Agradecimento Egoísta


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 06.05.2013

            Em conversa recente com um Vinícius de Moraes amigo meu, lembrei-me por instantes de como era ver um céu limpo e estrelado de verdade. Nem mesmo é possível imaginar o céu com as luzes da cidade. Ainda assim, possuo razões práticas para crer que a fantasia do relento é proveitosa como o vento. Algo na nova vista de minha janela condiz com essa crença.

            Um doutor medievalista disse semanas atrás que “crer” não é um verbo acadêmico. Em conversa durante o café da tarde com conhecidos percebemos que todo o pensamento encerra uma crença, do contrário não poderia ser hipótese. Sem hipótese não seria um pensamento de verdade, pois não possuiria caminho, destino ou lógica. Acredito em algo, mesmo que seja no fato de que penso.

            Creio num mar de estrelas aprofundando-se indecifrável por esse céu preto chapado que vejo através de minha nova janela. É uma janela ampla. Além do céu com algumas estrelas permissivas, vejo também um modesto monte. Cinquenta, sessenta metros de distância. A elevação é coberta de árvores de verdade, não árvores plantadas para fingirem boa vontade. Árvores meio grandes e variadas que disputam água, terra, sol e ar. Não é uma mata exagerada, mas apreciável. Não sei o nome do proprietário, mas uma amiga me conta ser área particular e não comerciável. Ao que parece o dono recebera proposta de grande quantia para ceder sua reserva e negara-se sem brecha para negociações. Dizia ele que é bom ter um tanto de verde em sua cidade.

            Então, por conta desse dono de terras, hoje durmo sob um céu na medida do possível estrelado e na vizinhança de árvores que representam uma vontade pessoal. Abomino os ambientalistas, pessoas iludidas por seu próprio medo, que escondem sua falta de perspectiva individual atirando o Presente para a canalha das gerações futuras. Pensar no mundo é abocanhar o fim. O contrário disso é grotesco. Se agradeço o dono dessas terras não é por qualquer imponderável justiça ou benfeitoria universal, mas sim de modo egoísta. Não pretendo que todos tenham árvores, tampouco que sejam mesmo da cidade inteira. Fossem as árvores uma posse de todos, ou das futuras gerações, já estariam postas ao chão.

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            Basta-me a visão das copas a se acariciarem, o farfalhar nada exagerado das folhas, com o vento comprimido entre duas montanhas e um ou outro grito de ave que desconheço. Não intento aproximar-me mais. Sei que a terra é barro, as aranhas dominam as folhas secas, as formigas são vermelhas, há calor e umidade e os mosquitos são emissários de Satã. Contento-me feliz com o quadro que se forma magicamente em minha parede.

            Uma das impressões mais absurdas que o antagonismo cidade/campo me causa ao recortar esse monte de árvores é a de viajar. Acostumei-me a ver florestas pela janela dos veículos no trajeto entre um município e outro, notadamente entre a grande área urbanizada e os pequenos núcleos citadinos do “interior”. Agora a mesma eterna margem da estrada encontra-se enquadrada e independente do movimento do automóvel.

            Há algo de vulgar nessas impressões. Algo que não determino tão bem, mas que está relacionado com a retificação da ordem sob meu domínio. O meu oposto faz de meu mundo ainda mais meu.

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