabamos por nos identificar.

“A bibliofilia é certamente o amor aos livros, mas não necessariamente ao conteúdo deles” (p.35). Há graus de bibliófilos, de colecionadores, mas em todos os níveis o amor está presente. Existem pessoas que abrem mão de toda sua fortuna por um único volume, outras vasculham sebos à procura de exemplares raros, esquecidos e baratos. A tensão da procura pelo item e o significado incutido na busca deslocam a atenção do bibliófilo criando essa distinção. Um livro pode ser raro por um valor de mercado,
capitado em leilões, mas pode também ser raro por razões do próprio colecionador, ou mesmo ser um volume almejado por muitos e ainda assim encontrado por um acaso.

Tal diversidade encontra-se, a meu ver, não apenas nos valores de compra que compõem tal vício (ou virtude?), nas temáticas, no recorte temporal das coletâneas, mas, principalmente, no modo como se dá essa relação livro-bibliófilo. Difícil distinguir um bibliófilo (bibliofilia) de um bibliômano (bibliomania) em que, segundo Umberto Eco, a diferença encontra-se na exposição do objeto valioso: o bibliófilo deseja expor suas conquistas, seus livros valiosos, já o bibliômano, por medo de perder a posse, a esconde, usufrui em silêncio. Nesse momento o leitor começa a se identificar como um louco que cambia entre os dois conceitos (desculpe minha inferência pessoal, mas isso realmente acontece). No amor pelos livros, o sentimento de usufruir, mesmo que solitariamente, de um exemplar e tudo o que nele de imperfeito possa existir, começa a aflorar. O próprio livro de Eco passa a fazer parte desse universo de devorar palavras numa gula insaciável.

A cada texto, a cada novo livro por ele apresentado, revelam-se novas interações. Na primeira parte do livro, Sobre a Bibliofilia, o autor fala dessas relações com o livro, com o colecionar e o próprio modo que se dá a leitura para um bibliófilo (atenção às páginas 46 a 50, sob o subtítulo “A biblioteca”, para não perguntar a um bibliófilo se já leu todos os seus livros).

Na segunda parte, Histórica, o autor traz seis artigos, cada um referente a um livro e sua relação com este: “Sobre o livro de Lindisfarne”, “Sobre as Très Riches Heures”, “Sobre os Insulares”, “Por que Kircher?”, “O meu Migne, e o outro”, e, por fim, “O estranho caso da Hanau 1609”. Não há, aparentemente, no livro Memória Vegetal uma preocupação inicial em definir os livros, dizer de suas origens, influências e conteúdos, a não ser quando este conteúdo é de importância aos comentários do autor. Mas nada que atrapalhe a leitura ou a dificulte em si, também, nada que impeça uma busca do leitor por estes dados na memória virtual, aquela de silício indicada por Eco no início do livro. A dificuldade maior, ou melhor, um entrave possível à leitura, pode encontrar-se no desinteresse do leitor por determinados livros. Como todo amante, há preferências.

Assim, alguns artigos podem ser lidos com pressa e sem a devida atenção. Mesmo assim, o encanto de Memória Vegetal permanece na leitura.

***

Na terceira parte do livro, Loucos literários (e científicos), Umberto Eco recupera qualquer cansaço que o leitor possa ter tido no último texto. Divide-se em apenas dois subtítulos: “Varia et curiosa” e “A obra-prima de um desconhecido”. No primeiro o autor fala de uma sessão de mesmo nome do subtítulo que pertence à catálogos constantemente consultados por colecionadores. Nele constam-se obras de Loucos
Literários e científicos, assim intitulados pelo autor. Nada melhor que uma citação para
descrevê-los:

Mas certamente considerava que a obra de um louco era louca, e que uma obra que lhe parecia louca pressupunha um autor louco. Por isso, parece óbvio que, ao lado de um Attardi que em 1875 publicou um livro sobre a possibilidade de abolição da morte, tanto a violenta quanto a natural, ou de um Henrion que em 1718 apresentou uma dissertação sobre a estatura de Adão, Brunet colocasse vários místicos, visionários, alquimistas e cabalistas… (p.160).

No segundo subtítulo, Eco fala sobre os elementos que também compõem o livro, como o paratexto, epitexto e peritexto. Na última parte, Heterotopias e Falsificações, reúnem-se oito textos que falam de temas tão variados e incomuns, como uma própria heterotopia. Em “A peste do trapo”, descrevem-se os problemas causados por pragas que devastam os livros e o universo ao entorno deles; já “Antes da extinção” é justamente sobre o momento anterior à nossa extinção narrada a partir de dados interpretados e registrados pelo estudioso marciano Taowr Shz que “é antropólogo espacial conhecido não só em toda a galáxia habitada como também em algumas estrelas da Grande Nuvem de Magalhães…” (p.209); Nestes dois textos iniciais o autor cria na leitura uma dubiedade entre verdade, porque os escritos existem, e a dúvida – os escritos realmente existem ou são obras de Loucos
Literários?

Já no “Monólogo interior de um e-book”, Eco não utiliza o tempo como parâmetro à dúvida do leitor, mas a própria situação de um e-book narrar sobre sua experiência em conter livros. Os textos aparentam desprovidos de conformidade temática, mas unidos em controvérsia. Tal indício justifica a presença do texto “Shakespeare era por acaso Shakespeare?”, o qual traz a corriqueira polêmica da autoria das obras shakesperianas.

Essa desconexão culmina no texto “Por uma reforma dos catálogos”, em que Eco aponta para a necessidade de criar novos parâmetros para a catalogação, que satisfaçam um bibliófilo diferenciado, aquele que não se norteia por datas e temáticas, por exemplo, romances escritos por homens de bigode.
Em “O código Temesvar”, Eco fala de Milo Temesvar, o qual figurou em outro livro seu, Apocalípticos e integrados; o texto “Leilão de livros pertencidos a Ricardo Montenegro” constrói-se curiosamente como um anúncio de venda dos exemplares pertencidos à Montenegro. Por fim, “O problema do limiar. Ensaio de Para Antropologia” em que o autor narra a invenção da filosofia pelos mastienos. Concluo apenas com uma frase: um ótimo presente de natal, digno de miríade de anotações e marcadores.

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