[resenha] EX-LIBRIS: Confissões de uma leitora comum

Texto de Fabiana Pedroni

FADIMAN, Anne. Ex-libris: confissões de uma leitora comum. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002

Livro sobre livros. De cunho mais pessoal que A memória vegetal: e outros escritos sobre bibliofilia de Umberto Eco, este traz em meio aos livros de que fala o cotidiano e histórias de Anne Fadiman. O envolvimento é inevitável.

Passamos a conhecer seu marido George Howe Colt em meio ao companheirismo compulsivo por livros e nos desafios de unir as bibliotecas: “Depois de cinco anos de casamento e um filho, George e eu resolvemos finalmente que estávamos prontos para a intimidade mais profunda da fusão de nossas bibliotecas. Não estava claro, entretanto, como chegaríamos a um ponto em comum [sobre a organização]. (…) [depois de alguns desentendimentos metodológicos] George diz que essa foi uma das poucas vezes que pensou seriamente em divórcio.” [in: Casando Bibliotecas].

Seu irmão Kim com seus modos característicos de aproveitar um livro em sua máxima potência, mesmo que muitas vezes o maltratando e exibindo sua materialidade [in: Nunca faça isso a um livro]; a família Fadiman e suas manias, das mais interessantes as de revisão textual mesmo que em cardápios nos restaurante [in: Inse|r|t a Car|e|ro|t]; as histórias de mãe e seus filhos devoradores de livros [O glutão literário]; o amor por uma caneta que pode ser uma das mais preciosas companheiras [in: Tinta Eterna]; as possíveis leituras excêntricas separadas numa estante que em nada guarda similaridades com o restante dos livros: “A Estante Excêntrica de George Orwell continha uma coleção encadernada de revistas para senhoras da década de 1860, que ele gostava de ler na banheira.” E Anne Fadiman e sua estante com 64 livros sobre explorações polares [in: Minha Estante Excêntrica].

Estas e muitas outras histórias repletas de referências literárias e curiosidades. Mas já advirto: para aqueles que não conseguem ouvir o nome de um livro ou de um autor que não conhecem e se sentem induzidos a procurar mais dados para se interar do assunto, este livro pode ser eterno (no bom ou no mau sentido). As muitas referências podem tornar o passeio cansativo caso o leitor não se contente com sua própria pequenez (se for este o caso, como o meu humilde conhecimento de literatura estrangeira). Saber entregar-se aos dados fornecidos sem saber do que se trata é o descobrimento do prazer em poucas palavras, apenas no que elas representam dentro do texto. Claro que ter o conhecimento de quem é George Orwell ajuda a entender o quão excêntrica é sua estante. Informações anteriores que ampliam os significados das afirmativas, diferente do ocorre nas citações de autores que não conheço, mas que mesmo assim é possível entender porque eles estão ali como referência.

Diferente de Guia politicamente incorreto da filosofia de Luiz Felipe Pondé, Anne Fadiman [aviso de ironia] não desenvolve as referências que cita, no sentido de não explanar o assunto ao ponto de você jurar que já ouviu falar do livro ou que no mínimo vai comprá-lo (como aconteceu com A revolta de Atlas de Ayn Rand, citado por Pondé). É preciso ler nas entrelinhas o que realmente importa em suas frases e se entregar à leitura de modo despretensioso para então divertir-se com sua “declaração de amor aos livros”.

Penso que mesmo nas leituras obrigatórias (para aqueles que sobrevivem dos estudos e produções acadêmicas) o mais importante é a diversão. Muitas vezes isto é um desafio. Explorando outras temáticas encontrei a minha Estante Excêntrica: livros sobre livros. Não aquelas resenhas e estudos de livros de “difícil” compreensão, mas nas experiências de outros leitores com seus livros. A vida de um leitor compulsivo é algo que encanta, muito por seus excessos, mas que em alguns casos [espero um dia ser um deles] conseguem equilibrar leitura-pensamento-escrita, sem cair no erro de vício na leitura, citado por Schopenhauer em A arte de escrever “Ler significa pensar com uma cabeça alheia, em vez de pensar com a própria. Nada é mais prejudicial ao pensamento próprio […] uma influência de pensamentos alheios, provenientes da leitura contínua”. Ler, absorver, pensar, escrever. Seria o ideal.

Nesse sentido, podemos pensar, a partir da leitura de Ex-libris, a importância dos livros na vida familiar, no desenvolvimento pessoal e o reconhecimento dos livros como parte vital da sobrevivência no processo de leitura-pensamento-escrita, mesmo quando privilegia os momentos de glutões literários.

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