Porta Sem Aldrava II

Porta sem ald 02

Caderno de Anotações, 2014, p. 083.

 “(…) enfrentar uma onda é uma coisa diferente de ter a cabeça debaixo d’água…”[1]

 

Ignorar um suposto adversário que não está minimamente interessado em você é a pior das estratégias de guerra que posso conceber. Ainda compreendo o amor platônico, mas o oposto disso não cabe nem mesmo nos filmes mais chatos da Europa Oriental. Eis a pataquada completa de grande parte do professorado de ensino básico: ignorem as tecnologias que nós, adultos com mais de 40, não conseguimos assimilar e, mesmo que elas já estejam presentes em todos os espaços habitáveis, um dia acordaremos num mundo como era na “nossa época”.

Não havia me atentado para a existência de normativas e leis que proíbem a entrada de mobiles nas salas de aula até travar contato com o ódio dos educadores profissionais em relação a essas poderosas ferramentas. Seu uso pelos alunos é repudiado e a mais sutil menção a presença de celulares em atividades pedagógicas tem o efeito da explosão de uma bomba de gás malcheiroso em ambiente fechado.

Por alguma razão, ao aprender a escrever, não pensei que a finalidade do lápis fosse (apenas) ser fincado nas têmporas de meus colegas de classe.  Quando tomei um livro nas mãos pela primeira vez, não pensei que a finalidade das páginas era (apenas) tornarem-se borrolhos a serem cuspidos na nuca dos transeuntes. Toda a ferramenta possui possibilidades positivas e negativas. Seu uso e desenvolvimento dependem dos exemplos observados e da integração de suas funções com as atividades quotidianas, o que inclui o ensino. Ignorar a forte e constante presença dos mobiles na vida das últimas e das futuras gerações é uma atitude tão patética quanto à do analfabeto que se recusa a deixar os filhos aprenderem a ler e escrever.

Uma ferramenta pode ser usada para produzir ou para destruir, para integrar ou para corromper e ignorar a existência das ferramentas que compõem a vida dos alunos é umas das piores atitudes possíveis para profissionais da educação. Na passagem das políticas do Homo Faber para as do Homo Ludens, aqueles que ainda enxergam o Novo como “passatempo” e “brinquedos inúteis” tristemente apagam-se da realidade com borracha de duas cores.

Certo é que não são todos os responsáveis pelo ensino que embarcam nessa alucinação gargalhante e acabam por serem desacreditados aos olhos de seus alunos. Escuto profissionais que superam mesmo as hierarquias e proibições de suas instituições para requisitarem ajuda de seus pupilos numa relação de troca possível apenas para aqueles que ensinam sem jamais abandonar o desejo de aprender. Atentar para os 13 motivos pelos quais se aconselha o uso dos mobiles em sala de aula, indicados pela Policy Guidelines for Mobile Education da UNESCO, pode ser um bom começo:

1 – Amplia o alcance e a equidade da educação;

2 – Melhora a educação em áreas de conflito ou que sofreram desastres naturais;

3 – Assiste alunos com deficiência;

4 – Otimiza o tempo na sala de aula;

5- Permite que se aprenda em qualquer hora e lugar;

6 – Constrói novas comunidades de aprendizado;

7 – Dá suporte para a aprendizagem in loco;

8 – Aproxima o aprendizado formal do informal;

9 – Provê avaliação e feedback imediatos;

10 – Facilita o aprendizado personalizado;

11 – Melhora a aprendizagem contínua;

12 – Melhora a comunicação;

13 – Maximiza a relação custo-benefício da educação;

Dentre as recomendações, surge a constante necessidade de formação dos professores. Sem tal formação, cada vez mais os alunos enxergam o professor como um sujeito ultrapassado, fraco e meio caduco, o que resulta no desrespeito. Algo pior e que, nesse caminho, será praticamente inevitável, é que o professor apareça aos olhos dos mais jovens como um charlatão, pois age e professa discursos incongruentes com a realidade.

É verdade que acompanhar o ritmo acelerado e os saltos audaciosos das tecnologias de comunicação pode ser tão difícil quanto dormir num baile funk. Ainda assim, ao ignorar a corrida com dedos nos ouvidos e olhos fechados, somente se escapará de ser pisoteado por pura sorte.

Cabe abrir um rasgo final para o fato de que essa disputa alucinada é apenas uma lata em todo o estoque de conservas. A separação ilusória entre otimistas e pessimistas das tecnologias de comunicação é extensa e merece outras Portas sem Aldrava.

[1] BAUDRILLARD, Jean. De um Fragmento ao Outro. São Paulo: Zouk, 2003, p. 98.

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