Elogio da Superficialidade – Anotações

FLÜSSER, Vilém. O Universo das Imagens Técnicas: Elogio da Superficialidade. São Paulo: Annablume, 2008.

Neste conjunto de ensaios Flüsser dá continuidade a Filosofia da Caixa Preta, explicitando caminhos possíveis de uma sociedade tomada por imagens sintetizadas. O modo como nos relacionamos com as imagens atuais não é o mesmo dispensado para as imagens tradicionais. A diferença de natureza entre esses tipos de imagens torna diverso também o conteúdo que podem transmitir. Num pensamento extremo, mas não absurdo, as imagens sintetizadas transmitem a si mesmas em sua condição de imagens. De modo mais amplo, as imagens técnicas seriam transparentes, pois nada teriam a encobrir.

A conjuntura que se forma quando enxergamos o mundo pela nadificação pertencente as imagens técnicas toma na maioria dos discursos uma conotação de desastre. Porém, para Flüsser, o modo de relação do sujeito atual com o mundo, definido pela atividade indireta do sujeito sobre o mundo, colocaria o sujeito na condição de livre criador. Tomando as imagens técnicas pelo poder dos aparelhos e o próprio ser humano como um programador-programado, a nova relação estabelecida com o mundo seria a de “apontar” e discernir entre informação nova e informação redundante. O processamento dos dados não caberia necessariamente o humano, mas aos aparelhos cada vez mais capazes de cruzar conteúdos para gerar situações improváveis. O poder do ser humano, e deste modo também aquilo que o mundo exigiria do ser humano, seria então o demandar ações e pinçar informações novas, situações improváveis: criar.

O mundo para o qual Flüsser nos conduz é um mundo de puros criadores. O grande desafio ainda seria manter a consciência e a qualidade de “sensor” diante da nulidade carregada pelas imagens sintetizadas, da qual tentamos fugir como vampiros da cruz. Um sujeito que vivesse religiosamente, como é o comportamento que o autor propõe para essa “nova espécie” humana (posto que a crença na capacidade calculadora dos aparelhos eleva-se mesmo para além do discurso e da percepção) provavelmente não possuiria mais a qualidade de uma recepção crítica necessária para lidar com a avalanche de improbabilidade que os aparelhos atuais criam. A morte da cultura na solidão e no tédio é o fim mais reconhecível nesse cenário sem objeto nem sujeito.

Mas talvez não possamos reconhecer essa revolução como positiva e sejamos também incapazes de realizar uma revolução comportamental equivalente ao poder da técnica, pois somos seres da história, seres passados. Travar contato com a atualidade é como chutar a quina do móvel.

Caderno de Anotações, 07.06.2012, p. 38.

“As categorias atuais de sociedade, política e arte serão meras defasagens e o próprio instinto vital, a disposição existencial, irá adquirir um tom novo e exótico para nós” (p. 13). Já no prefácio percebe-se esse aparente tom futurista que o autor emprega. No entanto, o autor fala ao nosso tempo, o tempo dominado pelas imagens técnicas. Talvez o futuro ao qual ele se refira seja no sentido do momento em que se toma consciência dos fatos. Lidar com a atualidade com a consciência de que a disposição existencial não é a mesma de outros tempos É estar nesse futuro.

***

ABSTRAIR: “Somos testemunhas, colaboradores e vítimas de revolução cultural cujo âmbito apenas adivinhamos. Um dos sintomas dessa revolução é a emergência das imagens técnicas em nosso tempo.” (p. 15) Trata-se da mesma transformação diagnosticada no niilismo europeu de Dostoievski. Porém na tese de Flüsser, o apagamento da linguagem não ocorre, mas haveria sim uma positivação quando lidamos com a zerodimensionalidade das imagens eletrônicas. Nesse mundo feito por imagens que nos mostram imagens, Flüsser pretende o elogio das “superfícies que se condensam sobre semelhante abismo.” (p. 15)

Na manipulação das formas o ser humano transforma as coisas em circunstâncias: ele abstrai circunstância das coisas. Ao abstrair as circunstâncias e fixá-las em cenas, imagens, o homem age conforme um projeto (p. 16). As imagens são ambíguas, pois podem dar acesso à si mesmas. “O homem pode agir em função das imagens (‘magia’)”. Um terceiro gesto de abstração é poder contar através das imagens, i.é, deixar as imagens transparentes. Imagens transparentes são a escrita e a fala. No primeiro gesto de abstração o homem transforma as coisas em situações → abstrair o tempo do mundo concreto é transformar-se em Ser abstraidor. No segundo gesto o homem abstrai a profundidade das circunstâncias → com as imagens o homem transforma-se em homo sapiens (sob-projeto). No terceiro gesto de abstração o homem abstrai o conceito (mundo) das imagens → com o texto (língua) o homem transforma-se em Ser histórico. (p. 17)

1ª abstração → mundo concreto em situação → Ser abstraidor.

2ª abstração → situação em imagem → homo sapiens (sob-projeto).

3ª abstração → imagem em conceito (mundo) → Ser histórico.

“E mais de três mil anos se passaram até que tivéssemos ‘descoberto’ este fato, até que tivéssemos aprendido que a ordem ‘descoberta’ no universo pelas ciências da natureza é projeção da linearidade lógico-matemática dos seus textos, e que o pensamento científico concebe conforme a estrutura de seus textos, assim como o pensamento pré-histórico imaginava conforme a estrutura das suas imagens” (p. 17). Percebemos que as ciências formulam o mundo caminhando pela técnica e pelo cálculo. Quando se entende tal fato, as pedras (cálculo) do cordão histórico se soltam e forja-se uma condição niilista. Com a consciência dessa situação o homem escapa da condição histórica, habita na pós-história. Nessa nova condição o homem é um jogador, ele joga com os conceitos calculáveis, contáveis. (p. 17)

Esse é o “modelo fenomenológico” da história da cultura que Flüsser desenvolve para lidar com as imagens técnicas. “Tridimensionalidade/bidimensionalidade/unidimensionalidade/zerodimensionalidade” (p. 18). Colocando a ressalva de que essa linearidade é idealizada.

O 4º momento de abstração é exatamente essa situação de abstrair os conceitos da história na era das tecno-imagens. Essa sucessão de abstrações que “dançam em torno do concreto são a chamada história da cultura. A abstração distancia [produz distância] do concreto, torna-se cada vez mais difícil o retorno ao concreto. A consciência dessa situação é o estágio (endgame) no qual vivemos.” (p. 19).

O gesto produtor da imagem tradicional é do concreto para o abstrato, já o das imagens técnicas e do abstrato rumo ao concreto. Enfim, os significados dessas imagens são opostos um ao outro. O produtor da imagem tradicional da um passo à trás para enxergar a coisa concreta, ele reflete a coisa na imagem. Na imagem tradicional a relação sujeito imagem é palpável e concreta. Mas a condição da imagem tradicional já existe na mente humana

Caderno de anotações, 08.06.2012, p. 041.

Essa subjetivação da coisa concreta como coisa imaginada permite ter “em mente” as circunstâncias, tê-las e observá-las como fenômenos que possuem relações entre si. Tomar a coisa imaginada, “mundivisão”, em informação comunicável passa a ser o papel do fazedor de imagens. E realmente “informar” o mundo para que ele seja melhor e mais facilmente manipulável.

Para fixar a informação o homem usaria de suas ferramentas manuais para informar uma superfície. Assim o homem atinge o nível da consciência “imaginativa” (p. 20). O autor não tenta versar sobre como funcionaria o processo imaginativo, entrando-se então no imput e no output da imaginação (p. 20).

Imput → o produtor de iamgens nutre-se das imagens já imaginadas e inseridas na mundivisão da sociedade. Qualquer símbolo novo tende a ser decifrado com os parâmetros presentes no conjunto da mundivisão já estabelecida. Símbolos novos tendem a ser ruído.

Output → as imagens novas são mais do que modelos para futuros produtores de imagens, são parte de uma condição para a futura experiência da sociedade. A circunstância, antes concreta, passa a ser idealizada e então fluida e maleável.

O autor ressalta que esse processo não possui consciência histórica. O indivíduo que produz imagens “tradicionalmente” não o faz com consciência progressiva,mas se trataria de magia a serviço do mito (p. 21). Essas imagens “são superfícies que fixam e publicam visões da circunstância passadas pelo crivo do mito” (p. 22). Tendo essas imagens como mapa o homem age magicamente, talvez pudéssemos dizer que esse homem age sob o véu de uma imaginária, embora Flüsser não use essa palavra. Esse é um modo de estar-no-mundo diferente do que se vê através das tecno-imagens.

Caderno de Anotações, 14.06.2012, p. 043.

CONCRETIZAR: O modelo de história da cultura proposto por Flüsser coloca a nossa época como a época pós-histórica diante da emergência do universo zerodimensional. Teríamos seguido os fios da história até o núcleo da nulidade, notável quando se realiza a realidade através do cálculo. “Mas para os inventores do cálculo o problema era metodológico, formal, e para nós é problema existencial. A hipótese aqui avançada é de que as imagens são uma das respostas ao problema.” (p. 23).

As imagens técnicas são feitas por aparelhos automáticos. Não são processos imagináveis pelo homem. Os aparelhos servem para realizar e dar acesso as imagens técnicas. Elas se processam no campo das virtualidades. Dizer virtual é dizer possível. A virtualidade se desenha entre o provável e o improvável e não responde a questão verdade/falsidade. (p. 25).

Provável e Improvável ligam-se a informação (in-formação). O universo, visto através do cálculo, tende à uniformidade, à “morte térmica”, e assim à ter forma nenhuma, à desinformar-se. A probabilidade de que isso aconteça é grande, quase certeza. Pelo cálculo → a informação verdadeira do universo é a desinformação.

Pelo cálculo, em tese seria possível deduzir todo o universo em suas probabilidades e improbabilidades, mas para isso seria necessário um computador que pudesse representar todo o universo e um meta-computador que pudesse gerenciar os acertos e os erros do programa do primeiro computador (p. 27).

Caderno de Anotações, p. 044.

Imagens técnicas são produtos de aparelhos, aparelhos são programados para poder funcionar. Eles são desinformações, pois realizam coisas pré-vistas pelo cálculo e realizadas tecnicamente. Elas revelam apenas sua programação. No entanto seu aparecimento guarda também o nível da ação do dedo humano, numa tentativa de sair do abstrato para o concreto. Seu aparecimento é a luta entre o ato programado do aparelho e a tentativa de desprogramar do humano. Tentar arrancar superfícies efetivas de imagens técnicas é ainda impraticável, desse modo, as imagens técnicas agem iludindo (p. 29).

Imagens tradicionais e imagens técnicas são geneticamente, naturalmente diferentes. Imagens tradicionais surgem de uma “ideologia” e representam cenas. Imagens técnicas surgem do e contra o programa de um aparelho, e isso representam. No entanto, as imagens técnicas dizem representar cenas. Elas escondem e ocultam o cálculo de ontem provém. Elas são opacas porque não há o que transparecerem, por serem desinformação, quando se mantém o comportamento tradicional para com as imagens técnicas, cai-se no fascínio, no comportamento mágico-ritual. Desse modo, a recepção das imagens técnicas deve ser diversa da recepção das imagens tradicionais (p. 29-30).

TATEAR: Temos o acesso ao mundo zerodimensional através das teclas. Assim conseguimos trazer coisas não mensuráveis para escala humana. [Caderno de Anotações, p. 045] Para escrever ou produzir uma imagem num aparelho nós devemos atravessar todas as possibilidades que, ao acaso, chegariam em algum momento aquele mesmo resultado, já que esse resultado estava previsto no aparelho. O que fazemos é produzir algo não ao acaso, mas deliberadamente (p. 33). Todo o texto já está programado e calculado no aparelho, e este é o limite da minha liberdade. No entanto nos sentimos livres no arranjo das palavras e no apertar o botão da máquina fotográfica, pois também somos aparelhos programados.

Apertando teclas posso “publicar”, destinar a um público, ou “privatizar”, destinar ao privado. “Alguém aperta teclas na emissora de TV e publica imagens privadas, e eu aperto teclas no aparelho de TV e privatizo imagens públicas” (p. 36). Como se vê, a distinção entre essas atitudes é muito rasa. E embora todas as “teclas” estejam conectadas,não parece certo dizer que todos publicamos o privado e que todos privatizamos o público, posto que não haveria mais público nem privado propriamente ditos (p. 37).

O ideal é que esse conjunto deve funcionar para informação, isto é, deveríamos deliberar as teclas em função da informação a ser produzida. No entanto, interiorizar uma “função tateadora” pode ser a total escravidão, pois não seria possível diferi-la da liberdade. Isso seria ainda mais perigoso no caso das imagens técnicas, pois trazem uma nova forma de imaginação, antes inimaginável (p. 38).

Caderno de Anotações, 15.06.2012, p. 046.

IMAGINAR: Existiria uma diferença ontológica entre a recepção tradicional de imagens, pareada a relação com coisas palpáveis, e a recepção das imagens técnicas. Considerando a ideia de close reading para ambas as relações: no caso da relação tradicional, a coisa concreta é realizada antes e independente do conhecimento de que se trata de partículas soltas no espaço; no caso das imagens técnicas, elas devem antes serem entendidas como partículas-pontos soltos no espaço para então serem feitas e vistas a certa distância e então entendidas como cenas, como ilusões de coisas concretas.

Na nova relação que essas imagens pedem, devemos re-significar o termo “imaginação”, pois vivemos numa realidade imaginária, uma realidade na qual imaginamos sobre a imaginação. Realizar a realidade nesse “concretizar a abstração” seria a emergência de um novo nível de consciência (p. 42).

Essa relação de superficialidade interessa-se apenas pelo input e pelo output. No entanto, haveria uma diferença entre os “imaginadores” que “programam” as imagens e os “imaginadores” que “programam” os aparelhos. Os fazedores de imagens “imaginam” por cima da máquina-aparelho. Os aparelhos calculam. Assim, alguém “totalmente” desinteressado nesse processo pode captar cenas feitas de pontos na tela de TV e imaginar a mensagem informada nelas.

Caderno de Anotações, p. 047.

Ao exacerbarmos tal condição, de imagens que são imagens imaginadas (situação atual), encontramos um total desprezo por explicações mais profundas e uma crescente empolgação com a superficialidade e a efemeridade. Não é de interesse mais a questão falso/verdadeiro, mas simplesmente tornar visíveis imagens que melhor criem o cenário para esse mundo imaginário. No entanto, essa condição não visa realmente chegar a situação que ela indica, a situação zerodimensional, mas é uma fuga desse nada. Ao contrário dos orientais,que retiram os véus que encobrem o nada, procurando por uma condição sempre mais transparente, nós criamos sempre mais véus, fugindo de enxergar esse nada. tendemos para a opacidade que seja uma ilusão de transparência, pois não possui densidade [peso, importância] além de sua própria superfície imaginada.

APONTAR: “O que pretendo aqui é formular a seguinte pergunta: o que os imaginadores de imagens técnicas (e seus aparelhos) fazem, para que suas imagens signifiquem, e o que significam tais imagens?” (p. 47). Tendo em vista [Caderno de Anotações p. 048] que tanto imagens fotográficas, analógicas, quanto imagens computadorizadas são imagens técnicas, somente podem existir e serem vistas com o auxílio de aparelhos. Sendo assim, diferenciaríamos os tipos de imagens entre informativas e redundante para ambos os casos [não haveria distinção entre fotografia e imagem digital nesse sentido]. A pergunta é pelo “como” essas imagens significam e pelo “o que” elas significam (p. 49).

O homem histórico debruçava-se sobre o mundo decodificando-o e codificando-o em textos. O homem pó-histórico ergue-se frente ao mundo apontando imagens com imagens. Essas imagens não significam algo real, mas significam sua própria superfície imaginada. Elas, as imagens, e o homem pós-histórico, apontam para um mundo vazio de conteúdo, um mundo nadificado. Mas esse apontar ocorre de modo a iludir, pois é um mundo imaginado.

Apontar o caminho a ser seguido nesse mundo é o que as imagens técnicas significam. Elas são na verdade uma projeção de imagem. “As imagens técnicas significam programa” (p. 53). As imagens técnicas são programação, tanto de como podem realizar coisas e outras imagens, como do modo de proceder e entender a sociedade. As imagens técnicas tem o significado de dar sentido ao mundo do absurdo, do imaginário.

Caderno de Anotações, p. 049.

CIRCULAR: As imagens técnicas projetam programas que indicam nosso modo de vivenciar a realidade. Essas imagens não são comparadas ao mundo concreto, de modo que a reação a elas, para que seja uma reação consciente, não pode pautar-se nas reações ao mundo. Reagimos às imagens técnicas de acordo com os suas intenções. “As imagens projetam sentidos sobre nós porque elas são modeladas para o nosso comportamento” (p. 60). Daí o exemplo do espectador do jogo de futebol que é entusiasmado com o jogo mesmo com a evidente possibilidade de que o jogo possa não existir, ser encenado ou qualquer outra espécie de programação (insere-se aí o fato de os jogadores se empolgarem por estarem sendo filmados e esse guardar em filme muda nossa relação com o tempo imaginário-existencial).

As imagens dizem-mostram o que nós queremos que elas digam e mostrem e elas querem que nós queiramos e nós queremos que elas mostrem-se. Isso não é, porém, um círculo fechado, pois essas imagens são alimentadas de fora, por toda a história acumulada, que permite, por exemplo, a ideia de retro. Somente nos últimos anos, somente com as imagens técnicas, é que pudemos experimentar esse modo de relação com a história. Com as imagens técnicas podemos recortar qualquer item histórico-estético como imagem imaginada de uma imagem (ou de uma imagem-informação).

Caderno de Anotações, 16.06.2012, p. 050.

DISPERSAR: As imagens técnicas são superfícies terminais, irradiadas de centros cada vez mais sincronizados entre si. Tal condição social produz indivíduos cada vez mais enclausurados, dissolvem-se os grupos, ou ao menos os grupos estruturados por relações intra-humanas. Um comportamento que tente reativar os chamados “valores” estruturais da sociedade tradicional tende a enxergar o caminho indicado pelas imagens técnicas como uma espécie de decadência. No entanto, a crítica a essa sociedade emergente não poderia ser feita partindo-se do homem reflexivo, e sim das condições técnicas que são dadas e guiam a vivência nesse mundo de imagens de imagens.

Os grupos agora são formados pelo modo de apresentação das imagens, nesse sentido as salas de cinema são, ainda, dos poucos lugares em que reúnem-se várias pessoas para absorver imagens, porém, sem contato intra-humano.

A solidão necessária para a dispersão que a sociedade de superfície, a sociedade pós-histórica pede, é uma solidão que mata a “consciência infeliz”, única consciência (p. 69) e cria, através do “coletivo inconsciente” uma sociedade de pessoas sempre felizes. Até que o tédio desgaste essa estrutura.

A reação a essa nadificação não pode realmente ir contra o nada. Pois tudo que reagir ao espetáculo da superficialidade de modo espetacular somente o alimentará. “O novo engajamento é ‘fenomenológico’: elogio da superfície e da superficialidade” (p. 72).

Caderno de Anotações, p. 051.

PPROGRAMAR: No centro dessa sociedade emergente encontram-se os emissores. Esses emissores não são realmente encontráveis, pois nada encobrem. Apesar de formarem-se de camadas: são software (p. 73). Não há vontade humana que guie essa sociedade, pois todas as decisões estão dentro do programa de uma aparelho. E mesmo que haja vários programas e vários aparelhos, eles tendem a se sobreporem e se comunicarem. Toda essa aparelhagem funciona de modo automático. A dificuldade de aceitar essa condição é a dificuldade de aceitar que o homem perdeu o controle da automação. Esses aparelhos necessitariam ainda de desejos humanos (apertar as teclas aparece aqui então como uma metáfora dos desejos-vontade humana), para efetivarem ações (informativas ou redundantes), porém, esses desejos humanos estariam também programados, como vemos na relação circular do input/output → pergunta-se inevitavelmente se esse seria ainda um “ser humano” no sentido tradicional de humanismo.

As imagens técnicas guiariam a vivência nessa sociedade emergente e pedem elas um comportamento pela superfície, formando um ser humano não-reflexivo,um indivíduo entretido, disperso e solitário. O autor propõe nesse ponto a utopia da “democracia dialógica”, formada a partir da reprogramação dos aparelhos por aqueles que se põe a discutir os aparelhos e os programas (essa discussão seria uma chance de estar “de fora” da programação, mas não de toda a programação).

[17.06.2012]

DIALOGAR: A computação de elementos (informática) une-se a irradiação-transmissão (telecomunicação) para formar o que chamamos de telemática. A telemática não exige que saibamos o que se passa nas “caixas pretas” dos aparelhos, mas apenas que apertemos teclas para a automação funcionar. O objetivo dessa dispersão é a própria entropia que o divertimento superficial traz. Para mudar esse quadro seria necessário o distanciamento desse divertimento e o uso das gadgets para criar verdadeiros diálogos. Enquanto é possível.

Caderno de Anotações, 21.06.2012, p. 054.

BRINCAR: O problema da sociedade telemática é o de como produzir imagens novas (informações novas). O mudo como isso se dá não mais pode ser através da ideia mítica de “criação e criatividade”, mas através do diálogo que trance os fios de probabilidade (realidade virtual) para gerar informações improváveis. Esse diálogo deve ser realizado através do supercérebro (hardware) e da supermente (software). Que são as superestruturas dos atuais processadores cérebro-mente-indivíduo-humano. “A existência humana teria mudado: de homo faber passaríamos a condição de homo ludens” (p. 96). Essa condição é análoga a condição de criação em arte: “Um fazer limitado por regras que são modificadas pelo fazer mesmo”(p. 98). Entende-se que essa seria uma sociedade “livre”, uma sociedade que usaria as gadgets para criar deliberadamente, para fazer aparecer informação nova. Esse fazer aparecer que é próprio da liberdade artística se dá exatamente com a atitude de opor/sobrepor a “rede imaginária” e assim cria nosso mundo do nada concreto e do vazio sem imagem.

Caderno de Anotações, 22.06.2012, p. 055.

CRIAR: Tal re-significação do ato criativo propõe uma sociedade na qual todos sejam artistas. Nesse pensamento social o aparecimento de informações novas se dá pela participação no “jogo”. Duas cabeças jogando geram situação/composição improváveis. Esse aparecimento pelo jogo pode agora ser considerado criação. O criador não é mais aquele “autor” tradicional, pois a sociedade de múltiplas cópias o invalidade. “O jogo futuro fará a concretização da abstração ‘eu’ sob a forma de ‘nós outros” (p. 107).

PREPARAR: O autor coloca que uma informação nova é atingida quando se está preparado para alcança-la. Essa preparação participa do programa que visa ser derrubado para permanecer derrubando-se e emergindo continuamente. Diante do que vimos, a telemática coloca circularmente a visão objetiva (de fora) e a visão subjetiva (de dentro). “Objetivamente, a cosmovisão newtoniana se inscreve no programa da física e se devia realizar em determinado ponto por determinado caso (…) Mas vista a partir de Newton, a preparação longa e penosa para a construção de ponte entre a mecânica e a astronomia visava precisamente destruir o programa da física então vigente…” (p. 114-115).

Caderno de Anotações, p. 056.

Flüsser nos fala da constante luta contra o tédio. As imagens sintetizadas seriam um último esforço para impedir a queda “rumo ao tédio, ao kitsch, ao totalitarismo massificante” (p. 110). Mas Flüsser defende a atitude engajada para com a possibilidade de uma nova consciência nascente das imagens sintéticas e condena o olhar irônico que existe sobre essa questão como se esse olhar fosse pensamento tedioso.

Caderno de Anotações, 28.06.2012, p. 060.

DECIDIR: “O termo ‘eu’ designa nó de informações armazenadas em cérebro humano que recebe e emite informações até se desfazer” (p. 117). Como tomaríamos a decisão de o que deve ser comunicado? Como saberíamos o que é uma informação nova e uma redundante? Flüsser propõe que sobre os fios transmissores e receptores de informação se apresentam filtros: a “crítica” e a “censura”. Os filtros que se assentam sobre os fios seriam a “censura imposta” ou “crítica externa”. Os filtros assentados sobre os nós seriam a “autocensura” ou a “crítica interna”. Tudo que pode passar pelo filtro seria informação nova. No interior da “memória” processam-se dados que são filtrados e emitidos quando informação nova. No mundo pré-visto pelo autor, ao substituírem toda a memória humana por memória artificial, mantendo-se os sensores humanos, haveria situação positiva (p. 120).  A humanidade não precisaria computar os dados, mas apenas filtrá-los no sentido criativo/crítico. Assim poderia ser substituído o juiz pelo processo automatizado, mas para tanto os “valores” devem ser tornados irrelevantes. Aos humanos caberia puramente o “veto”, o dizer não, sendo essa A liberdade. A “instalação” dessa telemática necessitaria de uma metadecisão que deve ser mantida para que se preserve o direito ao veto. “De maneira que, depois da revolução telemática, deixamos de ser censores, mas continuamos tribunos.” (p. 124).

Caderno de Anotações, p. 061.

DOMINAR: A sociedade “cibernética” (arte de pilotar sistema complexo) elimina a autoridade e a administração. Dominados dominam dominados. A pergunta pela sociedade ou pelo significado não existe na sociedade das imagens sintéticas. Não existiria mais distinção entre atividade passiva e atividade ativa, pois não haveria receptores e emissores, mas apenas sonhadores. Nós, sujeitos que processam dados e pulam de abstração em abstraçãonanprocura da concretude, somos os desafortunados da cibernética, pois nos negamos a enxergar que essa NOVA espécie alcançou a liberdade e não há qualquer pessoa produzindo as imagens, que não seja o próprio sonhador.

Caderno de Anotações, p. 062.

ENCOLHER: Flüsser nos fala do interesse pelo encolhimento, o interesse pelo pequeno. As pequenas dimensões se tornaram o que há de melhor e o grandioso (tão aclamado na era moderna) passou a ser desprezível. Onde os sonhos são o concreto, há completo desprezo pela corporeidade. Por ser deixada de lado a corporeidade tende à atrofia. No término do capítulo Flüsser coloca a referência ao perigo do elogio Schopenhaueriano do mundo como representação, sonhos.

MÚSICA DE CÂMARA: Flüsser faz metáfora da música de câmara, na qual os músicos tocam para si mesmos, cada um improvisando dentro da programação do instrumento, realizando música solo em compasso com os outros músicos. Essa metáfora visa construir pensamento anti-schopenhaueriano. Flüsser quer dizer que não haveria mais distinção entre “mundo como vontade” e “mundo como representação”, pois as imagens sintetizadas não representam nada, são tão imateriais quanto a música; imagens técnicas seriam música.

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