Dobradura Crônica

21.02.2013

O corpo fatigava quase adormecido enquanto o relógio insistia na lenta caminhada. Os livros já devorados eram lembranças tormentosas da impossibilidade de uma leitura companheira à beira da cama. Olhar cada ponto gravado na parede branca tornara-se entediante. A vontade de ler me trazia repentes schopenhauerianos em alta voz: “vá escrever, oras!”

A dúvida permanecia enquanto o corpo começava a se entediar de seus próprios pensamentos. Além da parede branca e do tédio, o pequeno quarto me fornecia um colchão e travesseiro ao chão e uma caneta que estava comigo há um tempo sem grande utilidade (porque as paredes não eram minhas).

Como última tentativa de esperar os ponteiros pedi à moça do quarto ao lado uma folha de papel. Maravilhei-me quando ela me trouxe 6 longas folhas brancas sem as chatas linhas enclausuradoras de meu desenho. Letras estranhas e indecisas nunca foram boas vizinhas de linhas delineadas e coerentes.

Andando de volta ao pequeno quarto consegui sentir a textura macia da folha e quase alcancei seu cheiro.

Deitada sobre o colchão, apoiando a folha sobre o médico e o monstro recentemente vasculhado, tive uma sensação de prazer indescritível. Sobre o pequeno livro a folha parecia gigantesca. Dobrei-a ao meio, arranhando suas curvas fortemente com a unha (quase um suspiro inesperado). E veio o rasgo. Força no limite para não feri-la fora da marca, mas grosseira para permitir expor suas entranhas. Desníveis tão particulares que nenhum estilete ou tesoura entenderiam.

Feita a divisão, uma das partes foi reservada e a outra estudada rapidamente. Não era ainda menor que a capa do livro. Metade de seu corpo estava pendente, exigindo uma nova dobra. Como bifólio coube perfeitamente.

Na vontade de dobrá-la mais uma vez (e quem sabe depois um pouco mais) sem objetivo para a escrita que compreendi o que acabara de acontecer. Em nenhum momento, após vencer a dúvida, a escrita era um objetivo. Desde que encostei naquele pequeno maço de folhas só conseguia pensar nelas. Poderia dizer que foi como encontrar um amigo querido já distante. Provavelmente não pensei nisso antes por soar piegas demais a um corpo cansado.

Inevitável o pensamento seguinte a esta conclusão: as folhas podiam ser coloridas e vibrantes.

Obvia a dificuldade em traduzir esta situação… Mas era saudade de meus barquinhos.

Os barquinhos coloridos já tinham ultrapassado o limiar do corriqueiro para uma posse talvez compulsiva e exigente. Não chego a dizer de modo negativo e doentio, apenas saudosista em sua ausência. Porque não foi um ato corriqueiro de compor um ou dez barquinhos. Dentro daquilo que pensamos como produção de arte, os 1980 barquinhos  invadiram minha vida de modo que precisava lembrar constantemente de sua existência. Muito mais que apenas dobras em um papel. Todo o ritmo da feitura, de cada dobra, de cada medida errada e em seguida consertada, ate mesmo a dor nos braços,  e tudo o que estava ao entorno do processo deixou-me marcada.

Tenho particular apresso por esta palavra: marcar / conferir uma marca. Não é uma questão de nome, de produto, mas de uma ação feita sobre um corpo. Como marcas cromáticas em um quadro, como centenas de marcas coloridas flutuantes.

Até o momento deste último ranger da folha eu não havia percebido que entre cada rasgo e dobra, eu que era marcada. A quantidade e rapidez na produção às vezes me impressionavam, mas os números tornaram-se insignificantes diante do modo com que o tempo era absorvido em um processo irreversível.

No pequeno quarto semi vazio e diante da folha rasgada e dobrada na qual escrevo, sinto a presença das caixas com barquinhos empilhados transbordando aos poucos neste piso incômodo.

Como um amante inconformado e distante, senti falta de tudo o que nos rodeava. Não apenas o processo que poderia a outros parecer mecânico, mas das conversas desprendidas com os observadores, e mesmo com aqueles que não resistiam a experiência e teciam suas próprias marcas. Da música que nos acompanhava, dos mimos televisivos. Saudades do entorno movimentado.

As poucas vezes que nos encontramos a sós fez o semblante pesar e tudo o que de mais profundo e escondido ser cavado em pensamentos. Uma imersão que raramente nos permitimos. Momentos em que percebi a mão, a folha e a dobra. E que permite hoje sentir saudades de barquinhos.

Pois bem, querido Schopenhauer, eis que os ponteiros me deixaram para trás. Agora sim, um corpo cansado e feliz pode repousar entre imagens empilhadas e coloridas.

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