Guerra invisível, ou o “Fantástico Mundo do LOB”

Ilustração de Edward Gorey para a edição de 1960 de "Guerra dos Mundos", de Hebert George Wells.

Ilustração de Edward Gorey para a edição de 1960 de “Guerra dos Mundos”, de Herbert George Wells.

Eis o mundo em que todos os cidadãos podem disparar seu tiro particular em Francisco Ferdinando sem que o exército mova sequer a ponta da bota.

A primeira vez que li o termo “guerra invisível” com a conotação de “crise econômico-energética” foi, provavelmente, em 2007. Era um texto de parágrafos mal recortados, truncado e com deficiências estilísticas irremediáveis. Ainda assim, apontava para a principal preocupação das grandes potências militares desde o aumento do atrito com as nações do médio oriente em 1973. Na época, tornou-se evidente que de pouco ou nada adiantaria enfrentar o risco de aquecer as disputas EUA/URSS. A única solução possível seria um extenso trabalho diplomático que retirasse a economia das mãos das empresas fortemente ligadas a governamentabilidade oriental, para somente então promover um combate asséptico.

Tal assepsia, costumeiramente reduzida à primeira agulhada (Guerra do Golfo), em verdade estende-se até nossos dias. Tolos são aqueles que ainda debatem sobre a Democracia, o Capitalismo, o Socialismo, o Partidarismo e os Contratos Sociais. O Estado, como descrito nos livros, já não existe há bastante tempo. As grandes economias, com seus representantes diplomáticos máximos, como Putin e Obama, empenham-se em garantir os últimos potes de um mel seco e triste.

O que Moniz Bandeira descreve em “A Segunda Guerra Fria” (Civilização Brasileira, 2013) são as consequências políticas do desejo desesperado pelas reservas energéticas ainda exploráveis no planeta. Todas as ditas “revoluções coloridas”, como a Georgia Rosa (2003), Quirquistão Lilás (2005), Ucrânia Laranja (2004), assim como as “primaveras árabes”, representam intervenções empresariais do eixo de negócios norte-americano.

A grande disputa entre EUA, Rússia e China não pode matar seus possíveis hospedeiros, porém, também não pode deixar que sejam infectados por seus rivais. Esses três grandes eixos financeiros têm conseguido, por estratégias distintas, expandir-se e sobreviver.

O eixo financeiro norte-americano seria o mais vulnerável dos três. Enquanto a Rússia torna seu bloco mais massivo, ao sintetizar vias e dominar fluxos energéticos, a China já tornou boa parte do planeta dependente de sua estrutura de produção de componentes (além do competente domínio das informações estratégicas de outras nações). Os norte-americanos, por outro lado, procuraram acercar-se do primeiro degrau da exploração energética. Essa estratégia, no entanto, não é tão frágil quanto parece.

Para compreender os nós da diplomacia dos três eixos financeiros é necessário estar atento aos enganos propagandeados como verdades. O trabalho de subversão e maquiagem dos norte-americanos é fabuloso: enfraqueça uma economia afincada sobre um poço energético criando rachaduras em sua estrutura comunitária, que sejam ratificadas pela opinião internacional, desse modo, serão necessárias intervenções visíveis mínimas.

Agências como National Endowment for Democracy (NED), CIA, a United States Agency for Cooperation International (USAID) ou Open Society Foundations (OSF) são siglas costumeiramente citadas com relação à crise ucraniana, mas pouco vinculadas a sua realidade prática. Todas essas agencias, ligadas ao eixo financeiro norte-americano encontravam-se fortemente ativas nos países meso-orientais que sofreram supostas revoluções democráticas nos últimos 20 anos. O que elas promovem? A chamada “exportação de democracia”. Incutir o desejo de revolta na parcelada população que não se sente representada por um governo, tenha ele qualquer tipologia, resulta na aparência enganosa de que, ao ouvir a voz dos revoltados, a igualdade e a justiça surgirão no céu em suas carruagens de fogo.

Na prática, democracias não existem. Essa inexistência não se dá por serem impraticáveis, boas ou ruins, mas sim por serem desnecessárias. O que é possível de ser observado são conjuntos empresariais em diálogo, seus funcionários e os produtos, finais ou potenciais. Aqueles que não se enquadram nesse quadro são peões úteis mantidos pelas crenças de que os livros sonham o mundo e a história é apreensível.

Esqueça o sentimento revolucionário. Ditaduras e democracias são o céu com almofadas. Movimentos empresariais não possuem ideologias ou sentimentos. No labirinto comunicacional, através do qual passeamos a procura de respostas, pode ser difícil observar que a Ucrânia pertence ao eixo comercial Russo. A gafe diplomática que usa os corpos dos peões úteis para pesar a balança para o lado do eixo EUA-EU é mais um dos pequenos conflitos que constroem a guerra invisível vigente há mais de três décadas.

O apoio de grande parte do ocidente aos extremistas armados na Síria ou a “memeficação” do jovem ditador norte-coreano são resultado dos movimentos no único campo no qual a guerra é visível: a mídia jornalística. A impressa atrativa permite que todos possam proferir opiniões sobre todos os assuntos. A parte mais desagradável é que todos nós “compartilhamos” a degustação do sangue insípido derramado nesses microconflitos.

A Coreia do Norte não é uma ameaça por possuir um rapaz rechonchudo de penteado estranho no poder. O risco imensurável está na dissolução das fronteiras econômicas desse país. Pois, apertado entre os eixos financeiros da China e dos EUA, a reserva mineral norte-coreana pode reformular o cenário econômico, caso caia para um lado, ou para outro. Ao invadir a Coreia do Norte, o eixo norte-americano estará a entrar em conflito não com o penteado de Kim Jong-um, mas sim com o contraditório e extenso império comercial chinês. O oposto também é verdadeiro.

Mesmo com tais ideias na cabeça, o ar deve abandonar os pulmões, pois essa não é uma guerra descritível. Os incontáveis microconflitos espalhados pelo globo não possuem protagonistas reais, apenas ilustrações despreocupadamente desenhadas pela imprensa inespecializada. Diante do próximo roteiro de política internacional apresentado por esse Fantástico Mundo do LOB (Line Of Business) que é a comunidade virtual, tente apresentá-lo ao primeiro cão que encontrar pela rua. Se o cão lhe presentear com uma opinião razoável sobre o preço do gás russo, confie, a notícia é real.

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