A era do spoiler

Imaginemos a seguinte situação do tipo “quem nunca”:

Depois de um dia cansativo de trabalho, você se dá ao prazer de procurar um filme online para assistir. Abre aquele site secreto que todos conhecem, janelas de pop-ups escondidas malignamente sob a forma de um minúsculo x (algumas vezes um ‘.”) e depois de muitas barreiras tecnológicas e riscos virais, a legenda não funciona. Decide ler alguns comentários para saber se o arquivo está corrompido e logo no início lê a seguinte afirmativa: “… é um absurdo! Como que matam o personagem principal no final do filme?!!”.

Hoje é bem comum esse tipo de situação, mas os spoilers sempre existiram. Serzinhos inocentes que já no tempo da minha avó estragavam o tempero de um prato regional ao dizer do que ele era feito. Como eu queria ter experimentado sarapatel sem as famosas críticas culinárias. O problema não é saber do que é feito, mas o modo como me disseram como foi feito. Toda a teatralização e descrição minuciosa sobre como é extraído tal miúdo e processado e engordurado até virar aquele prato cheiroso e saboroso, que perdeu a graça antes mesmo de ser experimentado. Por isso admiro minha mãe. Provavelmente sofreu com spoilers e aprendeu a se comportar de um modo mais adequado a essa nova geração que clama por curiosidade. “É bonito? É cheiroso? Parece gostoso? Então experimenta que depois eu conto”. E daí veio meu amor por bucho cozido com batatas. Não preciso chamar de dobradinha para esconder seu ingrediente. É bucho e pronto!

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Caderno de Anotações, 2014, p. 071.

Eu gosto de informação, quem não gosta. É sempre bom saber das coisas, como dizia minha avó (aposto que ela não sabia o que tinha no sarapatel da mãe dela…). Mas até que ponto o saber nos tira o tesão para o sentir, descobrir e até rever? Um espoliador, como é chamado em português, é muito bem vindo quando você o chama. Quando, depois da experiência primeira, buscam-se outras visões, outras apreciações.

Não é apenas na culinária e no dia a dia, do mais corriqueiro, que o espoliador estraga o tempero das coisas. Quem nunca entrou numa galeria e se arrependeu de ter lido o texto (curatorial ou não) colado na parede antes de adentrar no espaço da mostra? Bem escritos ou não, alguns textos fazem o papel de espoliadores. Eles conseguem roubar todo o tesão da descoberta. “Foi na melhor das intenções”. Não, não foi! É um texto que quer ser explicativo! As tradições ainda não deram margem a novas configurações, mesmo diante da crescente desnecessariedade de um público informado a priori. Não posso comer e depois saber de que é feito?

Parece que ser didático tornou-se o mesmo que espoliar. Se o máximo efeito que o processo de um artista ou um trabalho de arte surtiu num curador (figura que deve ser bem mais esperta que eu) foi a vontade de descrever o que está diante de todos, eu provavelmente passarei pelo trabalho sem notá-lo. Só quero que me contem como foi caso haja risco de morte, ou da comida esfriar.

Valeria apenas um indicativo ao final: “Se ficou perdido ou apenas quer conversar sobre algo, pergunte.”

_ Desculpe minha ignorância, mas como que é isso? Isso é arte? O que eu deveria estar vendo, porque não vejo nada além de espuma…

_ Que saudade eu tenho de espumas! Vai, pisa, soca, respira ou só olha se não te deixarem fazer nada, mas pense profundamente na espuma. Depois conversamos sobre tudo o que quiser.

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