Da linha à trama

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Se fossemos partir de um ponto qualquer relacionado à memória, certamente este não seria a retórica. Eliminada dos currículos escolares no século XIX e encarada pejorativamente como um acréscimo, (uma ornamentação do discurso),[1] a subestimamos de tal modo que partir dela seria loucura. Partir de um ponto qualquer não significa partir sem conhecimento de onde se parte. Por isso digo que é loucura. Às vezes é assim que se começa uma pesquisa, de uma vontade seguida de “você tem certeza disso?”.

Talvez eu apenas tenha sido seduzida pelo mito de Mnemósine como mãe de todas as musas. Foi o que sussurrou Mary em meu ouvido logo que acordei para esta noite de insônia. E ela não parou por aí: “a memória e a invenção se não são uma só coisa, estão muito próximas de sê-lo.”[2]

Já não vivemos nos contextos da cultura clássica ou da retórica medieval, mas é impossível, a esta altura, negar esse legado. Dos manuais de mnemotécnicas para a vida, as ordenações de lugares e imagens mentais corroboram não apenas com a rememoração, a organização de ideias no pensamento, mas também com a invenção. A técnica mnemônica retórica não era um meio de memorização e reprodução ponto a ponto de dados decorados, mas uma ferramenta de invenção de material a ser usado na oratória. A memória era uma arte composicional.

Como variação da palavra latina inventio tem-se a “invenção” (criação de algo novo, ou pelo menos diferente) e o “inventário” (armazenamento de muitos materiais diferentes). Segundo Mary (2011, p.36-37), este armazenamento é ordenado e não aleatório:

[…] roupas jogadas no fundo de um armário não podem ser chamadas de “inventariadas”. Um inventário deve ter uma ordem. Os materiais inventariados são contados e dispostos em locais dentro de uma estrutura global que permite que qualquer item seja recuperado de maneira fácil e rápida. […] Ter um “inventário” é uma condição para a “invenção”. Tal afirmação pressupõe não apenas que não se pode criar (“inventar”) sem um depósito de memória (“inventário”) a partir do qual e com o qual inventar, mas também que tal depósito de memória está efetivamente “inventariado”, que seus materiais se encontram em “locais” prontamente recuperáveis. Algum tipo de estrutura locacional é de fato um pré-requisito para qualquer pensamento inventivo.

Eis então a presentificação do meu fascínio pela memória. É por meio de sua existência como mãe das musas que vem a vontade de criar um inventário coerente e ordenado de objetos e vivências para então torná-lo em algo novo (inventio). É lugar-comum dizer que nada surge do zero (mesmo que a ele relacionado estejam todos os outros números e composições numéricas). Se eu digo “cadeira”, certamente minha avó dirá “senta”, minha mãe “está quebrada” e eu diria “vermelha”, mas todas ainda são cadeiras. Se eu disser “máquina de costura” minha avó dirá “era da minha avó, mas ainda costura”, minha mãe “está na casa da sua avó” e eu diria “entrenós”, mas já não tenho certeza se todas são máquinas de costura.

Algo aconteceu no caminho entre a memória e a existência material. O que começou com pontos desordenados, em uma passagem e reinvenção do tempo, atualizou-se em linha para dar forma ornamentada àquilo que havia sido esquecido. As linhas, agora, parecem querer saltar do novelo para um ordenamento em tramas (inventário). Um enredo que se acumula ao entorno da memória e a ela quer dar forma e vida.

De que modo essa vida vai respirar, de que modo ela vai alcançar outros inventários, é história para novas insônias…

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[1] E junto da exclusão da retórica dos currículos, o termo “ornamentação” ganhou sentido pejorativo de elemento supérfluo.  A própria palavra de origem latina ornamentum era usada para referir-se a uma ferramenta que permite outra coisa funcionar, o que é útil. Claro, não culpo o século XIX por grandes confusões em minha pesquisa acadêmica sobre ornamentação medieval, mas é preciso deixar claro que as palavras são tão vivas quanto aqueles que as utilizam (assim como as imagens – Cf. “Antes da extinção” in ECO, Umberto. A memória vegetal: e outros escritos de bibliofilia. Rio de Janeiro: Record, 2010, p.209-215).  Se hoje temos um legado que adora comprar porta retratos floridos, mas acha que todo elemento decorativo é um acréscimo, é porque ainda não paramos para refletir mais profundamente sobre a participação da ornamentação na vida útil.

[2] Eu não consigo ainda chamá-la de modo mais adequado a sua posição. Mary Carruthers é uma das maiores autoridades nos estudos de tradição retórica da memória, clássica e medieval, mas, no momento, é minha Mary que anda pra lá e pra cá comigo. [CARRUTHERS, Mary. A técnica do pensamento: meditação, retórica e a construção de imagens (400-1200). Campinas: Unicamp, 2011, p.31].

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