Lies da natureza

Cidade, o meu terreno baldio pessoal. Existem alguns lugares que são difíceis de definir, outros não. Conseguimos apontar prédios comerciais, casas, escolas, ranchos, parques com tanta facilidade que às vezes nem precisamos vê-los para ter uma imagem básica de suas formas entediantes. Mas há outros espaços que não parecem ser regidos pelas mesmas leis. Há um terreno baldio em frente ao prédio em que moro. As pessoas jogavam toda a espécie de lixo no lugar onde se pensava ser a calçada desse lugar invisível. Talvez apenas tivessem uma péssima mira e o lixo devesse ir parar mais para dentro do terreno. Não sei até que nível isso incomodava o próprio terreno.

Uma calçada seria definida por seu uso? Não é a presença do lixo que realmente espanta os transeuntes. Como quando as formigas encontram um obstáculo em seu caminho, formam novas travessias. Duas casa antes do terreno baldio, há uma fabulosa residência de uma fabulosa família que decidiu fabulosamente erigir uma varanda frontal sobre o espaço reservado para a calçada. Ou seja, temos esquina-calçada-varanda-calçada-lixo-calçada-esquina. Um transeunte desavisado certamente não se daria ao trabalho de atravessar a rua e iria chocar-se com a mureta da varanda da fabulosa família.

Isso foi o que ocorreu com um desses exigentes esportistas amadores de idade e meia, mês passado. Distraído com a jovem música eletrônica a explodir em seus phones de ouvido laranja marca-texto, o esportista amador foi golpeado pela mureta e dobrou-se para dentro da varanda de modo fabuloso. Irritado por ter perdido toda uma manhã de paz de espírito conquistada com meses de empenho na superação do ambiente inóspito de um bairro planejado e construído durante anos para evitar os esportistas, o homem da música laranja marca-texto esbravejou e esbravejou e novamente esbravejou.

Atraído por tantos esbravejamentos, um dos vizinhos abordou o maratonista sem paz de espírito e lhe encorajou a continuar sua caminhada e a talvez realizar uma denúncia do “mau” uso do espaço público. O vizinho não conhecia o esportista, mas sentiu-se na obrigação de exercer suas funções de defensor da ordem pública. Nesse momento me foi esclarecida uma dúvida latente há meses: por que aquele vizinho e as dezenas de pessoas com as quais divide sua residência escondem-se por detrás de muros cinza de mais de dois metros e meio de altura? Resposta: para manter a ordem privada.

Terminada a discussão com uma forte crítica ao partido governista e a promessa de que haveria uma denúncia formal com a indicação da rua e do ponto detalhado onde a infração acertara os joelhos do esportista.

Logo adiante os phones laranja marca-texto atravessaram a rua para evitar passar diante do terreno baldio repleto de lixo.

Agora o som das máquinas que cortam ferragens enche meus sensíveis ouvidos, acostumados à música das canetas esferográficas (azul, preto ou vermelho). Por alguma razão relacionei o barulho dessa enervante abelha gigante de metal com as reclamações do esportista de idade e meia e isso me levou, momentaneamente, a odiá-lo.

Os funcionários da prefeitura demorarão meses para concluir o trabalho e cortarão duzentas vezes mais ferragens do que o necessário, pois parecem divertir-se com o manuseio das ferramentas elétricas (como se fossem katanas justiceiras da construção civil). Então teremos um terreno baldio cercado por um muro de mais de dois metros.

Quanta expectativa! Espero que possamos fazer uma bela inauguração. Não me lembro da última vez que tive um terreno baldio totalmente cercado bem na minha rua, assim, tão próximo de casa. E uma vista tão privilegiada para fotografias eventuais.

Infelizmente os moradores da redondeza terão que pular os muros para manter uma de suas práticas rituais mais antigas e, pelo que pude observar nos últimos meses, bastante sólida: o corte da brachiaria com faca de cozinha.

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