O Prazer do Texto

 

 

O Prazer do Texto - Barthes

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[BARTHES, Roland. O prazer do texto. São Paulo: Perspectiva, 2010].

Escrita poética e cheia de referências, do Prazer do texto e do Texto de fruição.

Prazer do texto: lugar e tempo de leitura. Esse prazer pode ser dito: daí vem a crítica.

Texto de fruição: prazer em porções. (significância como o lugar da fruição)

“O texto de prazer não é forçosamente o que relata prazeres, o texto de fruição não é nunca o que conta uma fruição” [p.65].

Pensando na relação de prazeres e de fruição, Barthes nos indica dois tipos de leituras: uma que considera a extensão do texto, mas ignora os jogos de linguagens, salta entre as páginas e outra que não deixa passar nada. Ao texto moderno (texto-limite) convém a segunda leitura, pois lê-lo depressa faz com que o texto se torne opaco.

“… é o próprio ritmo daquilo que se lê e do que não se lê que produz o prazer dos grandes relatos, ter-se-á alguma vez lido Proust, Balzac, Guerra e Paz, palavra por palavra? (Felicidade de Proust: de uma leitura a outra, não saltamos nunca as mesmas passagens)” [p.17].

E podemos ainda pensar em leitura amnésica e de marcação. Ler-reler pontos. Não por uma falta de atenção, mas pela necessidade de pensar (mais que alienar-se na leitura dada), de ler, voltar, pular, mastigar e tentar digerir.

“Estar com quem se ama e pensar em outra coisa: é assim que tenho os meus melhores pensamentos, que invento melhor o que é necessário ao meu trabalho. O mesmo sucede com o texto: ele produz em mim o melhor prazer se consegue fazer-se ouvir indiretamente; se, lendo-o, sou arrastado a levantar muitas vezes a cabeça, a ouvir outra coisa. Não sou necessariamente cativado pelo texto do prazer; pode ser um ato ligeiro, complexo, tênue, quase aturdido: movimento brusco da cabeça, como o de um pássaro que não ouve nada daquilo que nós escutamos, que escuta aquilo que nós não ouvimos.” [p.32].

 “Todo mundo pode testemunhar que o prazer do texto não é seguro: nada nos diz que esse mesmo texto nos agradará uma segunda vez …” [p.62].

Esta semana estive no supermercado a fazer compras com minha mãe. Entre as prateleiras encontrei uma lembrança de infância: geleia de mocotó. Não havia me atentado para sua presença noutras idas, talvez por ignorar sua aparência gelatinosa e brilhante. Comprei uma e voltei feliz para casa, ansiosa para abrir o vidro. Ele ainda era o mesmo! Mesma embalagem, mesmo cheiro, mesma translucidez.. Primeira colherada: “irc!!” (lê-se vendo imagem de uma criança chupando limão galego porque o irmão mais velho disse que era laranja). Segunda parcela reduzida pela metade: “mudaram a receita?!”, terceira e desistência. Trazer ações e gostos do passado não implica a aceitação do corpo do presente. Memórias são construídas no presente e em alguns casos, melhor reconstruí-las do modo como lembramos que revivê-las em ação. Deixemos a memória na memória; coisas da infância são gostosas de lembrar.

Texto quer dizer Tecido; mas, enquanto até aqui esse tecido foi sempre tomado por um produto, por um véu todo acabado, por trás do qual se mantém, mais ou menos oculto, o sentido (a verdade), nós acentuamos agora, no tecido, a ideia gerativa de que o texto se faz, se trabalha através de um entrelaçamento perpétuo; perdido neste tecido – nessa textura – o sujeito se desfaz nele, qual uma aranha que se dissolvesse ela mesma nas secreções construtivas de sua teia. Se gostássemos dos neologismos, poderíamos definir a teoria do texto como uma hifologia (hyphos é o tecido e a teia da aranha).” [pp.74-5].

Sujeito que se constrói no texto, que se encarna numa relação temporal impossível de ser retomada. A cada nova costura e trama entrelaçada, a história se modifica. O sujeito e o texto tornam-se outros, dependem da experiência. Que gosto tem o texto hoje? Não é mais mocotó, talvez cerejas. O que será visto no desvio do olhar por onde escapam novos pensamentos? …

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