Peixinhos dourados e arte colaborativa

Goldfish 04

“Comer e Dormir para depois Passear”, 2014.

Dignidade e moral são coisas parecidas com peixinhos dourados, que te exigem alimento e limpeza e te retribuem com sua própria satisfação em alimentar e limpar. Nunca fui muito de animais de estimação, mas, na inevitabilidade de escolher, prefiro aqueles que poderiam ser nossos donos, ou que muitas vezes sintam-se assim. A possibilidade de que os ratinhos de laboratório façam experiências com os humanos ao invés do oposto é tão reconfortante quanto qualquer retribuição de interesses. Eu gosto dos animais e os animais gostam de mim.

Trate as pessoas como se fossem animais de estimação grandes e pesados. Não há necessidade de realmente dispensar estima. Apenas trate-as como grandes bolas de pelo felpudas, saltitantes e irremediavelmente carentes. Divirta-se apertando-as, rolando-as de uma lado para o outro e hipnotizando-as com novelos de lã e programas de TV. Apenas não deixe que dominem sua cama e tome cuidado com suas variações de humor, reações adversas a alimentos comuns e problemas respiratórios. Lembre-se que animais de estimação dos outros, principalmente os mais ferozes, somente permitem a aproximação após alguns biscoitos ou peças de carne bem maturada. Caso não queira gastar seus suprimentos, deixe essas fofuras onde estão ou assuma seu posto permanente no quintal (o que lhe fará perder a liberdade e comer ração o ano todo. Mas, considere que algumas rações valem mais a pena que coca-cola e misto quente).

Aos bichos de rua, não dedique olhares significativos, pois isso é cruel e a crueldade é um artifício dominado por poucos mestres do cinema e garçons em fim de noite.

Nesse sonho esdrúxulo (detestável palavra) a boa vontade desacompanhada da boa técnica não é permitida. Elimine-se a crueldade e também a piedade dos empenhos primitivos. Aos mais experientes ou aos virtuoses o uso dessas ferramentas relacionais é não apenas permitido como aconselhado.

Esta é, em algum sentido, uma apreciação dos eixos discursivos dos trabalhos de Santiago Sierra. Aqui, onde não há água para peixes velhos, não criamos Encontros para saborear o pão e o vinho gratuitos da elite sem Caras. Cada atuação é paga pelo que vale em seu contexto inventado. Somos pagos com moedas ou com prazer, com moedas e prazer e mesmo com o desprazer que ensina melhor que o elogio. É certo que não deixamos de cobrar e não somos pagos com despretensão, essa coisa que pode ter existido um dia, mesmo que não consiga me recordar nem quando nem onde.

Caso seja necessário propor escalpelar os animais, proponha. Caso seja necessário banhá-los em leite de rosas, proponha. Porém, o escalpo e a hidratação devem estar submetidos a uma linha de interesses que desconsidere o escalpo e a hidratação como valores a serem atingidos. Diante de uma linha tatuada sobre vários corpos enfileirados eu ainda me pergunto… Diante da estranha sequência de buracos no campo eu ainda me pergunto… Diante dos casais que se exibem no chão do auditório eu ainda me pergunto… Por outro lado, diante das pessoas paradas na praça, dos estudantes tomando cerveja no bar, dos jornalistas tomando café para a câmera, não paro para me perguntar algo.

O artista primeiramente interessado em ser cruel com seu público dificilmente produz algo que preste (ou algo de modo geral). Da mesma maneira, aquele prioritariamente piedoso estará estagnado. Para não afirmar que nada acontece, diga-se que no fim ambos possuirão um aquário cheio de peixes mortos, empanturrados ou esfomeados, e nenhum gato rechonchudo para observar a calamidade.

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