“Isso é bobagem!”

[texto publicado no Caderno Pensar do Jornal A Gazeta, em 12 de julho de 2014, p. 8-9]

“Isso é bobagem!” É o que Marcello Grassmann (1925-2013) diria sobre o mito do gênio romântico, solitário e entristecido. Todo seu arsenal provindo da imaginária medieval e renascentista refletia mais que um bestiário soturno, repleto de zoomorfias. Desde seus “Cavaleiros Noturnos” (1947), Grassmann se divertiu ao criar formas incategorizáveis. A recusa de acabrunhar-se caia bem no jovem artista saído da cidade de São Simão (SP), disposto a “viver do que faço”.

Logo vieram os prêmios da Bienal de São Paulo (1951) e do Salão Nacional de Belas Artes (1953). Na mesma velocidade em que se tornava reconhecido, o artista se distanciava de um simples expressionismo presente em “19 Pintores”, mostra organizada na Galeria Prestes Maia, em 1947. Nos 60’s ele já estava no Olimpo dos gravuristas brasileiros. Mas, tal patamar não lhe era agradável. Para a maioria, a unanimidade é a glória, para Grassmann ela era problemática: “Essa é a maneira que arranjaram para colocar minha geração no passado e à margem da atualidade.”

Era esse conforto estagnado que ele criticava na pintura brasileira. Atingir a aceitação pública nunca foi seu objetivo, ainda que tenha ocorrido. As diferenças entre continuidade crescente e invariabilidade é uma das lições que aprendemos ao perscrutar a trajetória desse grande fazedor de monstros emocionados.

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Marcello GraSSMANN, GRAVURa em metal, s. data.

 

O livro “Marcello Grassmann” (SESI-SP, 2013), organizado por Mayra Laudanna, traz trechos de textos críticos sobre o artista, publicados em diversos veículos durante sua vida. Os textos, separados pelas técnicas usadas por Grassmann (gravura em metal, xilo, lito e desenho), foram escritos como comentários a exposições vigentes naquele momento. Isso os coloca, é certo, como documentos históricos. Não obstante, seguir a carreira de um artista por recortes de jornais é arriscado. Por vezes, os autores passam Grassmann como alguém negativamente inocente ante o mercado, ou como velho revoltado com os caminhos da arte, caso das palavras de Alberto Beuttenmuller.

A indignação do gravurista não estava relacionada a qualquer negação do experimentalismo vigente nos 70’s. Apesar das palavras de Geraldo Ferraz tentarem criar uma oposição entre os sucessos descendentes da geração neoconcreta e os unânimes esquecidos das artes gráficas. De fato, o criador de bestas-feras não via com bons olhos a redução das artes gráficas ao comercializável e a desmedida abrangência com que se encarava os discursos novidadeiros. O problema de tais discursos não estava na novidade e sim em assumirem-se o mais atual.

Ao expressar o modo como encarava o próprio trabalho, Grassmann não ressalta o primor técnico: “Como clima, como meio de apresentar uma realidade… a minha realidade, eu uso certa simbologia que tem ecos.” Na mesma entrevista ele diz que, se é a maioria que defini o contemporâneo, então esse é repetitivo e o anacrônico é um ótimo caminho para ser atemporal.

A atualidade de sua fala é sentida hoje, com a ascensão das ideias de Aby Warburg no Brasil. Talvez nossa arte contemporânea tenha recusado-se a assumir o valor das imagens sobreviventes durante as últimas três décadas. O que agora soa tão acertado, já se encontrava expresso na sinuosidade burílica das linhas de Grassmann.

Em última análise, sua insatisfação estava voltada para as ausências de um campo o qual se empenhou em solidificar. Geraldo Ferraz dizia que as xilos de Grassmann não eram para “este mundo de Brasil”. Diferenciar a gravura “artística” da gravura “subordinada” é um erro que suga os gravadores para o fosso passadista. O “medo de ilustrar” apenas diminuiria o valor dos conteúdos da gravura de Grassmann. Ainda há, nas artes gráficas, o medo de subordinar-se e assim perder teor artístico.

Abramo apontava, em 1950, uma possível queda para a monotonia repetitiva nas xilos do pupilo. Isso se verificaria na separação técnica/tema. Felizmente, o problema do primeiro Grassmann desaparece nas décadas seguintes. Pois a técnica foi de encontro ao meio, que foi ao tema. Eis que o trabalho de um artista é reconhecível sem ser enfastiante. Já Frederico Morais dizia que seus monstros foram domesticados. Isso não indica debilidade, mas sim uma relação em que o desenho é basal e reflete influências das técnicas experimentadas por anos. Daí a sensação de que não há mudança drástica na visualidade dos trabalhos. Há mudanças, porém, alicerçadas por uma coerência inabalável.

Adir Botelho diz que em Grassmann a técnica é um decidido elemento emocional. Em Grassmann, expressão, forma e conteúdo não se separam. Assim, tudo que aprendeu com Lívio Abramo e Goeldi o fez ainda mais próximo de Bosch, Goya e Ensor. Anacrônico e coerente, sólido e dramático. Só não seria romântico, pois as vanguardas sempre tomam o fardo idealista e Grassmann era diferente: “Eu sou da retaguarda, não é?”

[resenha do livro “Marcello Grassmann”. Organização dos textos Mayra Laudanna; Fotografia das obras Chris von Ameln. São Paulo: SESI-SP Editora, 2013.]

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