[artigo] A Presença do Vazio nas Proposições de Hélio Oiticica

Referência completa: HIPÓLITO, Rrodrigo. A Presença do Vazio nas Proposições de Hélio Oiticica. Revista do Colóquio, n. 4, 122-137.

Resumo: A presente comunicação trata da confluência espectador-obra-autor na arte neoconcreta analisando as proposições de Hélio Oiticica.  Sob a ótica da filosofia negativista de Merleau-Ponty e do “não objeto” de Ferreira Gullar evidencia-se a posição do sujeito fenomenal como gerador de conhecimento intuitivo na experiência com as proposições de Oiticica.

Palavras-chave: Neoconcretismo, Espectador, Oiticica, Sujeito Fenomenal

The presence of the empty in the Proposals of Helio Oiticica

Abstract: This communication deals with the confluence viewer-art work-author in neoconcrete art, analyzing the Hélio Oiticica’s propositions. Under the prism of the Merleau-Ponty‘s negativistic philosophy and of the Ferreira Gullar’s “não-objeto” it’s evident the position of the phenomenal subject as a generator of intuitive knowledge on experience with the Oiticica’s propositions.

Keywords: Neoconcretism, viewer, Oiticica, phenomenal subject.

Esta investigação trata do modo como se dá a relação obra/espectador/autor no processo de Hélio Oiticica, indicando possibilidades de destrinchamento das teorizações do artista nos diálogos/referências este estabelece. A temática conflui com um largo interesse do mundo da arte no estudo das atividades de Oiticica, iniciado após a abertura de seus arquivos nos anos 1980, do trabalho de digitalização e disponibilização de seu acervo de escritos e projetos e agravado pela recente perda de parte deste acervo. [1] Através da profícua produção teórica de Oiticica percebe-se que seus trabalhos extrapolavam a apresentação formal de obras como os Núcleos, Bólides, Parangolés, Penetráveis e Cosmococas, pois seus escritos nos aproximam do Neoconcretismo e da Tropicália, num programa abrangente e complexo.

Após diversas exposições retrospectivas internacionais, realizadas com o empenho do Projeto HO, organização fundada em 1981, a obra plástica e textual do artista passa a ter grande relevância para a história da arte mais recente. Figura-chave para os neoconcretos e para a Tropicália, [2] Oiticica surge hoje como fonte profunda e rica de estudo das passagens para a arte atual. De Parangolé a VIGÍLIA[3] o artista problematiza as posições do espectador, autor e obra. A análise das questões envolvidas nessa problematização dá-se aqui sob a extrapolação da posição contemplativa e na assimilação do sujeito como potencial criador através da atividade de vivência de proposições. Pensadores influentes no período, como é o caso de Merleau-Ponty e sua Fenomenologia da Percepção e Heidegger, com sua “fenomenologia hermenêutica” [4] servirão ao intuito de melhor entender a relação entre a proposição vivencial e o sujeito fenomenal como vivente da proposta.

Essa investigação parte dos escritos dos artistas do período e passa por teóricos direta e indiretamente relacionados ao neoconcreto. Ressalta-se a importância das “cartas” de Oiticica e L. Clark (org. Figueiredo) e dos documentos primários disponibilizados pelo Projeto Hélio Oiticica, contando com diários, cartas, notas para publicações e projetos de obras (manuscritos e datilografados). Indispensáveis são também as formulações do teórico do neoconcreto, Ferreira Gullar, coma Teoria do Não-Objeto e Manifesto Neoconcreto. A análise dos materiais é feita observando-se a coerência entre as conceituações indicadas pelos artistas em suas projeções textuais, a experiência objetiva encontrada nas obras e as observações críticas da época e atuais. Destacam-se ainda estudos empreendidos sobre o campo do Neoconcretismo, destacando os trabalhos de P. Braga (2007) e C. Favaretto (2000).

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Talvez tenha havido um espanto com a abertura dos arquivos de Oiticica [5] e isso justifique o crescente interesse, qualitativo e quantitativo, na produção de textos, livros, análises e obras que vertem de seus trabalhos. É fato que as atividades de Oiticica são recentes e muito será feito até se compreender as mudanças efetivas ocorridas na arte decorrentes dos anos sessenta e setenta. Poderíamos nos voltar para as obras neoconcretas e buscar o ponto no qual o espectador é especificamente atingido. Tal intenção frustrar-se-ia facilmente. Ocorre que o “momento” neoconcreto não pode ser entendido como um fechamento, como fosse um objeto fixo para a observação imparcial. Toda a formação deste “momento” pertence a uma conjuntura complexa.

O Grupo Ruptura, célula mais forte do concretismo paulista, formado em 1952, começa a dissolver-se por volta de 1959, ano da publicação do Manifesto Neoconcreto e da primeira exposição do grupo de mesmo nome. Apesar de não assinar o dito manifesto, Oiticica vincula-se ao Neoconcreto já em sua gênese, participando mesmo da segunda exposição do Grupo Frente (1954). Na década de 1950 os artistas cariocas, entrincheirados na figura de Ivan Serpa, [6] debateram o abstracionismo concretista defendendo a realização individual e a linguagem geométrica como campo experimental, em oposição aos princípios de natureza universal, dedutível arte, que fundamentavam [7] o Grupo Ruptura.

Após a 1º Exposição Nacional de Arte Concreta (1956-57), a dissonância entre os grupos leva ao desquite e sob as palavras de Gullar funda-se o Movimento Neoconcreto. Com a primeira exposição no MAM/RJ e a publicação de seu manifesto no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil (1959), os neoconcretos retificam a oposição ao racionalismo na arte e defendem as possibilidades expressiva e experimental. O grupo realizou mostras, textos e debates até 1961, quando se inicia sua dissolução.[8] No caso de Oiticica, suas criações mudam o foco após o contato com o samba e a favela,[9] valorizando a corporeidade e uma condição marginal [10] que melhor serviam as suas intenções experimentais.

Quando se tenta apreender as realizações de artistas como Oiticica e Clark, após o “momento” neoconcreto, percebe-se que ao libertarem a obra de arte para a condição espacial, pedem um posicionamento ativo do espectador e a quebra da dicotomia sujeito/objeto. Caminhando pelo experimental e com a condição da obra na experiência do indivíduo, não há na arte neoconcreta e pós-neoconcreta uma fixidez que permita excluir os processos individuais dos artistas. Temos nas décadas de 1960-70 uma constante e incerta metamorfose e um sentido de transitividade não comportado num tratamento generalista. Essas complexidade e fugacidade podem ser notadas nas “cartas” (FIGUEIREDO, 1996) de Oiticica e Clark. Numa mistura de (i) teorização sobre as próprias obras e as do outro, [11] (ii) descrições de procedimentos experimentais que surgiam de última hora, [12] (iii) críticas ao sistema de arte, a cenário político do país, a recepção dos trabalhos e (iv) casos pessoais, desentendimentos com galeristas, desânimos e descobertas, as “cartas” demonstram o nível de comprometimento destes artistas. Dentro desse arquivo as possibilidades de contradição e autorrevisão são constantes. [13] As afirmações feitas soam muitas vezes categóricas, certeiras e impulsionadas por um idealismo difícil de ser quebrado, mas isso não anula a condição autocrítica. As opiniões são pontos acumulados ou retirados de acordo com traçado de construção do “novo”.

Algumas conjecturas e autores são basais para se tratar de Oiticica e neoconcretismo. O não-objeto (GULLAR, 2007) foi referência para as construções desses artistas e partiu mesmo de suas realizações. [14] A construção diagramática de Krauss [15] focando as transformações no campo da escultura, embora escrita em 1979, diz respeito aos anos 1960, período de extrapolação da obra contemplativa, e então, talvez, os trabalhos de Oiticica e Clark sejam exemplos diretos desse campo ampliado. E não seria possível tratar destes artistas, movimentos, período, trajetórias, sem ter em vista continuamente a “abertura da obra” e a inevitável revisão da ideia de espectador que essa abertura traz. [16]

Vaguear pelas realizações, manifestações e estudos da área abre uma gama vasta para a investigação, mas a extensão de tratamento que tais conceitos (não-objeto, campo ampliado, obra-aberta, proposição vivencial) carreiam, torna-se incômoda ao se lidar com especificidades e pessoalidades das práticas desses artistas. Não sendo possível um tratamento generalista e tão pouco o fácil acesso a arquivos vastos e detalhados de todas as personagens do período, o nome de Oiticica forma uma base de trabalho segura, intensificada com a exploração dos documentos presentes no Programa HO. [17] O nome de Oiticica funda-se como referência por sua aguçada percepção e capacidade de “dizer seu tempo”. Ao colocar sua vontade de construção em direção ao novo dentro de uma ideia maior de Programa (BRAGA, 2010, p. 130), Oiticica deixa bem amarrado todo seu processo, mesmo aquilo que ainda estava por construir. Oiticica (1986, p. 55) afirma o novo sentido de construtividade: [18] construtivas seriam as elaborações que não se pautam no deslocamento do objeto físico para o campo da representação, mas sim na transfiguração dos elementos plásticos num ato de construção, o qual convoca o espectador para o seu próprio espaço/tempo. Segundo Oiticica [19] os Bólides foram obras-objetos componentes da etapa estrutural que culmina nas capas de Parangolé e nos projetos ambientais, como Tropicália e Éden. Tem-se mesmo um salto da contemplação para a vivência de proposições. A “tendência para o objeto ao ser negado e superado o quadro” (OITICICA, 1986, p. 86) atira a obra para o espaço. O objeto no espaço traz a consciência de algo caro para a arte neoconcreta: o ambiente. Tal tomada de consciência do ambiente é creditada em larga escala as pesquisas minimalista. Mas, o passo seguinte está no neoconcretismo. [20] O objeto-obra, retirado da posição aurática de pintura/escultura presentifica-se para o espectador. Porém, ressaltar a importância do participador em nada diminui a do propositor. A manutenção necessária do propositor coloca o “objeto” como indicação para a experiência, um script (SILVA, 2007, p. 87). O reposicionamento de artista/obra/público cambia a produção de Oiticica para a condição de “proposição vivencial”. Mas, passar a trajetória de Oiticica de modo tão brusco é algo arriscado, dada a complexidade do desenvolvimento de sua obra. É importante pensar a questão vivencial para conectá-la com a virada em direção à experiência do presente em detrimento contemplação.

No caminho do entendimento da experiência nas proposições do artista buscam-se recursos teóricos nas páginas de A Fenomenologia da Percepção, Conversas e O Olho e o Espírito, tendo em vista a influência das conjecturas de Merleau-Ponty na formação de Oiticica. Nesta investigação o volume O visível e o invisível (MERLEAU-PONTY, 2007) mostra-se fundamental para compreender a filosofia de Merleau-Ponty. Trata-se de uma publicação póstuma, uma reunião e edição de quantidade considerável de manuscritos para o projeto “A Origem da Verdade”, como apontam os editores no prefácio, o livro apresenta a situação da fenomenologia de Merleau-Ponty até aquele momento e por essa razão permite entrever o estado das coisas nos anos sessenta (o filósofo morre em 1961). Aparece no livro o embate com a ontologia do ser, de Sartre, e é tomado partido por uma filosofia da negatividade. “Na descrição de Merleau-Ponty, ‘o invisível está sem ser objeto’, a tal ponto que os visíveis, no final das contas, estão ‘centrados nesse núcleo de ausência” (MOUTINHO, 2004, p. 16). Essa filosofia desemboca na pergunta pela relação do não-ser com o ser (SILVA, 2005, p. 7), isto é, na pergunta pelo outro que é para mim de modo que o eu possa ser para o outro: como percebo enquanto sou percebido?

Nossa relação com o ”mundo físico” depende do corpo para concretizar-se, mas nossos sentidos não são propriamente o corpo físico, ou melhor, o corpo não é propriamente nossos sentidos. A percepção depende do corpo para existir (acontecer), mas após haver percepção o corpo apaga-se e permanece a relação criada entre o sentir e o pensar. Atinge-se, então, a questão do “campo fenomenal” com vistas para o fato de que, o sujeito atenta para as coisas na dependência do modo com que trava contato com elas: o como é a questão. Por ser o fenômeno uma manifestação do em si, da coisa no mundo, para essa consciência, que aparenta (mesmo que não seja) apartada da matéria, é que a “fenomenologia é uma fenomenologia, quer dizer, estuda a aparição do ser para a consciência, em lugar de supor a sua possibilidade previamente dada” (MERLEAU-PONTY, 1999, p. 96).

Ante as conjecturas de Merleau-Ponty o espectador pode ser encarado como o “sujeito fenomenal”, mesmo que tais palavras não apareçam nos textos de Oiticica aqui considerados. Falar em “sujeito fenomenal” é dar importância para o comportamento dentro das propostas, conceituais e materiais de Oiticica. Para explorar a arte focada no comportamento Oiticica forja crebehaviour (comportamento criativo) e tomando o tipo de experiência proporcionada por Tropicália e Éden, trabalha os conceitos de Supra-sensorial e Crelazer. “A proposição do Crelazer absorve as ideias do Supra-sensorial e do Probjeto, [21] incorporando-as numa concepção de vida-arte: atividade não-repressiva em que arte e mesmo antiarte nada significam (…) importa ‘viver o Crelazer” (FAVARETTO, 2000, p. 185). Com o Supra-sensorial, Oiticica visa a abertura da percepção do indivíduo como meio de revelação do potencial criativo interior. Para tanto, propõe a criação de ambientes e situações que possam estimular todos os sentidos do participante. No entanto, tal estímulo seria não incisivo, mas marcado como uma atividade de lazer/prazer, i.é, de desinteresse e espontaneidade capazes de liberar o poder criador. Encontra-se no quinhão de lazer/prazer o conceito de crelazer.

A Presença do Vazio como Mote das Proposições de Oiticica mostra-se no curso da tentativa de localização deste “sujeito fenomenal” capaz da livre criação propiciada pelo Suprasensorial e realizada no Crelazer. Essa abertura para a experiência fenomenal é consonante com as ideias de Merleau-Ponty sobre a percepção. Perceber-se-ia o outro através de uma constante negação do nada por parte do ser, posto na condição de não-ser. Tal formulação não é praticável por uma filosofia reflexiva, mas sim por uma filosofia negativista que tome como base o que o autor chama de nega-intuição. [22] Mas (e o filósofo não ignora isso) é difícil cogitar a existência de um Eu e a concepção de um “mundo meu” excluindo o olhar externo (nada = negação da negação que se mantenha negativo = não-ideia, impraticável pelo pensamento, mas não pela intuição, ou uma nega-intuição, uma intuição dentro da intuição). É a dependência de um “ponto outro”, mesmo que esse, em última análise surja do “ponto eu”, que se tem a referência para o existir, ser e não-ser habitam a mesma origem. Essa vivência nega­-intuitiva, modo pelo qual atingimos o ato de perceber, é encontrada nas proposições de Oiticica. Uma indicação bastante simples da impossibilidade de dispor dos trabalhos de Oiticica através de uma filosofia reflexionante, i.é, de uma exterioridade primeira, encontra-se no limite do registro: mostrar fotos e vídeos pouco diz destes trabalhos. É impraticável administrar um saber a respeito de ambientes-situações, que não seja na experiência temporal. Criar com o ato de perceber, livre de condicionamento, sem cair no solipsismo, é a possibilidade aberta pelas proposições vivencias.

Esse contato criador se dá no ato da decisão. A resposta (ato) abre o campo de experienciação e assim cria a obra: não há como o trabalho aparecer sem a entrega do sujeito ativo que só atua na disponibilidade do trabalho; tudo isso se funda na realização (tornar real) da linguagem. Essa retomada da verdade e do sujeito ativo é posta na arte com a passagem da contemplação para a participação. E o espaço de atuação do sujeito ativo é mesmo o vazio deixado pelo quebra do sistema autor-obra-espectador. Trata-se de um vazio contrário à ideia niilista de ausência concreta, é o nada de Heidegger [23] e a direção da filosofia negativista de Merleau-Ponty: o nada como plenitude de possibilidades. Em Experiência Whitechapel (1969), p.ex., vê-se a proposição vivencial como obra, na qual o contato direto com o conteúdo objetivo define uma abertura para a apreensão e criação por conta do agente da experiência. Nas ideias de Merleau-Ponty [24] da intuição como conhecimento pareado a reflexão é possível uma aproximação do modo como se relacionam autor, espectador e obra nas proposições vivenciais de Oiticica.

O propositor é aquele que sintetiza questões formais e conceituais e as presentifica para a experienciação intuitiva por parte do sujeito fenomenal. A ideia de coisa presentificada encontra-se já na Teoria do Não Objeto de Gullar (2007). O não-objeto seria como uma presentação: coloca-se como representação de si mesmo e depende da percepção para revelar-se em seu sentido próprio. O não-objeto deixa as camadas de representação e contemplação, próprias do objeto-arte, indicadas por Gullar como opacidade, para demonstrar de maneira transparente a sua presença como significado sensível de si mesmo.

Oiticica concorda com Gullar em “Esquema Geral da Nova Objetividade” (o que Gullar chama de “morte da pintura”, nas conversas de Oiticica e Clark aparece como “crise do quadro”). “(…) No movimento neoconcreto dá-se essa formulação (desintegração do quadro) pela primeira vez (…) e também a proposição de poemas-objetos (Gullar, Jardim, Pape), que culminaram na teoria do não-objeto” (OITICICA apud SOLEDAR, 2008, pp. 4-5).

Para a construção da proposição o autor conjuga os aspectos formais e conceituais numa projeção. Dispondo o não-objeto numa condição de “convite para a atividade” Gullar traz o espectador para a formação de um conhecimento sensorial, não refletido, i.é, intuitivo. O “descondicionamento” [25] necessário para essa experiência é conceituado por Oiticica através do Suprasensorial. Já no interior da proposição o sujeito fenomenal, o indivíduo descondicionado estaria imerso num ambiente de potencialização criativa, [26] compreendido no Crelazer. Esta estrutura, inevitavelmente processual, pode ser compreendida como o “trabalho”, ou a obra.

Entende-se então que a reflexão não é dispensada da proposição vivencial, pelo contrário, é convidada a congregar da experiência fenomenal. É na atividade, no fazer-se ativo, que o sujeito fenomenal realiza sua posição de consciência com livre criação. Ao aceitar o convite e vivenciar a obra o sujeito retifica sua posição existencial, pois para a realidade humana “ser é agir e deixar de ser é deixar de agir” (SARTRE, 2002, 587). Tal retificação do sujeito livre e criativo se dá sobre um fundo nadificado, a proposição. O trabalho de Oiticica só passa a ser após a tomada de posição do participador e é para esse sujeito ativo que a obra existe. A existência da obra de arte em Oiticica tem seu horizonte no tempo vivencial do sujeito fenomenal. A proposição vivencial pode mesmo ser encarada como o próprio vazio no qual é inserido o indivíduo e sobre o qual pode surgir a livre criação. Oiticica constrói o “lugar” do sujeito ativo quando propõe a ideia parangolé (1964), pois nesse caso a obra acontece na e através da ação do sujeito inserido na capa. Tropicália (1967) é a expansão desta abertura para a inserção do sujeito, quando a obra é toda atividade dentro do ambiente: pisar a areia, adentrar cada nicho, ver a passagem de luz entre os tecidos, a cor verde. Já ao instalar os Ninhos no Loft 4, Second Avenue, Manhattan, o artista cria uma conjunção arte-vida que extrapola o sentido de instalação e “ambiente”. [27] Nesses “trabalhos”, dos quais talvez a Experiência Whitechapel seja o exemplo mais bem sucedido (posto que diversas propostas de Oiticica não foram realizadas), a obra acontece enquanto o sujeito encontra-se presente e nenhuma câmera poderia capta-la, que não fosse a própria consciência (corporal) do sujeito ativo. Finda a experiência, a obra pode viver na memória dos que a vivenciaram, mas jamais poderá ser transmitida (foto e vídeo) ou mesmo completamente descrita. A obra é a experiência do experimental. A aceitação da proposta engendrada pelo autor, por parte do espectador, pode colocar o sujeito no centro da obra, pois é um espaço de nulidade, de nadificação, no qual a existência do sujeito encontra-se suspensa [28] numa abertura de possibilidades. Heidegger relaciona essa suspensão com a liberdade (HEIDEGGER, 1979, p. 41), pois é no nada que se configura o completo aberto de possibilidades para o ente. “É o fato de se manter, previamente, suspenso dentro do nada que permite ao ser-aí humano a possibilidade de transcender.” (GOMES, 2010, p. 273). O indivíduo suspenso no descondicionamento através do Suprasensorial e do Crelazer é o sujeito aberto para o vazio nadificador, para o próprio aberto de possibilidades criativas. “A essência do ser humano acha-se suspensa na liberdade” (SARTRE, 2002, p.68).

 

Referências

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[1] Em 16 de Outubro de 2009 cerca de 90% das obras de Hélio Oiticica foram destruídas num incêndio.

[2] “Foram as formulações teóricas dos neoconcretos, do Cinema Novo, da poesia concreta e do teatro engajado, somadas às diretrizes colocadas no texto do “Esquema Geral da Nova Objetividade” e à montagem de Tropicália, essas duas últimas realizadas por Hélio Oiticica, que culminaram no Tropicalismo.” (JEZZINI, 2011,p. 22-23).

[3] Em anotações do diário 2, de 1973, Oiticica discorre a respeito de um estado entre o sono e o estar acordado, ao qual nomeia de “vigília”, proposição que intentava enviar a Silviano Santiago para ser feita no Rio de Janeiro. (cf. OITICICA, Helio. ntbk 2/73 pg. 105-108).

[4] Cf. HEIDEGGER, M. Ontologia (Hermenêutica da Facticidade). Petrópolis: Vozes, 2012.

[5] Principalmente em relação à variedade de modos dessa produção textual, como de início aponta Frederico Coelho (2010, p. 13).

[6] “No Rio de Janeiro o que fortaleceu realmente o grupo [Frente] foi o MAM, porque todo mundo começou a frequentar o museu. O Ivan Serpa era professor e começou a criar turmas e mais turmas. Uma geração toda de artistas passou pelo Ivan aqui no Rio de Janeiro.” (PAPE apud VENÂNCIO FILHO, 1998)

[7] “Alinhando a pura visualidade com o compromisso de fundamentar historicamente a evolução das categorias visuais, a singularidade do concretismo brasileiro e, particularmente, de Cordeiro, deve ser imputada à associação inusitada de Fiedler, Gramsci e teoria da Gestalt: arte como objeto, portanto conhecimento sensível fundado na experiência direta e voltado à pedagogia do olhar, entendidos a ação cul tural como fato político e o intelectual como agente persuasivo a produzir valores endereçados à transformação das concepções de mundo das massas.” (MEDEIROS, 2007, p. 74-75).

[8] Após esta data os caminhos tomados pelos ex-integrantes do grupo são os mais variados, do desenvolvimento da poesia de cordel e trabalhos com o Centro de Cultura Popular da União Nacional dos Estudantes (CPC-UNE) por Ferreira Gullar, eleito presidente do CPC em 1962, ao desenvolvimento dos Objetos Relacionais cambiando para a arte-terapia, por Lygia Clark.

[9] No texto “Como cheguei a Mangueira”, Oiticica descreve seu contato inicial com o samba e seu desejo de “participar do samba, do seu ritmo, do seu mito”. Nesse relato, escrito em meados dos anos 1960, e no qual ainda se denomina “jovem pintor”, Oiticica revela que retribuía as aulas de samba que recebia de seus amigos da Mangueira com aulas de pintura, e ressalta os aspectos arcaicos e míticos que encontrou no morro…” (BRAGA, 2007, 159) O referido texto não possui datação, mas por suas referências foi escrito após a invenção do “parangolé” e deste modo certamente é posterior a 1964.

[10] “não se trata da gratuidade marginal ou de querer ser marginal a força, mas sim colocar no sentido social bem claro a posição do criador, que não só denuncia uma sociedade alienada de si mesma mas propõe, por uma posição permanentemente critica, a desmistificação dos mitos da classe dominante, das forcas de repressão, que alem da repressão natural, individual, inerente a psichê de cada um, são a ´mais-repressão´ e tudo o que envolve a necessidade da manutenção dessa mais-repressão.” (CLARK, 1996, p. 74-75).

[11] “Creio que aquele plástico seu, lembra-se, sem nada, para desenhar com a mão, ou o Respire Comigo tinham esse sentido, que adoro e considero atualíssimo. Mas não quero mesmo objeto, que contradição!” (OITICICA, 1996, p. 52).

[12] “(…) só duas camadas de plástico, as pessoas entram entre as pernas dos que suportam a estrutura e recebem choques que o movimento do plástico que é elétrico… Não sabia mas descobrimos no ato de habitá-la” (CLARK, 1996, p. 153).

[13] “Acho que agora somos os propositores e, através da proposição, deve existir um pensamento, e quando o espectador expressa essa proposição ele na realidade está juntando a característica de uma obra de arte de todos os tempos: pensamento e expressão (…) Aliás, penso que agora estou propondo o mesmo tipo de problema, que antes ainda era através do objeto: o vazio pleno, a forma e o seu próprio espaço, a organicidade… (…) Cada vez mais a frase do Pedrosa funciona para o meu trabalho: ‘O homem objeto de si mesmo” (CLARK, 1996, p. 86),

[14] Após contar como cunhou o termo não-objeto no momento da apresentação de um contra-relevo de Clark, Ferreira Gullar continua: “O não-objeto nasce, portanto, do abandono do espaço virtual (ou fictício) e da ação pictórica (metafórica) para o artista agir diretamente sobre a tela (o quadro) como objeto material, como coisa. Esta ação do artista se transfere ao espectador que passa a manipular a obra nova – o não-objeto – em lugar de apenas contemplá-la” (GULLAR, 2007, p. 46).

[15] No texto Escultura no Campo Ampliado, publicado originalmente em 1979, Rosalind Krauss constrói um sistema de pares opostos em diagrama para demonstrar o modo como as obras (esculturas) passam a construir-se transpassando categorias. “Krauss procura localizar o espaço lógico ocupado pela escultura a partir das seguintes oposições: paisagem/arquitetura, não-paisagem/não-arquitetura, escultura/local-construção, locais demarcados/estruturas axiomáticas.” (BASBAUM, 2007, p. 143).

[16] Umberto Eco, em A Obra Aberta, pensa a obra num sentido de vastidão interpretativa, em que a experiência do espectador é que o guiaria para fruir desta ou daquela maneira. Baseando-se inicialmente em Stockhausen, Mallarmé e Calder. Eco dirá que ambiguidade e a auto-reflexibilidade seriam características das obras de arte de maneira geral, de modo que toda a obra estaria sujeita, assim como possibilitaria um variado número de interpretações, sendo que estas não destituiriam a obra de sua originalidade, pois não alterariam sua condição de irreprodutibilidade conceitual.

[17] <http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia/ho/home/dsp_home.cfm&gt;

[18] “Considero, pois construtivo os artistas que fundem novas relações estruturais, na pintura (cor) e na escultura, e abrem novos sentidos de espaço e tempo. São os construtores, construtores da estrutura, da cor, do espaço e do tempo, os que acrescentam novas visões e modificam a maneira de ver e sentir, portanto os que abrem novos rumos na sensibilidade contemporânea, os que aspiram a uma hierarquia espiritual da construtividade da arte”. (OITICICA, 1986, p. 55.)

[19] OITICICA, Programa HO, nº 101/77, 1977.

[20] “Se a arte minimalista busca ser apenas presença material abolindo tudo o que não possa ser observado física e empiricamente, a arte neoconcreta, diferentemente, vai além do objeto, é “metafísica” e tira o foco da presença material ao utilizar o objeto como instrumento para despertar a criatividade do espectador.” (SOLFA, 2005, p. 68).

[21] “Creio que já superei o ‘dar algo’ para participar; estou além da ‘obra aberta’ (…) prefiro o conceito de Rogério Duarte, de probjeto, no qual o objeto não existe como alvo participativo, mas o ‘processo’, a ‘possibilidade’ infinita no processo, a ‘proposição’ individual em cada possibilidade”. (AYALA, 1970, p. 163).

[22] “No fim, portanto, uma filosofia rigorosa de nega-intuição explica os mundos privados sem fechar-nos neles: não há propriamente intermundos, cada um habita apenas o seu, vê unicamente segundo seu ponto de vista e entra no ser apenas por meio de sua situação; mas porque [ele] não é nada[,] e sua relação com sua situação e seu corpo é uma relação de ser, sua situação, seu corpo, seus pensamentos, não interpõem uma tela entre ele e o mundo; são, ao contrário, o veículo de uma relação com o ser, na qual terceiros podem intervir.” (MERLEAU-PONTY, 2007, p. 68).

[23] Em Introdução a Metafísica Heidegger parte da pergunta “porque há simplesmente o ente e não antes o nada?” (HEIDEGGER, 1987, p. 33), mas é em Que é Metafísica? que o autor desenvolve a questão a respeito do “nada”. Encontrar-se no nada é uma das características do modo de ser do ser humano, pois ao encontrar-se no nada o ser humano pode contrapor-se ao ente em sua concepção mais ampla. “Suspendendo-se dentro do nada o ser-aí já sempre está além do ente em sua totalidade. Este estar além do ente designamos a transcendência”. (HEIDEGGER, 1979, p. 41).

[24] “… e que o pensamento formal vive do pensamento intuitivo. Ela desvela os axiomas não-formulados sobre os quais se diz que o raciocínio repousa, parece que ela lhe traz um acréscimo de rigor e que põe a nu os fundamentos de nossa certeza, mas na realidade o lugar em que a certeza se forma e em que uma verdade aparece é sempre o pensamento intuitivo…” (MERLEAU-PONTY, 1999, p. 515).

[25] Cf. OITICICA, Hélio. “A Busca do Suprasensorial”, 1967. Programa HO, 0192/67-8/9.

[26] Cf. OITICICA, Hélio. “A obra, seu carater objetal, o comportamento”, 1986, p. 118-122.

[27] “O loft aqui está ficando legal: construí seis Ninhos para viver; também um troço que tem dois níveis, e por onde se entra para o de baixo, por cima; Mário ficou louco, pois quando queria falar ao telefone tinha que subir na tal plataforma; embaixo dela fica como um subterrâneo, ou porãozinho, e tem um lugar que se tem que rastejar para chegar, está tudo no começo, mas quero criar um lugar tão complicado-complexo que seja um mundo, sem móveis e essa coisa chata de apartamento, etc. (…)” (OITICICA, 1996, p. 199-200).

[28] Cf. CAMPOS, 2005.

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Um pensamento sobre “[artigo] A Presença do Vazio nas Proposições de Hélio Oiticica

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